O Rui, felizmente, antecipou-se à dissertação de barnabesianismo que eu tinha preparado. O que ele escreveu é importante, até porque ele é que é o pai da criança: foi quem deu a ideia do nome e do mote "o que é que tem o Barnabé que é diferente dos outros?".
É claro que este mote é um mote para nós mesmos. É um estímulo para sermos originais. É claro que este mote não nos defende de sermos exactamente iguais aos outros ou mais um para o monte. O mote está sempre prestes a virar-se contra nós enquanto pretensão de originalidade. Mas não vale a pena falar disso agora: ainda a procissão de São Barnabé vai no adro.
Voltando à letra de Sérgio Godinho. Quando a ouvia há dez anos atrás, não sabia que a canção tinha sido escrita antes do 25 de Abril. Via-a como mais uma canção do Sérgio Godinho da época revolucionária. Quando redescobri agora a letra sabendo que ela é de 1972, ela ganhou mais interesse para mim: não sei o que os sergiogodinhistas pensam, mas parece-me que ela faz referência às falsas promessas de um certo novo-riquismo da época marcelista ("a fortuna cresce nas cidades"). Uma época em que o país se estava a urbanizar rapidamente e coisas modernas chegavam às aldeias, mudando os hábitos. Revolucionário nesta altura era o capitalismo, não tanto o Sérgio Godinho. Neste contexto, o Barnabé é uma personagem exemplar que é capaz de trazer coisas boas para a "vida da gente" sem as aliciar com falsas promessas. Na sua ingenuidade, se lida trinta anos depois, parece-me que a letra tem a inteligência de não dizer qual é a solução alternativa para "curar a vida da gente". A solução é apenas um Barnabé (se calhar este nome tem algum segundo sentido histórico que eu ignoro, mas que na época se percebia), que chega e que faz qualquer coisa de diferente que não se sabe bem o que é. É um populismo suave. Anos depois, em 1979 (álbum "Campolide"), Sérgio Godinho criou um novo personagem deste género, que acho que pode ser lido como um sucessor do Barnabé, e de que eu até gosto mais, o Casimiro (mais exactamente, Casimiro Baltasar da Conceição). Trata-se de outro personagem popular que consegue, apenas com o seu bom senso ("via as coisas por dentro", tinha as "orelhas equipadas com radar", um "nariz que parecia um elefante", etc), desmontar a banha da cobra e as falsas promessas do poder local democrático.
A dissertação vai longa: para revisitar a minha tradição afectiva de criança de esquerda, gosto de um Barnabé que não traz soluções milagrosas mas que também não abdica da vontade de mudar.
E amo a língua de Caetano Veloso.
e a etelvina, senhores??? a etelvina???
Afixado por: Rui Almeida em setembro 14, 2003 12:44 PM