[1] O Luciano Amaral pegou na minha posta de ontem sobre o tratamento que o Valete Fratres prestou à memória de Edward Said. É importante esta contextualização: o meu post era uma resposta à atitude de alguém que não sabe jogar limpo. O Valete Fratres, aliás, reincide hoje, discutindo com o Barnabé sem se dignar a linkar, citando o já amplamente desmentido e desacreditado artigo de Justus Weiner que pretendia denunciar que Edward Said não era sequer palestiniano [!] (ataque qualificado como scurrilous, baixo e vil, neste artigo, pelo mesmo Christopher Hitchens que eu e tu, Luciano, citamos como um crítico feroz de Edward Said). Ora já que decidiste comentar o meu post, que era sobre isto e não sobre outra coisa, gostaria de saber a tua opinião sobre esta forma do Valete Fratres entender o debate político e intelectual. Não te merece nenhum comentário?
[2] A minha ideia não era, pois, apreciar toda a obra e posicionamentos do Edward Said, quanto mais edulcorá-lo como tu dizes (no entanto, eu não tenho culpa que ele tenha feito coisas, como a Orquestra da Paz com o Barenboïm, que são admiráveis – deveria escondê-lo para não correr o risco da edulcoração?). Era antes colocar-me do seu lado contra lançamentos de lama cobardes. Eu sei que concordas comigo que, se queremos atacar alguém, é bom que seja por alguma coisa que esse alguém fez ou era.
[3] Mas tu, ao contrário do Valete, queres discutir o que o Said efectivamente era. Pode ser epistemologicamente impossível, mas pelo menos pode tentar-se. Vamos a isso. Não gosto de tudo o que ele escreveu: o Culture and Imperialism parece-me, tirando a magistral análise do Heart of Darkness / Coração das Trevas de Conrad, um livro um tanto chato. O Beginnings, por outro lado, demasiado tributário das modas literárias da altura, a semiologia e o estruturalismo. Se tivesse lido tudo o que ele escreveu sobre questões políticas, coisa que não fiz, também seria capaz de lá ter encontrado matéria para discordar. Por outro lado, a recuperação que faz de Giambattista Vico é de excelente nível, e o Representations of the Intellectual uma pequena obra genial. No fim de contas, nada mau – tomara nós, meu caro.
[4] Por outro lado citas o artigo do Hitchens na Atlantic Monthly, "Where the twain should have met" (um idiomatismo que dará qualquer coisa como, "onde os caminhos se deveriam ter cruzado"), concordando com a sua descrição de Said como "não suficientemente moderado" e criador de caricaturas e distorções sobre o Ocidente no Oriente. Olha Luciano, sabes francamente o que é que me parece? Que o Hitchens é pobre e mal agradecido. O Said não era suficientemente moderado? Então podeis procurar debaixo das pedras e em cima das árvores e não encontrareis outro palestiniano mais moderado do que ele. E porquê? Porque mais moderado do que aquilo já não seria moderação mas traição à pátria. E não deixa de ser curioso que gente que nos chama a atenção para o direito dos americanos a serem patrióticos não perceba que o homem era palestiniano, tinha amor à sua terra, e mais moderado do que aquilo não conseguiria nunca ser. Isso, ao menos, foi entendido de viés por gente do calibre de Weiner, que não podendo negar-lhe o direito ao patriotismo, tentou acusar Said de não ser palestiniano.
[5] Quanto a essa ideia de que a grande culpa do Said é a de ter criado incompreensões entre o Ocidente e o Oriente. Não passa despercebido a qualquer leitor, ainda que iniciante, de Said, que o homem não era dado a simplificações. Se o Said não te dá mesmo nada, como dizes, para entender nem o Oriente nem o Ocidente, parabéns Luciano!, é sinal de que não precisaste de o ler para saber o que ele dizia. Só é curioso que ele fosse tanto ou tão pouco anti-ocidental que foi permanentemente acusado pelos árabes de ser um ocidentalizado, etc. De tal forma se eximia a criticar o Oriente, como tu dizes, que era persona non grata entre os islamistas. (E já agora: levas a sério o Hitchens, um autor que tanto na sua fase trotskista como na actual, pró-guerra, nunca primou nos seus escritos por mais do que uma negligente superficialidade, quando não ignorância pura e simples? Quanto a mim, não gosto dele nem de esquerda nem de direita).
[6] Ainda que o Said fosse esse intelectual ressentido e pós-moderno que desejavam que ele fosse, o que é que isso tem a ver com o actual péssimo estado das relações entre o Ocidente e o Islamismo? Se estou de acordo em que a causa do terrorismo da AlQaeda (por exemplo) não está na pobreza, não te parece patético que ande gente numa cruzada de nível Torquemada contra um teórico da literatura, nova-iorquino, especialista em Joseph Conrad e Jane Austen (e ainda por cima infiel protestante!) como sendo o grande municiador dos ataques anti-ocidentais por esse mundo fora? Ora é mais do que evidente que Said era mais parecido contigo do que com aqueles contra quem os americanos se batem na Ásia Central e no Médio Oriente.
[7] Dizer que as ideias do Said "vão infelizmente continuar vivas", como fez o Valete, parece-me de péssimo gosto (a ti não sei o que te parece porque decidiste não comentar o cerne do meu post). Deixar o luto intelectual para outros, como tu fazes, não tem mal nenhum. Só gostava de saber para que serve esta amalgamação, em segunda mão, entre a obra do Said e as perversas caricaturas do Ocidente, etc (ou, paralelamente, entre a esquerda ocidental e o terrorismo islâmico). Ou, colocada a questão de outra forma: Said foi de facto "where the twain have met", melhor ou pior (para mim, melhor do que pior). O que é que o Ocidente ganha em ficar a falar sozinho?
Um abraço do Rui (e não te esqueças de que ainda temos aí um projecto para fazer juntos).
Publicado por ruitavares em | TrackBack