[1] Sigo o Valete Fratres há já algum tempo e parece-me um blogue interessante, com ideias completamente opostas às minhas, que faz uma recolha de textos que muitas vezes vou ler. É por isso que linko para ele, coisa que ele não se digna a fazer ao responder-nos, aparentemente porque para ele somos "um certo blog da extrema-esquerda".
[2] Two times is too much. Mas além da posta que comentei abaixo, o Valete Fratres comentou a morte de Edward Said assim: "Edward Said, RIP. Infelizmente, as suas ideias continuarão vivas..."
[3] Que ideias de Edward Said é que "infelizmente" "continuarão vivas"? Era Said um apologista do totalitarismo? Não; Said era no máximo, um social-democrata, ou um reformista. Um fundamentalista islâmico? Tão pouco. Said era um cristão, educado no protestantismo anglicano (ao ler os nossos filo-americanos, daria a sensação de que estas coisas vacinavam para a vida) e defensor do secularismo. Apoiante do terrorismo? Pelo contrário. Apesar de ter perdido o seu país, a Palestina, Said defendeu sempre a resistência civil pacífica. Militante da OLP durante anos, afastou-se de Arafat em protesto contra a natureza corrupta da sua presidência. Talvez pudesse, enfim, ter sido um desses perigosos relativistas pós-modernos a quem está na moda, hoje, culpar de tudo e da morte do Manolete; mas nem isso, como verá quem ler a sua obra em história e crítica da literatura. Finalmente, um dos últimos exemplos da sua actividade política foi ter fundado com Daniel Barenboïm, pianista israelo-argentino (o próprio Said era um pianista que poderia ter seguido carreira, veja-se a opinião, aliás muito crítica em termos políticos, de Christopher Hitchens) uma orquestra da paz com jovens israelitas e palestinianos.
[4] Em suma, mesmo não subscrevendo a 100% a obra de Edward Said (porque raio teria de o fazer?), parece-me claro que foi alguém que manteve uma enorme honradez e dignidade em tempos difíceis. E um ataque destes é ou cobarde, ou ignorante, ou desonesto – ou tudo ao mesmo tempo – e por cima ridículo.
[5] Portanto, entendamo-nos de uma vez por todas: o debate de ideias não é nem um campo de futebol, nem um campo de concentração.
Publicado por ruitavares em | TrackBackNunca li o Edward Said, mas fiquei com vontade de o fazer. E não é pelo que o Rui escreve, infelizmente.
Afixado por: Andre em setembro 26, 2003 08:41 PMjá agora: infelizmente porquê? abraço, rui
Afixado por: rui tavares em setembro 27, 2003 02:56 AM