Uma pessoa vai de fim-de-semana e quando chega vê aquilo que menos espera: elogios. E nisso sou como o Mexia: deixa-me num certo embaraço, lido melhor com as forquilhas. Mas não me furto a desenvolver duas questões levantadas pelo Mexia e pelo Ivan: o prazer da discussão e a ligação desse prazer com a acção política.
Começo pela segunda: não sei porque me interesso pela política. Ou melhor, sei mas é muito difícil de explicar. Porque tinha 4, 5 e 6 anos durante o PREC e a minha família era ultra-politizada e militante comunista (o que quer dizer que levava a política para o seu quotidiano). Porque sinto necessidade de intervir e mudar e indignar-me e ser consequente com tudo isto. Porque a miséria me revolta e a revolta se transforma em qualquer coisa. Porque é o que sei fazer melhor. Porque sou um “homem de partido” e reconheço-me nos que também o são e que são por isso tratados como débeis mentais, gente com problemas de socialização, carneiros ou meros oportunistas. Porque, gastos todos estes argumentos, a política tem um lado lúdico – de jogo – que me estimula.
E gosto de discutir. Sempre gostei. Desde que falo. E vejo agora, com a minha filha, como isso pode nascer tão cedo. O gosto pela discussão é das características que tenho a que, confesso, mais aprecio. “Serenidade”, “consenso”, "acordo", “pacto de regime”, “interesse nacional” ou “desígnio” são como a pasta medicinal Couto: andam na boca de toda a gente. Não me revejo nestas palavras.
A discussão, sobretudo na política, é não só um jogo – que exige elasticidade e inteligência – mas também um exercício de honestidade. Deixei de ser comunista, no fim da adolescência, porque discuti muito. Sobretudo com os meus amigos, que, na sua esmagadora maioria, não o eram. Parte deles está aqui, neste blog. Confrontei as minhas convicções com as deles mas, nesse exercício de argumentar até à última gota de suor, confrontei as minhas convicções comigo mesmo. Percebi quando já estava a fazer exercícios de retórica e quando eu próprio já não acreditava no que estava a dizer. Acho, mandando a modéstia às malvas, que este é o maior dos exercícios de honestidade intelectual. Quem desiste logo do confronto ou quem nunca chega sequer a ele raramente se põe em causa. Não muda porque essa necessidade nunca lhe é imposta. São os piores dos sectários. Mas está na moda o elogio do homem discreto: que fala pouco, que só fala quando é indispensável e que mede sempre o que diz. Sem querer fazer promover o disparate incontinente – tão irritante como o silêncio calculado –, prefiro quem se arrisca no confronto.
Por fim, e socorrendo-me de Manuel Monereo, um dirigente da Esquerda Unida espanhola que ouvi ontem, o que a esquerda tem de fazer é falar, falar, falar muito. Com os pais, com os filhos, com os amigos, com os colegas, com os vizinhos. Ele estava a animar as pessoas que se queixavam do estado de manipulação e estupidificação a que chegou da comunicação social – farei mais tarde um post sobre este assunto. Dizia que a solução está aí: em usar a mais velha das armas da política – a palavra. Aqui, na blogosfera, uso-a, não disfarço, como instrumento de combate político. Mas, Mexia, não tenhas dúvidas: a minha intervenção política ultrapassa em muito a mera discussão. Dedico-lhe horas infindáveis da minha vida. Será uma droga? Não. É assim como respirar. Não se explica. Respira-se.
eu acho que deve de ter um bocado de droga porque se não eu não andava um bocadinho agarrado
Afixado por: tchernignobyl em setembro 15, 2003 07:47 PMindependentemente da diferença de registos, há uma subterrânea ligação (respiração?) entre este teu post e um outro que recentemente colocou reflexos de azul eléctrico, e em que ele diz que há só diálogo autêntico quando se age livremente. nunca falaremos de mais. mesmo que haja na palavra, pelo menos na palavra-forte, não embascadada pelo seu proferir, uma ambição de ser silêncio. de que não fosse preciso dizer. que não houvesse a resgatar tanto silêncio "queimado nas pontas", a arder numa febre de palavras sem expressão que lhe valha.
Afixado por: jpn em setembro 16, 2003 01:59 PMLançar mao de uma frase de um dirigente da Esquerda Unida talvez nao seja a melhor opçao. A IU fala, fala, fala. E tanto fala que tem discursos ambíguos e mesmo contraditórios.
Fica aqui este aviso. É preciso saber do que se fala, ou basta debitar palavras sem uma linha de pensamento coerente? Infelizmente a esquerda tem reincidido neste erro.
Existe um velho ditado Brasileiro que diz o seguinte: "Quem fala muito, dá bom-dia para cavalo"
Afixado por: IML em janeiro 4, 2004 12:17 AM