setembro 30, 2003

Isto deve ser o socialismo

Outro dia, alguém me dizia que, na blogosfera, funciona a economia de mercado: sobrevivem os melhores. Claro que reagi. Não segui a linha fácil: dizer-lhe que o desmentido estava no número exorbitante de visitantes do Barnabé. Preferi fazer um exercício: se a economia de mercado funcionasse realmente, em que estado ficaria a blogosfera?
Primeiro, a Microsoft compraria o blogspot e a PT o Weblog.com.pt. A PT cobraria uma taxa de acesso, a Microsoft venderia o software necessário para construir as páginas.
Depois, a mesma PT compraria os blogues do Mexia e do Lomba, encheria de publicidade aos seus produtos e transformaria os dois blogues – já fundidos, para aproveitamento das sinergias, e com o nome de “Flor do Diabo” – em portal multimédia. A Coluna Infame seria reactivada pelo grupo como canal de venda de brindes.
O Belmiro compraria a Glória Fácil, despediria os cinco jornalistas – por necessidades de redimensionamento provocadas pela empresarialização crescente deste mercado – e punha dois estagiários do Público a trabalhar para o blogue. Ao fim de dois anos fechava a página.
Um grupo espanhol compraria o blogue do Pacheco Pereira.
A maioria parlamentar, pressionada pelo CDS/PP, aprovaria uma lei que obrigaria à codificação do Meu Pipi. Um juiz encerraria o Muito Mentiroso. O Blog de Esquerda seria contactado para fazer o blogue de “A Dois” e mudaria de nome para “O Blogue”. O Barnabé, a braços com problemas financeiros insanáveis, acabaria por aceitar a entrada no grupo Media Capital que, passados seis meses de prejuízo, substituiria a equipa, agora dirigida por um aluno de Marcelo Rebelo de Sousa.
Os pequenos blogues acabariam por fechar. No “Diário Económico”, um especialista explicaria que Portugal é um dos países com mais blogues por habitante e que esta irracionalidade económica é pouco saudável. Remataria com uma frase indiscutível: o que é importante é que sobrevivam os melhores.
Conclusão: nos blogues, não funciona a economia de mercado. Isto está mais próximo do socialismo, mas sem senhas de racionamento, planos quinquenais e prisões políticas.

Publicado por danieloliveira em | TrackBack
Comentários

Bom, agora que o CDS codificou o Meu Pipi, pagava para ler a versão 2, assinada por ti Daniel, sob um pseudónimo, claro! Como menina curiosa que sou e leitora assídua dos teus textos, tenho cá um feeling de que eras gajo para não ficar a dever muito ao "mestre"...

Afixado por: CMM em setembro 30, 2003 05:05 PM

a minha boca está escancarada... isto não é a sério, pois não? o daniel pensa mesmo que este texto faz sentido, ou está a tentar fazer do pessoal parvo?

virgem maria

Afixado por: maradona em setembro 30, 2003 05:07 PM

Digo apenas que não é o mercado que garante nem a liberdade nem a qualidade. A história é brincadeira, o resto é sério

Afixado por: Daniel Oliveira em setembro 30, 2003 05:12 PM

O Pipi foi-se mesmo embora?

virgem maria

Afixado por: VPB em setembro 30, 2003 05:23 PM

Eu cá gostei deste apontamento humorístico. O Daniel anda a ver se o Gato Fedorento lhe abre as portas do blogue/jornal/programa de televisão...

Afixado por: NunoP em setembro 30, 2003 05:34 PM

Obrigado pela resposta, daniel. E acharás tu possivel que sobrevenha a liberdade e a qualidade sem uma economia de mercado a funcionar? (abstem-te que eu, nesse dominio, acredite numa quase selvajaria)

Afixado por: maradona em setembro 30, 2003 05:35 PM

Não fiz nenhum programa político. Mas olha para a blogosfera. Como vez, aqui não funciona o mercado e a qualidade, apesar de tudo, existe. Era só isso que eu queria dizer. Que o mercado, muitas vezes, é contrário à qualidade e à liberdade. Fiz uma caricatura para o demonstrar.

Afixado por: Daniel Oliveira em setembro 30, 2003 06:10 PM

O socialismo, sem senhas de racionamento, planos quinquenais e prisões políticas não é socialismo. É economia de mercado.

Afixado por: Aguillar em setembro 30, 2003 06:10 PM

Aguilas,

Estou, definitivamente, sempre a aprender.

Afixado por: Daniel Oliveira em setembro 30, 2003 06:19 PM

Eu pergunto-me, maradona, se um dia fosses vítima da tua receita de selvajaria, o que pensarias?
Ou se calhar o facto de teres emprego, casa, etc, etc, se deve única e exclusivamente á tua competência.
E se fosses um recém licenciado, com notas bastante agradáveis, que saem agora do ensino e não encontram nada á espera deles, como eu conheço tantos?
Ou se o teu chefe achasse que um deles seria mais económico que tu e te desse um real chuto no traseiro, só para poupar custos,ainda que ele levasse anos até atingir a tua proficiência?
É muito engraçado falar da selvajaria da economia de mercado quando ela não nos toca á porta.
Como diria a Susaninha do Quino "ainda bem que o mundo é lá longe..."

Abraços

SK

Afixado por: Stephen King em outubro 1, 2003 10:09 AM

"Economia de mercado" não é de certeza, que eu não estou a pagar nada para ler o blogue (e a essencia do "mercado" é exactamente a existência de um mecanismo de preços).

Creio que a "blogosfera" (e a Internet em geral) é mais uma espécie de anarco-comunismo, estilo Kropotkine.

Afixado por: Miguel Madeira em outubro 1, 2003 10:13 AM

SK

como é que sabes que "ela" não me toca à porta?

E um sistema diferente da "selvajaria" garante mais empregos? Melhores salários? Mais emprego e menos desempregados? Mais gente com casa?

Não me parece...

Afixado por: maradona em outubro 1, 2003 10:20 AM

e outra coisa, SK:

que moda é esta de se lamentar os licenciados com "notas bastante aceitáveis" desempregados? que ofensa é esta?

desempregados sempre houve, e um desempregado licenciado é igual a um desempregado não licenciado!! parece até que não escreverias esta nota se os licenciados estivessem todos empregados.

é o que eu digo: o português, mesmo os protugueses novos, continuam a viver no portugal de há trinta anos. não vejo melhoras!

Nem no Sporting, vejo melhoras!

Afixado por: maradona em outubro 1, 2003 10:32 AM

Caríssimo Maradona:
Eu dei o exemplo dos licenciados, como poderia ter dado outro qualquer. Tendo em conta que Portugal sofre de uma falta crónica de formação adequada, lembrei-me do exemplo em questão, mas dou-te razão, que aliás, nunca tirei, que os desempregados têm todos a mesma dignidade.
Um sistema diferente garante determinadas coisas que estão ligadas à noção mais elementar de cidadania, como sejam, os direitos laborais, a segurança social, a limitação dos abusos de cariz económico e um sistema de saúde estatal. Bem sei que para os liberais, a dita lei do mais forte é perfeitamente compreensível, mas normalmente quando os encontro, depois de levarem as rabecadas que tão profetica e apaixonadamente defendiam, o discurso muda completamente. Não estou a dizer que é o teu caso, mas falo da experiência que tive até hoje, e que nao é assim tão pequena. Mas não conclui nada acerca da tua situação, que obviamente desconheço. Além disso sempre pensei que a lei do mais forte fosse aplicada e commumente reconhecida no reino animal (irracional) - daí o termo selvajeria, certo?
A questão é a seguinte. A Selvajeria talvez até criasse mais empregos, mas com certeza que com salários mais baixos, condições laborais oitocentistas e uma racionalização de meios aplicável a maquinaria e não seres humanos. Mas isto são coisas que nunca incomodaram os liberais, que por acaso até têm tenmpo para ler, para escrever, para se aculturalizarem e até para ir ao sermão dominical, vejam bem. De acordo com o liberalismo, e a dita selvajeria, bom seriam talvez as semanas de 90 horas, um dia só de fim de semana, nada de higiene e saúde no trabalho (porque essas merdas são caras), nada de interferência do estado nas questões de ambiente (que são uma obstrução ao desenvolvimento económico, não é? É o Bush que o diz, não sou eu), enfim a velha teoria dos direitos negativos a toda a prova.
Aliás, a lógica selvagem da economia de mercado está espelhada no estado das televisões, quando se gasta tanto dinheiro em Reality Shows ao invés de se importar séries como CSI, por exemplo, ou retomar os sete palmos abaixo da terra. Mas isso são outras guerras.

Quanto ao nosso Sporting, já não digo nada. Fomos campeões em anos recentes e isso ainda me aquece um pouco a alma. Mas reconheço que as coisas não andam nada bem. Vejamos o que acontece.

Abraços

P.S. - Não deveríamos ser ambos despedidos por escrever estas coisas numa breve pausa no nosso horário de trabalho?

Afixado por: Stephen King em outubro 1, 2003 01:20 PM

sk

temos opiniões diferentes. irrita-me particularmente o facto de um trabalhador da função publica não poder ser despedido, por exemplo. acho que as pessoas deviam poder ser despedidas dos seus empregos, sem mais considerações.

acho que se devia liberalizar todo o mercado de trabalho: ordenados, horários de trabalho, etc etc.

julgo que perdemos todos, ao não permitir que um patrão despeça uma pessoa: mas isto é uma longa história.

Imagino um mercado de trabalho selvagem, mas um um Estado justo: uma mãe com um filho doente teria direito a ficar em casa com 100 por cento do ordenado pago, pelo Estado!!!; uma familia com dois filhos e 300 contos de salário mensal teria direito a saude, educação e justiça de borla; uma familia com dois filho e 1500 contos de salários, teria direito a pagar tudo, forte e feio: médico de familia: 20 contos por consulta; quer meter o filho na escola primária? Propinas!!

Defendo que um Estado assim só será possivel com uma economia totalmente liberalizada. Mas eu não percebo nada disto: é só um feeling.

um abraço

Afixado por: maradona em outubro 1, 2003 03:06 PM

P - E um sistema diferente da "selvajaria" garante mais empregos?

R - Sim. No "socialismo real" soviético o problema não era a ausência de emprego mas sim o absentismo laboral.

P - Melhores salários?

R - Depende. Não garante melhores salários máximos, nem de perto nem de longe. Também não garante melhores salários médios, porque os salários máximos distorcem consideravalmente a média. Mas garante melhores salários mínimos.

P - Mais emprego e menos desempregados?

R - Esta pergunta é redundante e já foi respondida.

P - Mais gente com casa?

R - Voltando ao exemplo do "socialismo real" soviético, toda a gente tinha casa. Muitos não tinham casa própria e habitavam em casas do Estado, muitos (especialmente nas décadas mais próximas da guerra) habitavam em apartamentos colectivos com um espaço individual diminuto, muitos não tinham uma casa confortável, mas todos tinham casa. Não havia ninguém a viver nas ruas.

O socialismo real soviético tinha milhares de defeitos, alguns muito graves. Mas nisso era muito superior ao que temos hoje em Portugal.

Afixado por: Jorge em outubro 1, 2003 04:06 PM

"Voltando ao exemplo do "socialismo real" soviético, toda a gente tinha casa. Muitos não tinham casa própria e habitavam em casas do Estado, muitos (especialmente nas décadas mais próximas da guerra) habitavam em apartamentos colectivos com um espaço individual diminuto, muitos não tinham uma casa confortável, mas todos tinham casa"

Poderemos considerar um campo de trabalho como uma "casa"?

Afixado por: Miguel Madeira em outubro 1, 2003 04:53 PM

Demagogia barata.

Os gulags eram tão casa como qualquer prisão em qualquer ponto do mundo.

E de resto, suspeito que a partir dos anos 70 a percentagem de população prisional na URSS era bem menor que o seu equivalente americano. Se seguirmos o caminho demagógico do Madeira, poderíamos perguntar porque razão, então, há homeless nos EUA, com tanta gente encarcerada.

E escusam de falar das condições dos gulags. Eu disse que "o socialismo real soviético tinha milhares de defeitos, alguns muito graves." Os gulags eram um desses defeitos. Um dos mais graves.

Afixado por: Jorge em outubro 1, 2003 10:21 PM

Esqueceste-te de referir o takeover hostil da Disney para controlar os Marretas...

Afixado por: Animal em outubro 1, 2003 11:17 PM

isto colocado assim é um exagero. Um exagero da parte do doninha e da parte do Stephen.
Que diabo! nem oito nem oitenta! deve-se aperfeiçoar o que existe mas não é preciso fazer muito esforço para que o patronato tuga (na maior parte ignorante e sem habilitações - pequenas e médias empresas) tenha direito a fazer o que já faz. Porque mandar para a rua e não cumprir leis laborais. Manter contratos a praso por décadas (sei do que falo); não pagar à previdência e actuar indiscriminadamente também já é por cá uma tradição. Vocês esquecem-se que a ideia é outra. A ideia ainda vem de tempos passados nada democráticos e consiste em ter poder por agir de modo indiscriminado, favorecendo uns e prejudicando outros. Isto nunca atingiu o patamar mínimo do civismo para agora se falar assim à pressa em mais liberalismo. Porque na prática é mesmo dizer: mais selvajaria. Façam o que já fazem, ainda mais e sem se preocuparem com as leis como nunca tiveram de se preocupar porque os tribunais não funcionam. Ss ditas inspecções de trabalho também só existem se lhes interessar aproveitar para fechar alguma coisa ainda financiada pelo Estado, metendo também eles uns cobres ao bolso.
Nunca notei que houvesse prosperidade por se ter mais liberdade na falta de escrúpulos com os trabalhadores. Falta de escrúpulos é a palavra certa, o resto é folclore teórico de quem vive noutro mundo qualquer ou se sustenta de palavras.
Claro que o pardoxo é que existe o lado oposto na funcção pública. De facto, o privado por cá é velho, não sabe desenvolver-se e apenas poupa nos fósforos ou faz ciganices. O público é um gigante que ainda vem do Prec e completamente atafolhado de indigência. Isso é a total verdade! mas também não será esse mostro só nos sectores mais baixos. É um mosntro nos lugares altos, a começar pelos balúrdios que o Estado paga a gestores públicos. Claro que quando se fala no liberalismo, e como as coisas são feitas pelas mesmas pessoas com as memsas mentalidades (o gatuno imita o grande e o grande umita o gatuno) quando toca a cortar corta-se em baixo e, maisa uma vez, poupa-se nos fósforos.
Não creio que haja modelos ideais fora da história concreta de um país. Se assim não fosse o meu modelo ideal seria o nórdico, como é óbvio. Por cá é melhorar... melhorar, exigir mais, cumprir mais para exigir mais, civlizar e exigir ao mesmo tempo as responsabilidades a todos, começando por cima. Quanto ao resultado não sei... não se irá nunca muito longe que isto é um erro histórico logo em termos geográficos...":O(

Afixado por: Zazie em outubro 4, 2003 01:36 PM

paradoxo, para com os trabalhadores, etc. etc... sorry....

Afixado por: Zazie em outubro 4, 2003 01:39 PM

função pública! oops!

Afixado por: Zazie em outubro 4, 2003 01:40 PM

wwwwwwwwwwwwwwww

Afixado por: dddd em maio 3, 2004 06:50 PM

wwwwwwwwwwwwwwww

Afixado por: dddd em maio 3, 2004 06:50 PM

wwwwwwwwwwwwwwww

Afixado por: dddd em maio 3, 2004 06:50 PM
Comente esta entrada









Lembrar-me da sua informação pessoal?