Li com amizade o post que me dedicaste sobre o futebol como recuperação da infância e sobre o teu anti-benfiquismo. Sou benfiquista por influência de um primo, desde que me lembro. Mas também eu, quando era miúdo, ia quase tanto a Alvalade como à Luz. Vibrei com o genial Oliveira a marcar três golos a um Dínamo azul cujo nome não recordo. Vibrei com o Futre com 17 ou 18 anos a aldrabar toda a defesa do Porto nos minutos finais em que entrou de um jogo de taça. Aliás, a primeira vez que fui ao futebol foi ao Estádio Nacional, ver uma final da taça de Portugal entre o Sporting e o Boavista, em 1979. Empataram um a um, pelo Sporting marcou o Jordão, de penalti (depois o Boavista ganhou a finalíssima 1-0). A minha memória gravou os dois golos desse dia de uma maneira inverosímil: para mim, os adeptos do Boavista e do Sporting, como molas, festejaram os golos das duas equipas por igual. Sempre gostei do Jordão, Rui Manuel Trindade Jordão, que tinha jogado no Benfica. Talvez, nas minhas como nas tuas recordações, haja um tempo inicial da paixão clubística em que não somos inteiramente de um clube. Ou em que sabemos bem de que clube somos, mas estamos disponíveis para apreciar os talentos dos outros clubes. Talvez em seguida recalquemos esse tempo inicial. No início dos anos 80, a minha paixão cristalizou-se: vi o Benfica vencer o Porto em duas finais de taça gloriosas (um golo de César, três golos de Néné). E chegou o Eriksson que nos fez sonhar, como diriam o Artur e o Frederico.
Hoje, acho que o problema do meu clube é mesmo psicanalítico: precisa de matar o pai. O pai, como ensina a religião que perfilho, são todos os grandes jogadores do passado em geral e não é ninguém em particular: é Eusébio e todas as suas encarnações anteriores e posteriores, José Águas ou Torres, Coluna ou Humberto e, mais recentemente, Rui Costa. Não sei o que é que aconteceu à gestão do Benfica pelo caminho. Sei que é vítima da sua grandeza passada, mais do que o Sporting, que aprendeu às suas custas a fazer a travessia do deserto. É por isso que a sua massa associativa, eu incluído, é tão mimada: a cada novo reforço, vê surgir um novo Eusébio; ao fim de dez minutos mal jogados, assobia em vez de apoiar sem se aperceber que assim se afunda à equipa e a si mesmo. Vai jogar com a Lazio e pensa que o nome lhe basta. Não se apercebe que hoje é o Boavista, e não o Benfica, quem tem experiência internacional. Falta-lhe princípio da realidade. Mas, caro amigo Sportinguista, essa fraqueza humana não é razão para odiar um clube. Nós não somos muito diferentes dos outros clubes portugueses, pobres e decadentes, exceptuando o Porto a espaços. Somos só mais neuróticos e mais lentos a aprender, pois o passado pesa-nos. Por isso é que não ganhamos.
Publicado por andrebelo em | TrackBackZagreb, três golos do Oliveira ao Dínamo de Zagreb. Tens mais sorte do que eu, que não fui ver o jogo.
Afixado por: ivan nunes em outubro 11, 2003 06:23 PMuma mulher a bem falar bem (isto foi um efeito estilistico)de futebol; uma mulher com memória futebolistica! olha lá: tens namorado? usas pó de arroz? manda foto!
Afixado por: maradona em outubro 11, 2003 06:40 PMa namorada tem namorada
Afixado por: andré em outubro 11, 2003 06:46 PMExcelentes e sábias palavras, caro André.
Subscrevo o que diz respeito ao princípio da realidade benfiquista (ou a sua falta).
estou contigo em tudo!... só que mais: odeio o FêQuêPê!
Afixado por: Gasel em outubro 12, 2003 10:14 PMTAL E QUAL...