outubro 15, 2003

Os textos-écran

Acompanhar o que se passa em Portugal apenas a partir do que se escreve nalguns jornais e nos blogues é acompanhar muito superficialmente o que se passa. Isto acontece comigo, por exemplo, ao viver em Paris. Estou ligado à Internet mas não tenho televisão portuguesa Tenho seguido assim, há meses, o processo da Casa Pia. Mas bastou-me ver uma vez um spot da SIC, no intervalo de um jogo do Benfica, em que a imagem de Paulo Pedroso era explorada num sentido nojento, para perceber como estou longe de compreender o que se passa: tudo aquilo com que as pessoas que estão em Portugal constroem a sua percepção das notícias, feita de uma multiplicidade de meios de comunicação - televisão, jornais, rádio, mas não só, as fundamentais conversas entre as pessoas, a publicidade, os cartazes políticos, o aspecto das coisas na cidade, enfim, tudo aquilo de onde se pode retirar um sentido. Nenhuma notícia é lida sem isto por trás, que varia de pessoa para pessoa, de meio para meio, mas é sempre um conjunto de coisas. À distância, eu acedo a uma pequena parte destes meios - na verdade, acedo a todos, mas de forma muito irregular. Esta limitação, sendo naturalmente frustrante, tem um lado pedagógico. A cada momento tenho de contar com ela e perceber como é limitado o meu conhecimento de uma realidade à distância. De outra maneira, os meios de comunicação de que disponho - o Público online por exemplo -, mesmo quando são bons, transformam-se num écran: criam a ilusão de dar-me a realidade toda e afinal escondem a realidade quase toda.

Se isto for verdade, apetece-me dizer que é com pouquíssimos elementos que, de um modo geral, todos apreendemos as notícias que nos vêm de fora, de Israel e da Palestina, dos Estados Unidos, da França, da Guiné-Bissau ou de qualquer outro país. Isto por mais textos e imagens televisivas que nos cheguem de lá, por mais testemunha ocular que estas sejam ou pareçam ser. Dão-nos uma fina penícula das coisas. Salvo o conhecimento particular de um país, de uma realidade cultural e social, que longas estadias e muitos contactos forneceram a certas pessoas, é claro. Salvas também as leituras e a imensa informação acumulada à distância pelas pessoas mais informadas, é claro também. Mas estas últimas pouco nos mostram, antes tendem a esconder, a imensa informação que se esconde por trás dos textos-écran. A junção dos dois modos de conhecer é que é a verdadeira sociedade da informação.

Publicado por andrebelo em | TrackBack
Comentários

E se tivesse visto o autêntico spot publicitário
que foi na TVI com um mascarado, sob a prisão de
Paulo Pedroso, então mais surpreendido ficava e
rápidamente concluia que se efectivamente em relação a ele isto não foi uma conspiração então
não sei o que será. Isto manteve-se por bastante
tempo esta estação televisiva quase parecendo um
massacre. Mas se o objectivo foi conseguido isso
não tenhamos dúvidas. Os ignorantes e mal informados enchem as páginas de jornais, os blogs
as rádios e televisões, com a afirmação segura de
que a revogação da medida de coacção aplicada a Pedroso, não foi mais que um frete que os juizes
fizeram, quer ao senhor PR face ao seu discurso, quer ao próprio PS pelas pressões que exerceu.Portanto ainda que, quando concluida a
instrução do processo e a manterem-se os fundamentos que levaram à anulação da prisão preventiva, óbviamente que não será deduzida acusação a Paulo Pedroso este côro de vozes pela
convicção que lhe foi incutida pela TVI, outras
estações e jornais, não aceitarão o veredicto até porque em termos de opinião pública, foi é
e será sempre culpado. Perante isto ainda podemos
acreditar que algum dia porventura possamos sair
da cauda de Europa.

Afixado por: rajodoas em outubro 15, 2003 10:42 PM

Há já algum tempo alimento essa mesma convicção. Penso inclusive que seria um dos motivos que me fariam hesitar seriamente se se me pusesse a hipotese de sair de Portugal. Porque, durante algum tempo, eventualmente muito, estamos afastados deste sentir cuja sintomatologia conseguimos identificar, mas também ainda não sentimos nada do país para onde nos deslocámos.

Afixado por: CM em outubro 15, 2003 11:02 PM

Sr. rajodoas,
Não será que, devido ao facto de os politicos do PS estarem a chamar a si um caso que abrange todos os quadrantes da nossa politica, este caso tenha tomado as proporções politicas que tomou?
Então, não venha chamar - "Os ignorantes e mal informados enchem as páginas...a Pedroso...um frete que...o próprio PS...exerceu."
Ponha os olhos neste partido nojento que só tem nojentos e mediocres e ainda veremos se tem ou não um pedófilo. Espero que não!
Os ignorantes do PS deveriam deixar os acontecimentos desenrolar

Afixado por: porco_voador em outubro 16, 2003 02:19 AM

Não podia concordar mais: a percepção de uma realidade exige de facto a inserção física prolongada no local. Só me dei conta disto depois de 4 anos nos Estados Unidos. Todas as televisões, todo o cinema, toda a imprensa, todos os blogues não dão senão uma imagem projectada (como na caverna de Platão) de uma realidade que só se vê quando se está lá.

Afixado por: Pedro Freitas em outubro 16, 2003 11:39 AM


O que mais espanta a um estrangeiro recém-chegado a Portugal é o alto grau de alienação em relação à realidade existente mesmo nas camadas mais bem formadas e informadas. Comenta-se o jornalismo praticado no país, como se existisse jornalismo em Portugal - na verdade, existe, mas somente porque os artigos de opinião são considerados um género jornalístico.
Dia após dia, os canais televisivos veiculam notícias falsas (e, para pasmo do estrangeiro incauto, o campeão na matéria é um canal dito "jornalístico), que depois desaparecem sem que mereçam a, em países civilizados, obrigatória errata. Somente alguns poucos exemplos, dentre muitos:
Sic Notícias, 5 de setembro de 2003: o boletim informativo das 10h00 dá destaque ao desaparecimento de uma avioneta, no Brasil, "que transportava o dirigente do partido do presidente Lula da Silva" (percebe-se finalmente porque a Sic e a Sic Notícias, nas últimas eleições presidenciais brasileiras, referiam-se a Lula como o "candidato populista do partido trabalhista brasileiro" - não era uma questão interpretativa, mas mero erro factual, e se nós percebíamos "partido trabalhista brasileiro" desse modo, em minúsculas, o locutor lia-o em maiúsculas). O dirigente desaparecido, José Martinez, era membro do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), populista e de direita, que nada tem a ver com o Partido dos Trabalhadores (PT) do presidente Lula da Silva. A Sic Notícias continuou a veicular a notícia com destaque, em seus boletins de hora em hora, até ao noticiário das 14h00, quando decidi, em nome da minha sanidade mental,ligar à redacção para alertá-los do surrealismo involuntário que criaram. No noticiário seguinte, a notícia some sem deixar rastos...
12/10/2003, 14h25: Na Sic Notícias, os conflitos na Bolívia transformam-se em uma "guerra do petróleo". Enquanto são mostradads imagens de bombas de gasolina (???!!!), a voz off do locutor esclarece que o país está em guerra civil porque populares e oposição discordam da decisão governamental de "exportar petróleo" (sic, sic, sic)para os EUA via Chile. Estaria tudo muito bem, não fosse o facto de a Bolívia não possuir petróleoa algum (quiseram os bolivianos...)Mais uma vez, a realidade conspira contra a Sic, que reaje fazendo simplesmente "sumir" a notícia.
No dia 27/06/2003, o Jornal Nacional da TVI, em reportagem sobre o desemprego no Rio de Janeiro (notícia? não havia, a não ser o mote de filas de candidatos a vagas na função pública), afirmou, com a devida voz alarmada do repórter-correspondente, que "a inflação no país está descontrolada". Ora, naquele mês, o Brasil entrava no segundo mês consecutivo de deflação -- além do que, a inflação no país está controlada desde 1994. Telefonei à TVI e fui atendida com escárnio (tal como foi desdenhoso o atendimento da Sic Notícias, acrescente-se), e nem sinal de errata, como é óbvio.
Na primeira semana de julho, a visita do presidente Lula da Silva foi o mote para mais uma festa do surrealismo jornalístico português: segundo o telejornal da noite da SIC, Portugal é o 3º maior investidor estrangeiro no Brasil; de acordo com a TVI, é o 2º. Quem mais se aproxima da verdade é o jornal "Público", que coloca Portugal em 6º lugar (a confusão de alhos com bugalhos é evidente, mas nem isso justifica a dança dos números).
Na primeira semana de outubro, o Jornal da Noite da Sic veiculou a "notícia" de uma passeata no Rio de Janeiro, organizada por atores da Rede Globo, contra crescente o porte de armas por civis. No entanto, na notícia da Sic, a manifestação transformou-se em uma "inédita" organização da sociedade civil brasileira contra a violência urbana. Citando as palavras da pivot do telejornal: "é curioso que uma sociedade violenta como a brasileira necessite de uma telenovela para acordar para os problemas da criminalidade urbana". Assim, no mundo da fantasia dos telejornais portugueses, uma das sociedades civis mais organizadas do mundo (o juízo é da inspectora de direitos humanos da ONU, que esteve no início de outubro no Brasil a investigar grupos de extermínio), só se manifesta após a realidade ser mostrada em uma novela da Globo. Na verdade, já houve dezenas de manifestações contra a violência no Rio de Jnaeiro, e há dezenas de ONGs dedicadas ao tema, a mais famosa das quais a Viva Rio, composta por moradores da Zona Sul, a qual, aliás, já se havia manifestado (na imprensa, em manifestações de rua)contra a exploração da criminalidade carioca em telenovelas brasileiras, pois estas são transmitidas em todo o mundo, podendo assim causar prejuízos ao turismo na cidade. A passeata dos atores da Globo foi uma reacção à Viva Rio.
Já vai longuíssimo o comentário, e permanecem meus imensos apontamentos de falsas notícias nos media portugueses. Penso que o único antídoto seja sair urgentemente do país, um 1984 orwelliano que nenhum português parece enxergar (Salazar, venceste!)

Afixado por: nina basilio em outubro 16, 2003 05:24 PM

Muito interessantes, o post e os respectivos comentários.

Afixado por: Jovem da Taska em outubro 17, 2003 12:08 PM
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