outubro 12, 2003

Revisionismo

Os restantes barnabés (estou a pensar no Rui e no Daniel) vão "matar-me" quando lerem isto. O "isto" é que concordo com o que o Miguel Vale de Almeida escreveu no seu blogue sobre propinas. Estou à vontade para o dizer porque fui dirigente anti-propinas há uma década atrás. Nunca questionei as posições que nessa altura assumi, que acho que eram bem intencionadas e reflectidas. Mas hoje, pela primeira vez, ao ler a argumentação do Miguel, a minha posição vacilou. Deixo a citação dos "Tempos que Correm". Depois discutimos, se eu tiver arcaboiço para isso.

Muitos dos meus estudantes e muitos dos meus "camaradas" vão "matar-me" quando lerem isto. O "isto" é que não simpatizo com o movimento anti-propinas (assim como não simpatizo com a política de propinas deste e outros governos). Que significa esta dupla antipatia? Significa duas coisas: que acho que o movimento anti-propinas tende a ser simplista e egoísta, e que as políticas de propinas do governo são hipócritas. Estas são hipócritas porque estamos mortos de saber que as propinas, só por si, não resolvem os problemas que pretendem resolver. Aquelas são simplistas e egoístas porque o ensino superior português não deve ser financiado apenas pelo Estado. Tudo isto tem a ver com o facto de o ensino superior ser aquilo que os economistas chamam um bem misto. Traduzido para a dimensão social e política, quer isto dizer que a sociedade no seu todo beneficia com o ensino superior, mas as pessoas que se formam nas faculdades beneficiam pessoalmente. É socialmente injusto que sejam os contribuintes todos a pagar por algo que beneficia alguns. Mas tãopouco pode o ensino superior ser totalmente pago pelos que dele usufruem directamente, pois a sociedade no seu todo precisa de gente formada. A questão está em definir qual a medida justa da contribuição dos beneficiários directos e da contribuição do colectivo através do Estado. Tanto governo como os movimentos anti-propinas falam, em plano secundário, daquilo que deveria ser central e ir junto com a discussão sobre propinas: sistema eficaz e justo de bolsas (idealmente, por cada aluno que paga o máximo haveria um, pobre, que não pagaria nada), rigorosa verificação dos rendimentos das famílias (o que implicaria uma reforma fiscal que o governo se recusa a fazer...). O ensino superior totalmente grátis e de livre acesso só pode existir em duas circunstâncias opostas: países miseráveis e injustos onde os ricos canibalizam o Estado ou países ricos e com poucas diferenças sociais.

Publicado por andrebelo em | TrackBack
Comentários

ok. ok. a cena das propinas vista na perspectiva "ideal" "construtiva" e "responsável" é uma luta injusta. E não vale a pena estar a repetir os argumentos basto debatidos. o que é sintomático e... preocupante(?) é ver várias gerações de líderes estudantis a manifestarem-se contra uma luta dos estudantes quando a treta das propinas por muito estúpida que seja parece ser a única "rugosidade" susceptível de criar condições concretas de conflituosidade por parte de um dos grupos sociais mais instrumentalizados e imbecilizados quer pelo "sistema" económico (vide o consumismo mais caricato) quer pelo político ( as famigeradas jotas-correias de transmissão ), os "estudantes".
mal por mal prefiro que os estudantes façam um bocado de merda mesmo que por motivos menos nobres, e no decurso desses desacatos aprendam alguma coisa sobre a prática de conflitos sociais do que deixarem-se afundar ainda mais na tragédia da subserviência e da "normalidade"

Afixado por: tchernignobyl em outubro 12, 2003 11:20 PM

ainda uma nota sem querer parecer ofensivo:
é sintomatico também que a tomada de consciência de muitos dos ex-lideres estudantis acerca da "inconsciência" das tomadas de posição dos estudantes ocorra quando se tornam professores.
por maioria de razão dá para pensar: que acontecerá quando ou se este pessoal for chamado a outro tipo de responsabilidades quiçá responsabilidades politicas?

Afixado por: tchernignobyl em outubro 12, 2003 11:25 PM

Anes de mais gostaria de dizer que coloquei este mesmo comentário no post original do Miguel erecoloco-o aqui porque acho que esta das discussão das propinas é um tema inacabado.Eu tendo a concordar com o artigo do Miguel, mas só em parte. E em parte porquê? Porque se é verdade a teoria sobre a riqueza que é criada enquanto bem comum e como bem indevidual, a parte em que é focado o facto de a universidade ser considerada um prolongamento do ensino basico e superior não está bem explicada. Senão vejamos. O problema está na cultura do País e no estatuto que se confere ao titulo adequirido na conclusão do curso superior. A frequencia e a conclusão de qualquer curso superior deveria ser antes de mais uma coisa normal que só um acesso generalizado permite. O argumento de que não podemos ser todos Drs, é falso, podemos e devemos. As funçoes que desempenhamos a seguir na sociedade podem variar mas o acesso a informação, cultura e conhecimento não podem ser orientados a partir de uma descriminação, ainda mais quando esta disciminação é financeira.. O que se pretende dizer com isso é que o ensino não pode ser como já o é o ensino das elites, pode e deve ser o ensino de todo um povo. Para o desinvestimento do poder no ensino e tudo o que isto implica no futuro poderiamos apontar desde já aqui um exemplo caricato. No ensino da lingua Portuguesa no 10ª ano pretende-se por os alunos a trabalhar com base em telenovelas e Big Brother's. Ora isto é mais uma forma de manter aquilo que poderiam de ser as classes pensantes do futuro numa obscuridade tremenda. Como diz "O Pensador" numa das suas cançôes. A TV existe para manter voce na frente................Na frente da TV, que é pra te interter". Não acredito em coincidencias, e não acredito também que não exista uma etrategia por trás de tudo isto. Por isso o argumento que o ensino universitário não pode ser visto ou usado como continuidade natural do ensino basico e secundário me parece desadequado.
Se quisermos levar a discusão para como está estruturado o ensino em Portugal, então aí sim penso que o debate sobre as propinas ficaria mais rico e decerto perceptivel por um maior número de pessoas.

Afixado por: Alf 73 em outubro 13, 2003 01:57 PM
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