outubro 08, 2003

Lágrima por Lynce

Pois é pá, não vos posso deixar sozinhos que o país fica logo virado do avesso – e desaparecem dois ministros que tinham ainda tanto para dar. Quero aqui chorar publicamente Pedro Lynce, um funcionário que eu me acostumei a ver no Ministério da Educação desde que... para aí desde que me lembro; e, o que é curioso, sempre a deplorar o estado a que sucessivos ministérios tinham levado a educação; mais curioso ainda, os mesmos sucessivos ministérios a que ele, três em cada quatro vezes, tinha pertencido, e sempre com cargos decisivos.

Deve ser por isso que abunda pelos jornais e blogues a opinião de que perdemos um ministro "bom, eficaz e profundo conhecedor [...] acabando com dezenas de cursos sem alunos nem currículo" e um homem "sem medo de reformar". Eu tenho uma explicação para isto, aliás a única possível: ao regressar entrei num universo paralelo. É que no Portugal que eu conheci nos últimos anos Pedro Lynce foi um dos governantes mais confusos e erráticos que tivemos, de um pensamento banalíssimo e com uma impressionante incompetência em exprimir ideias ou ouvi-las, só ultrapassada pela incapacidade de tê-las. Claro que depois atamancava isto como podia alardeando o seu empenho na moralização de qualquer coisa à escolha - mas que um ministro "moralizador" saísse pela razão por que saiu diz efectivamente tudo sobre a espessura dessa moralização. Deus escreve direito por linhas tortas, e a saída de Pedro Lynce foi a melhor coisa que aconteceu ao Ensino Superior e à Ciência em Portugal desde a fundação da Biblioteca Joanina. E estou disposto a demonstrar cada um destes pontos a partir de qualquer texto ou entrevista de Pedro Lynce, à escolha do próprio ex-ministro.

Mas afinal de contas existia um Portugal(bis) com um Pedro Lynce(bis) inteligente e corajoso; eu é que só vim aqui cair quando ele já se tinha demitido! Resta-me agora esperar que este Pedro Lynce até agora desconhecido seja um homem sem medo de se reformar.

Publicado por ruitavares em | TrackBack
Comentários

Caro Rui: conheci Lynce secretário de Estado já-não-me-lembro-de-quê-tantos-ele-foi e partilho do seu ponto de vista. Errático, banal e sem ideias. Aliás, na altura confrangeu-me que uma pessoa como ele pudesse estar num cargo de tanta importância: não augura nada de bom para o País.

Mas sair assim, pela esquerda (perdão!) baixa, sem ser sequer julgado pelas suas (ausências de) políticas, apenas por um erro a que foi induzido, é ainda pior para o País. Que nos fique a memória.

Afixado por: Paulo em outubro 8, 2003 01:55 PM

Adenda: que a memória nos recorde quem lhe pregou a partida e o despediu sumariamente sem justa causa.

Afixado por: Paulo em outubro 8, 2003 01:56 PM

assino por baixo o que o Paulo escreveu.

Afixado por: Zazie em outubro 8, 2003 02:09 PM
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