setembro 14, 2003

Barnabés há muitos, seus palermas!

Muito bem. Agora que o terrível segredo que impendia sobre o nosso nome foi desvendado, há que dizer com frontalidade que esta coisa da tradição é muito complicada, e antes que os exegetas de serviço comecem a decifrar-nos, sinto-me na obrigação de acrescentar novas fontes para o debate.
Ora se é verdade que o Barnabé, para o Ivan e para o André, evoca xaroposas recordações da adolescência no liceu Pedro Nunes, e que para o José Pacheco Pereira não evoca nada porque na altura andava demasiado ocupado a escrever comunicados para ter tempo para ouvir música, a mim lembra-me o meu tio-bisavô Manel Marcelino, trabalhador rural ribatejano de Arrifana, Azambuja, a quem chamavam Bernambé ou Barnabé.
Com esse nome havia também um miúdo lá da rua. O Barnabé descia as escadas do prédio numa corrida insana, era vesgo, desajeitado e não conseguia chutar uma bola a direito, o que uma vez levou a Dona Estrela [com os diabos, isto para quem interessa nunca há linques, e tanto que a Dona Estrela merecia um], do rés-do-chão esquerdo do 47 a atirar-lhe com uma cafeteira de água quente pela cabeça abaixo. Quando ele passou naquele estado em frente à padaria, a mãe do Barnabé desabafou: "Ai, vizinhas, eu não sei o que é que tem o meu Barnabé. Porque é que ele é tão diferente dos outros?" Não sei se o Sérgio Godinho terá ouvido este sound-byte lá do Alto de São João. O que sei é que hoje o Barnabé já não é diferente dos outros, porque está desempregado como toda a gente.
Claro que eu ouvia também o Pré-Histórias do Sérgio Godinho, à época em cassette. Aliás, ouvi-o tanto que enrolei a fita no gravador da minha irmã, um daqueles brancos e azuis que pareciam uma mala de senhora e que hoje em dia estão nos museus de design. A minha música preferida cantava "Dizem que os pintos não voam / este voou sobre as casas / os que não voam não querem / ou lhes cortaram as asas". A partir do momento em que a fita se tornou inaudível, virei-me para o single do Marco, que me tinha sido oferecido com os meus primeiros óculos, e que, uma vez que não tínhamos gira-discos, eu pendurava numa maçaneta da porta, enquanto fazia o disco rodar e imaginava a música.
Mas no dia em que este blog se espraiar pela lusofonia, é natural que outros leitores lembrem antes Arrigo Barnabé, o músico experimental paranaense radicado em São Paulo e autor de pérolas como Clara Crocodilo, Pô Amar é Importante e Cidade Oculta.


Arrigo Barnabé foi o primeiro compositor a musicar o Poema em Linha Recta de Álvaro de Campos. Caetano Veloso casou-o com a fadista portuguesa Maria da Fé em "Língua", uma das suas obras-primas:

Adoro nomes
Nomes em Ã
De coisa como rã e ímã...
Nomes de nomes como Scarlet Moon Chevalier
Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé,
Maria da Fé e Arrigo Barnabé

Outra tradição que também reclamamos para nós é a do Apóstolo São Barnabé, que morreu apedrejado em Chipre.



É ele o nosso patrono, bem como da ordem monástica dos barnabitas, fundada em Milão por Santo António Zacarias, e de que fez parte São Carlos Borromeu.
Por último, não esqueçamos a formosa freguesia de São Barnabé, no Concelho de Almodôvar, do lado alentejano da Serra do Caldeirão.


Será aqui que, no dia da invocação do santo, 11 de Junho, abriremos no próximo ano os trabalhos da nossa Universidade de Verão, onde participarão Fernando Seara, Nuno Morais Sarmento e José Luís Arnaut. É engraçado, não é? Isto anda tudo ligado.

Publicado por ruitavares em | TrackBack
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