"Mãe, porque é que te pintas?" - "Para ficar bonita, filho" - "Então porque é que não ficas?"
O movimento anti-propinas foi despromovido há uns anos (por António Barreto, Miguel Sousa Tavares, José Pacheco Pereira e outros) para a lixeira dos movimentos estudantis. Na ditadura, os estudantes lutavam pela liberdade. E no início dos anos 90 lutavam para gastar em bebida no Bairro Alto o que não queriam gastar na Universidade. O argumento teve vida própria e floresceu. Agora, vemos professores como Eduardo Prado Coelho decretarem que as propinas são "de esquerda", posição em que o precursor foi Vital Moreira. Compreendo-os a todos: eu também sonho com boas bibliotecas e grandes laboratórios, como aqueles que as propinas de milhares de contos nos EUA podem pagar. Compreendo então como um amigo inteligentíssimo como o António Granado se passa da cabeça de cada vez que os reitores decidem não aumentar as propinas.
O que não lhes passa pela cabeça, contudo, é que a década que já levamos de propinas lhes tira toda a razão. Não houve nada que melhorasse na universidade com as propinas que já temos. Agora temos propinas, e eu conheço gente a dar aulas de graça no Ensino Público. E certos graus académicos, como o mestrado, tornaram-se um luxo de facto, cada vez mais socio-economicamente restricto. Eu hoje não poderia fazer o meu mestrado, porque não o poderia pagar. Mas felizmente, sou um filho do 25 de Abril, aquele tempo em que ainda se achava que o que era de esquerda era a igualdade de oportunidades.
Eu sei que em teoria tudo poderia ficar melhor com propinas. Mas então porque é que não fica?
A ironia alentejana, é da nossa lavra e por via disso tem uma identidade e um carácter. Depois, corre o mundo em liberdade com o traje e a pronúncia que o berço lhe deu. Apenas se afeiçoa aos que inteligentemente a saboreiam, com esses deita-se ao relaxo da libertinagem. Aos outros, exige-lhes o respeito que merece!
Afixado por: Isidoro de Machede em setembro 25, 2003 10:43 PM