Às vezes os adultos querem que os jovens gostem deles. Dizem “bué” e “curtir” e “fixe”. É constrangedor. Às vezes as elites querem falar para o povo. Imitam o Jorge Coelho. É grotesco. Às vezes os pedagogos querem ficar próximos dos estudantes. Fazem um novo programa para a língua portuguesa. É deprimente.
O programa do Big Brother, realmente, é deprimente. Mas quanto ao bute curtir bué que é fixe, lamento divergir.
O problema é que tem havido desde sempre entre as elites culturais portuguesas uma atitude de reverência perante a língua tal como ela nos foi legada pelos nossos "egrégios avós" (sim, esses mesmos, os do hino), atitude essa que é profundamente conservadora. Ora, as línguas são organismos vivos, e evoluem. Com elites amarradas ao conservadorismo do "portuguez tal como ele deve ser", resistindo ferozmente a toda e qualquer mudança, chamando invariavelmente a estas mudanças coisas como "bastardização", a evolução da língua, que é pura e simplesmente inevitável, acaba por lhes fugir por completo ao controlo. E, o que é pior, acaba por se fazer sobretudo através de importações de palavras e expressões estrangeiras. O mundo da linguagem técnica é disso um óptimo (e aterrador) exemplo.
Por isso, em vez de desprezar as novidades devemos acarinhá-las e tentar dirigi-las no caminho certo, o do enriquecimento da língua e não o do seu empobrecimento e "estrangeiramento". Pessoalmente, curto bué estas cenas que os putos trouxeram para a língua, e estou-me borrifando para se eles me acham fixe ou não por causa disso. São palavras e expressões alegres, vivas, cheias de ritmo. São coisas altamente. Especialmente se for evitada a floresta de "iá" e "men" e "cool" e outras expressões inglesas que poluem o discurso. Bué é uma importação que tem a ver com a nossa história, e é uma pequena vingança pelo papel que o português (ou crioulos baseados no português) teve e continuará a ter no enfraquecimento das línguas africanas das nossas ex-colónias; Dred só nos mostra culturalmente colonizados por outrem.
Portanto, relaxa aí, Daniel. Tá-se bem.
Afixado por: Jorge em outubro 13, 2003 07:00 PMBasta ler este blogue para ver que não temos uma posição de reverência em relação à lingua. Outra coisa é tratar os jovens como se fossem retardados mentais. Os códigos de comunicação são diferentes, conforme os espaços em que são usados. Tratar a escola como se fosse a televisão é condenar os estudantes que nada mais têm para além da televisão a esse limitado horizonte. E isso também se aplica à palavra.
Afixado por: Daniel Oliveira em outubro 13, 2003 09:32 PMEstamos inteiramente de acordo no que diz respeito à estupidez do programa de português, também concordo que tratar a escola como se fosse a televisão é uma gigantesca bacorada. Até aceito que os códigos de comunicação variem consoante os espaços e os interlocutores. Mas isso não significa banir ou simplesmente rejeitar palavras e expressões: significa enquadrá-las.
O efeito de "gosto muito da luz dos teus olhos" é certamente diferente de "curto bué a cor dos teus olhos", mas não há qualquer relação de superioriade e inferioridade entre as duas expressões. Cada uma é melhor que a outra em determinado enquadramento.
(e estou aqui a reprimir com dificuldade a circunvolução subversiva do meu cérebro, que adoraria ver alguém, por exemplo, no parlamento, a dizer coisas como "tá bem, pessoal, a gente agora já acha esta proposta altamente e vai votar sim na generalidade". A mesma circunvolução que curtiu ver o Carvalhas a pedir desculpa por ter chamado avestruz ao Blair porque "não queria ofender o animal")
Afixado por: Jorge em outubro 13, 2003 10:52 PMo chato é que a tanga da "luz dos teus olhos" com ou sem bué, está tão gasta que já não dá para nada. e às vezes é pena...
Afixado por: tchernignobyl em outubro 14, 2003 12:45 PM:)
Pá, tive de arranjar um exemplo que fosse amplamente compreendido... ;)
Afixado por: Jorge em outubro 14, 2003 02:19 PM