setembro 27, 2003

[XL1] Romance de Estrada

"...Já me vieram uma vez perguntar se o Barnabé, porque foi feito durante a "primavera marcelista", era o Marcelo Caetano. Por amor de Deus! Depois chegaram a perguntar-me se era o Otelo!..." Sérgio Godinho, entrevistado por Daniel Oliveira e Luís Leiria.

Entrevista: Daniel Oliveira e Luís Leiria
Edição original Vida Mundial Abril de 99.

Dos primeiros anos da década de 70 até hoje, Sérgio Godinho cantou Portugal, por dentro e por fora, cá dentro e lá fora. Cantou a esperança nas vésperas do fim da ditadura; o «excesso e a contenção» do Verão quente, em que «se desenhavam porcas e paredes de um edifício que não existia»; o desalento do fim da revolução; os primeiros anos de conversão dos que foram pedindo: «arranja-me um emprego». Perguntou: «que é do futuro que nos mostraram naquele dia de sol?» Falou de Etelvina e de Alice, da guerra e da droga. E cantou desencontros, «como à espera do comboio na paragem do autocarro». No amor e na política. Escolhemos as músicas. E ele falou delas.


Cantiga da Velha Mãe e dos Seus Dois Filhos
Estou quase a ir embora, mas deixo aqui /duas palavras p'ra um filho que perdi /Não quero dar-te conselhos /Mas se é teu próprio irmão que te faz viver de joelhos /Doa a quem doer, faz o que tens a fazer

A letra nasceu para uma música do Zeca Afonso, que eu conheci em Paris. Ele era uma personagem realmente fascinante, estava sempre a disparar em todas as direcções, era extremamente curioso, tinha um discurso múltiplo e um humor sempre presente. Nós estávamos a começar a compor. O Zé Mário Branco, um pouco mais adiantado que eu, compunha há mais tempo. Eu preparava o material para o meu primeiro disco, Os Sobreviventes. E o Zeca ficou muito entusiasmado, achava que aquilo era muito diferente do que ele fazia. Dizia: «Eh, pá, eu estou ultrapassado, vocês é que estão a fazer coisas novas...» O Zeca para mim era uma paixão, acho que nunca ficou ultrapassado. Mesmo hoje ainda se nota nos discos dele uma modernidade muito grande.

Ele tinha uma música, que é hoje o Maio, Maduro Maio, para a qual não tinha letra. E numa conversa apareceu a hipótese de eu fazer a letra para ela. Comecei a pensar num caso de memória antiga, que o Zeca tem às vezes nas suas canções. E fiz essa letra sobre a música do Maio, Maduro Maio. Mais tarde, o Zeca foi a Paris para gravar as Cantigas do Maio, e já se tinha esquecido completamente do pedido. Entretanto tinha feito uma letra para aquilo, que é muito bonita; e eu fiquei com o filho nos braços, com aquela letra pendurada.

Engoli aquilo bastante bem, porque o Zeca era tão genuíno, que eu sabia que não havia nenhuma espécie de sacanice. Então, o Zé Mário ofereceu-se para fazer uma música para a letra. Nunca fiquei muito satisfeito com a gravação da minha versão, não gostei, vocalmente acho que é pouco interessante, eu estava muito preso naquela canção. Felizmente, depois, o Zé Mário gravou-a de outra maneira. Há pouco tempo, uma professora universitária que estava a fazer um trabalho sobre Brecht veio perguntar-me se aquilo tinha que ver com o Brecht, porque o Zé Mário pôs-lhe como subtítulo Mãe Coragem. Não tem. Só tem na medida em que aquele tipo de personagens existe muito no teatro brechtiano - é mais uma questão de imagens do que ser realmente a tradução de uma peça como A Mãe Coragem.

Que Força É Essa
Que força é essa /que força é essa /que trazes nos braços /que só te serve para obedecer /que só te manda obedecer /Que força é essa, amigo /que força é essa, amigo /que te põe de bem com outros /e de mal contigo

É inspirada num certo tipo de batida sul-americana, que partiu de um olhar, de uma ideia: nós usamos muitas vezes a força real que temos de uma maneira errada. Que força é essa que tu tens realmente em ti mas não usas da maneira mais adequada? Passa uma imagem de revolta, mas também de consciencialização.

Romance de Um Dia na Estrada
Andava há já vinte dias /Ao frio, ao vento e à fome /Às escondidas da sorte /Um dia fraco, outro forte /Que o dia em que se não come /É um dia a menos para a morte /Um dia fraco, outro forte

Nesses anos, andava de facto na estrada. Esse nome tinha de aparecer, porque o On the Road foi o livro que me fez partir, tive uma necessidade absoluta e quase física de partir e conhecer outras coisas, de vagabundear. E dessa vagabundagem faz parte uma aprendizagem vivencial, sexual, etc. O Romance de Um Dia na Estrada segue muito um certo padrão de romance, no sentido antigo do termo, da tradição oral. É uma canção folk, mas reflecte muito a maneira como eu vivia... Sobretudo eu era muito experimentador e vivencial, na criação, na vida, na comida... Tem muito que ver com uma geração em que as pessoas tiveram de partir, seja por razões económicas, seja para fugir à guerra. E os portugueses sempre foram um bocadinho aventureiros nesse aspecto: se bem que mais On the ocean...

A Noite Passada
A noite passada um paredão ruiu l pela fresta aberta o meu peito fugiu /estavas do outro lado a tricotar janelas /vias-me em segredo ao debruçar-te nelas /cheguei-me a ti disse baixinho "Olá" /toquei-te no ombro e a marca ficou lá /o sol inteiro caiu entre os montes /e então olhaste /depois sorriste /disseste "ainda bem que voltaste"

É uma espécie de trip, é uma alucinação que começa com «Acordei com o teu beijo» mas é por aí que começa o sonho. É uma canção que tem qualquer coisa de especial para mim e é das poucas desse tempo que eu continuo a cantar e que atravessou gerações, o que me dá muito prazer - se as canto é porque sinto que há uma frescura nelas.

Há outras com menos frescura. É natural. Não é que o datado seja um defeito em si; o datado pode ter o seu charme, desde que seja bem usado. Mas também há canções, não sei por que razão, que nunca me deu jeito cantar em palco. Num espectáculo que fiz primeiro na Expo e depois no Rivoli com os Clã, eles queriam tocar canções que não fossem as mais recorrentes. E puseram O Homem-Fantasma, que é uma canção do Pano Cru que eu nunca tinha cantado ao vivo. Fizeram um arranjo que me deu muito gozo, não sei por que nunca tinha cantado aquilo. Mas há canções que por alguma razão não continuaram a existir, porque só se as continuasse a cantar continuariam.

De Coração e Raça
Sou português de coração e raça /meio século comido pela traça /fechados numa caixa /e agora ou vai ou racha /e agora ou vai ou racha

É um bocadinho forçada. Há coisas que nascem mais tortas que outras - não quer dizer que a facilidade ou dificuldade com que as coisas saem seja um critério, há as canções que me dão imenso trabalho mas são boas. As vezes é muito perigoso quando nos damos conta de que nos estamos a imitar a nós próprios, nos estamos a repetir - todos nós temos fórmulas para compor, para escrever. Não acho que seja das peças mais genuínas que tenho.

Um Tractor
Um tractor /dá que fazer ao suar /dos que põem na sementeira /as sementes da maneira /como as coisas se farão /e o nome revolução /pode bem ser atribuído /a um tractor assim usado /a um braço assim estendido /entre o futuro e o passado.

Uma homenagem às cooperativas que apareceram na altura, mas muito ligada também à minha amizade com o Camilo Mortágua, na altura da cooperativa da Torre Bela, que parecia ser uma tentativa de fazer algo diferente, mais desenquadrado do aparelho do PCP. Aquilo que a LUAR a seguir ao 25 de Abril procurou fazer, e que passava muito pela cabeça do Camilo, eram coisas como ocupações para fazer creches, coisas de outro teor que realmente tinham algo de anarquismo, no sentido nobre do termo.

O Tractor é uma homenagem à máquina, quando ela pode conviver com as pessoas e pode ajudar à construção colectiva de alguma coisa. É uma canção que saiu bem, que tem um tipo de cadência em que quase estamos a ver o tractor a funcionar. É talvez uma canção datada mas com charme.

Organização Popular
E da conjunção destes factores /pouco a pouco nasceu a ideia /de formar comissões de moradores /elegíveis em assembleia /e exigimos muito /fizemos projectos /ocupámos casas /e erguemos tectos /com a população /e até alguns arquitectos.

Liberdade
Vivemos tantos anos a falar pela calada /Só se pode querer tudo quando não se teve nada /Só quer a vida cheia quem teve a vida parada /Só quer a vida cheia quem teve a vida parada /Só há liberdade a sério quando houver /A paz, o pão /habitação /saúde, educação.

A Organização Popular fala de comissões de moradores e de trabalhadores da maneira como estavam organizadas na altura. Há coisas que são um espelho de um determinado momento, da época. Essa é como um jornal de parede, assim como Liberdade, que é um grafito em rock. Ela tem muito pouca letra, tem só a urgência: «só se pode querer tudo quando não se teve nada». É pegar em palavras de ordem, em conceitos que são simples, mas que vivem muito da música e da contundência do refrão. Aliás, cantei-a agora no Rivolitz num arranjo muito parecido, porque ela já tinha aquele ritmo rock.

Os Hinos
Adoradores do sangue, sempre /os hinos bebem quem os cumpre /quantos sentidos tem a palavra /que o hino tomou por escrava

Nunca fui muito virado para a canção de tipo heróico, para o hino. Penso que é uma coisa feliz que a senha do 25 de Abril tenha sido uma canção de raiz, tradicional alentejana como o Grândola e não um hino.

Barnabé
Vieram profetas /Vieram doutores /santos milagreiros, poetas, cantores /cada qual com um discurso diferente /pra curar a vida da gente /e a gente parada /fez orelhas moucas /que com falas dessas /as esperanças são poucas /mas quando o Barnabé cá chegou /Toda a gente arribou /Toda a gente arribou /Que é que tem o Barnabé, que é diferente dos outros?

Já me vieram uma vez perguntar se o Barnabé, porque foi feito durante a "primavera marcelista", era o Marcelo Caetano. Por amor de Deus! Depois chegaram a perguntar-me se era o Otelo!

Os Demónios de Alcácer Quibir
E o D. Sebastião levou tantas na pinha /que ao voltar cá encontrou a vizinha /espanhola sentada na cama, deitada no trono /e o país mudado de dono.

Foi feita para o filme do Fonseca e Costa, para o qual fiz várias canções, e a proposta está dentro da personagem, uma espécie de saltimbanco que toca viola; por isso a linguagem era um bocado básica, muito irónica, uma maneira popular de contar uma história. Tem um tom muito chocarreiro em relação à nossa história, é uma canção que dentro da nossa ironia é muito violenta. É uma crítica da intenção expansionista dos portugueses da época que influenciaram um miúdo, contra uma grande parte da corte, a participar daquela aventura completamente insensata. Inspirei-me no Oliveira Martins, que é tão violento como eu. Ele conta que os portugueses estiveram seis meses em festa em Lisboa e levaram dez mil guitarras para a batalha de Alcácer Quibir! Também quando digo que o mouro é que conhecia o deserto, faço, claro, uma referência à guerra colonial.

O Primeiro Dia
A princípio é simples anda-se sozinho /passa-se nas ruas bem devagarinho /está-se no silêncio e no burburinho /Embebe-se as certezas num copo de vinho /vem-nos à memória uma frase batida /hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

É uma reflexão sobre uma ruptura e o recomeço, uma canção vivencial sobre o que é uma ruptura e como a pessoa se sente de certo modo bem quando está sozinha, mas depois sente outra vez o peso da ruptura e o renascer. É uma canção iniciática.

A frase «hoje é o primeiro dia do resto da tua vida» - como eu digo no corpo da canção - já existia. Faço questão de dizer isso porque a originalidade é uma coisa relativa. Nesta canção criou-se uma nova vida para esta frase, é uma forma de originalidade que muitas vezes é uma reconversão.

É um bocado inevitável que a própria música tenha ficado um bocado batida. Houve uma altura em que deixei de a cantar, para a deixar repousar um bocadinho. Por outro lado, nos meus espectáculos não quero frustrar as expectativas de todas as pessoas, mas necessariamente vou frustrar algumas. Acho que não se deve dar só aquele repertório-tipo. No Rivolitz há até canções que não são minhas, há do Bob Dylan, do Serge Gainsbourg, do Zeca, até cantava uma música dos Doors que não está no disco. Até porque dá cabo de mim estar a fazer sempre a mesma rotina...

Lá em baixo
Lá em baixo ainda há quem passe /e um sonho que anda à solta /vem bater à minha porta /diz a senha da revolta /vou plantá-lo e pô-lo ao sol /até que se recomponha /é um sonho que acordado /vale bem quem ele sonha /lá em baixo, até já disse /que é que tem a ver comigo /e no entanto sobressalto /se me batem ao postigo

Ficou sem ser um hit, mas entrou na minha lista de preferências. Fala de coisas muito pessoais e ao mesmo tempo tem um bocado da ressaca do PREC. Claro que também fala de desencontros. O tema do amor em todas as suas vertentes para mim passa sempre pelos desencontros, pelos desamores, por precariedade, por recomeço...

Arranja-me Um Emprego
Se meto os pés para dentro /a partir de agora /eu meto-os para fora /se dizia o que penso /eu posso estar atento /e pensar para dentro /se queres que seja duro /muito bem eu serei duro /se queres que seja doce /serei doce, ai isso juro /eu quero é ser o tal /e como tal reconhecido /e assim digo-te ao ouvido /arranja-me um emprego.

São pessoas que, para se integrar na sociedade dos anos 80, na guerra pelo emprego e na ascensão social a todo o custo, vão deixando os escrúpulos para trás. Tem muito que ver com aquilo a que se chamaram os yuppies e, nos anos 90, no sentido também político, os boys. Em troca de um emprego, de um lugar, um tipo esquece que já foi esquerdista: «se mandasse neles/os teus trabalhadores seriam uns amores/Greves só das seis e meia às sete/e em frente ao casse-tête». Gente disposta a tudo.

Os Conquistadores
Mas parai, trago notícias horríveis /parai com tudo /já avisto os nossos conquistadores /Vêm num bote de madeira talhado em caravela /com um soldado de madeira a fingir de sentinela /com uma espada de madeira proferindo sentenças /enterrada que ela foi no coração doutras crenças /enterrada que ela foi, sua sombra era uma cruz /exigindo aos que morriam que gritassem: Jesus!

Foi feito para um filme, para o Soleil en face, do Pierre Cast. Quando era miúdo, lembro-me de pensar: «Em Espanha a história deve ser contada de uma forma diferente, um bocado ao contrário. Não acredito que isto seja sempre assim.» O branqueamento da história sempre me fez impressão. Foi-me pedido, pelo realizador do filme, essa visão um bocado negra da qual eu partilhava.

Os descobrimentos devem ser estudados e festejados. Mas não podemos branquear o seu lado mais negro. Temos de começar a sedimentar a nossa identidade, que é coisa que falta aos portugueses. Os anos do salazarismo foram, a esse nível, desastrosos. A identidade foi construída na base de coisas que tivemos depois de desfazer.

Com Um Brilhozinho nos Olhos
Com um brilhozinho nos olhos /dissemos, sei lá /o que nos passou pela tola /do estilo: és o number one /dou-te vinte valores /és um treze no totobola /e às duas por três /bebemos um copo /fizemos o quatro e pintámos o sete /com um brilhozinho nos olhos /ficamos imóveis /a dar uma de "tête à tête"

Uma pessoa encontra uma amiga que está contente porque fez um amigo. É tudo bastante ambíguo. O refrão é o que a outra pessoa terá dito. É um jogo de espelhos. E uma canção muito lúdica, que fala daqueles disparates que se dizem quando se está feliz: fizemos o quatro, pintámos o sete, fizemos o treze no totobola. Depois mudei para o totoloto. Não gosto que as canções sejam corpos completamente imutáveis. A letra é também um espelho das relações que aquela geração tinha.

As Horas Extraordinárias
Foi a saudade do teu braço /e o olhar que já da luz me dói /trabalhei sem dar p'lo cansaço /horas extraordinárias, foi /um dia que passou num furacão /um furacão que se amainou, só /quando, aparte o amor /eu me vi só /atirando a moeda ao ar /diz-me que cara ou coroa /eu vou ganhar /diz-me quanto eu fiz bem /em me apostar /e que bem fiz em ter por necessárias /as horas extraordinárias

Há uma ambiguidade que se sente logo no título. O conceito de horas extraordinárias está ligado ao mundo do trabalho. Não é uma relação inocente. Tem que ver com o mergulhar no trabalho. Mesmo na música isso se sente: eu sustento-me muito em criações harmónicas, mas não vou estar para aqui a fazer paleio musical. Até porque não sou especialista, sei pouco de música. Sei a prática, só sei fazê-la. Horas Extraordinárias é feita em dois acordes, propositadamente para dar esse tipo de insistência que há no trabalho: «trabalhei sem dar pelo cansaço...»

Que É do Futuro?
Isto está duro, isto está duro, isto está duro /que é do futuro, do futuro, do futuro /que nos mostraram naquele dia de sol? /Vá lá, depressa, diz a lesma ao caracol

É um apontamento. Fala um bocado do desencanto que ficou. Não sou passadista, não fico agarrado a esse desencanto, a pensar que naquele tempo é que era bom, e depois ficou mau. Mas também é importante falar disso. Esse período deixou algumas marcas negativas, mas sobretudo marcas positivas. Valeu pelo excesso e pela contenção que houve, sem se saber para onde se ia, mas experimentando formas, muitas vezes, erradas; muitas vezes, contestáveis. Houve uma força de construção que correspondia a desenhar porcas e paredes num edifício que ainda não existia.

Etelvina
Etelvina com dezasseis anos já conhecia /Todos os reformatórios da terra onde vivia /Entregaram-na a uma velha que ralhava assim /Ai, menina sem juízo /nem mereces um sorriso /Vais acabar num bueiro /sem futuro nem dinheiro.
A Alice no País dos Matraquilhos
Na classe dos repetentes /hoje vai haver mais uma falta /Alice cerra os dentes /vendo a bola que no ar ressalta /quer lá saber do exame /quer lá saber da escola /aguenta no arame /matraquilho nunca cai ao ir à bola /Alice no país dos matraquilhos é mais /do que no bairro onde vive, tem-te-não-cais

A Alice é uma sobrinha da Etelvina. Eu gosto muito da Etelvina porque é uma espécie de padrão narrativo que me agrada muito. Há uma força nestas personagens femininas, às vezes adolescentes, que não sabem muito bem a força que têm mas sabem que a têm. Não sabem como a usar, mas, apesar de tudo, conseguem dar a volta por cima.

Há uma grande lucidez na Etelvina. A Alice está mais perdida. A Etelvina cresceu no Porto, na minha cidade, num bairro popular. A Alice é mais da Brandoa, suburbana. Daqueles pequenos cafés em bairros onde não há perspectiva de futuro. Penso que uma das coisas que se intensificaram em Portugal é o desajustamento da vida suburbana em relação à integração na cidade, às perspectivas de futuro. São os problemas familiares, a questão das drogas duras. A Alice tem mais essa vertente.

Não Respire
Este bairro ao vento /é meu desamigo /quero mais eu quero mais /eu bato ao postigo /Tremo e treme o vento /quero de novo /o falcão que pousa /no meu braço o seu ovo /Não respire! /Pode respirar /Não Respire!

Tem um bocado que ver com a Alice. É a falta de resposta em relação à questão das drogas. Resume o drama dos heroinómanos: ter, depois já não ter e precisar de mais. É sobre esta angústia e sobre a falta de uma resposta adequada por parte do Estado. Sobre a impotência de um tipo que está metido naquilo, que quer sair, mas que sozinho não consegue e diz: «sou carne e osso, belo dueto, vou doar à pátria o coração e o esqueleto.» «Pode respirar, não respire» é a resposta que lhe dão e a resposta que encontra quando tem e quando não tem o que precisa.

É dos campos onde há mais preconceitos, em que gente inteligente diz as coisas mais burras. Nos últimos três, quatro anos, sente-se uma viragem em relação a este problema.

Não é nada contra os radiologistas, mas foi um radiologista, quando me dizia «não respire, pode respirar», que me transportou para outra ficção.

Fotos do Fogo
Chega-te a mim /mais perto da lareira /vou-te contar /a história verdadeira /quando a recordo /sei que quase logo acordo /a morte dorme parada /nesta morada

Fala de uma certa dificuldade em ter uma memória activa do nosso passado comum. Acho que esse esquecimento do que foi o horror da guerra é, provavelmente, necessário para as pessoas que individualmente a viveram, para continuar a sentir que o presente vale a pena.

Mas a canção faz o contrário, escarafuncha no passado. Ela apareceu quando surgiram duas coisas, em simultâneo, nos jornais: a efeméride do massacre de Wiriamu e as descrições dos miúdos soldados da Bósnia que participaram em massacres e que não sabiam por que faziam aquelas coisas. Achei que era preciso fazer uma canção forte sobre isso. Nesta história um ex-soldado começa a ver o seu álbum de retratos. Começa por olhar, a dizer «olha, estou bem aqui», mas aquilo começa a perturbá-lo tanto, que fecha o álbum, fingindo que aquilo não existe. Mas já existe, porque já passou para a cabeça dele.

Zeca Afonso
O Zeca era muito hipocondríaco... A triste ironia é que ele depois ficou realmente doente. Ele vinha sempre com doenças imaginárias, de que ele sofria um bocado, e dizia que tinha arruinado a voz quando estava no ensino. Ora, depois disso, fez discos com voz limpidíssima, magnífica, no seu melhor. Era um grande cantor. Ele tem a escola de cantar sem ampliação, a «voz do ovo estrelado a falar para o quarto andar», como dizia...

25 de Abril
A maior imagem do 25 de Abril que tenho é a do Paredes a tocar os Verdes Anos. Eu estava sentado no palco, no chão. De repente, percebi que tinham passado alguns anos dos meus verdes anos e que estávamos ali juntos a viver um acontecimento extraordinário. Mas a primeira sensação, quando cheguei, em Maio de 74, foi o cheiro das casas, quando entrei num hall e senti o cheiro das comidas e dos azulejos. Foi quando senti que tinha chegado.

Cantos Livres
Os cantos livres foram espectáculos que valeram pela urgência, pela presença, pela necessidade de as pessoas se encontrarem para ouvir canções que eram apresentadas muitas vezes em esboço. Mais tarde entraram na moda os unpluggeds. Mas aquilo de cantarmos sempre juntos, com más condições, passou a ser muito limitativo. No entanto era uma resposta muito necessária na altura, e acho que houve coisas magníficas.

Gerações
A geração mais nova tem ídolos e referências da sua idade. Mas penso que é importante que as minhas canções falem de coisas que lhes toquem. Acho interessante que eles tenham necessidade (e isso é uma coisa mais dos anos 90 que dos anos 80) de encontrar caminhos que ficaram para trás, na música e noutras coisas, e que vão descobrindo. Porque nós somos um país com pouca memória fixada. Não há o hábito de ter essa memória no activo.

Publicado por ruitavares em | TrackBack