outubro 24, 2003

A dissidência e a conveniência

«Recordo esse triste momento de vaias e apupos que o Daniel retoma aqui na blogoesfera em mais uma reacção à flor da pele. Guardo essas vaias como um dos momentos de vergonha e de autismo na história do PS.»

Diz o Adufe e não podia ser mais injusto. Soubesse de mim e do meu percurso e saberia que estou a léguas de tais vaias. Mas não é por aí que posso e devo argumentar. Fica para outra oportunidade, menos pública – evito aqui expor em demasia o que é pessoal – contar ao Adufe de onde venho, como venho de onde venho, onde estou, como estou onde estou e para onde não fui. Digo-lhe apenas que simpatizo com a dissidência e a minha vida está recheada, até excessivamente recheada, dessa dissidência. Se ler os meus posts atentamente – concordo que não é uma leitura prioritária –reparará nisso mesmo.

Mas gosto da dissidência convicta, baseada em princípios, desenhada por inevitabilidades morais. Detesto a dissidência exibicionista e táctica. Há, reconheço, entre a lealdade e o seguidismo uma ténue fronteira. Essa fronteira é marcada pela inteligência e pelas motivações. É das motivações que falo, quando falo de Carrilho.

Acho de Carrilho o que acho de Manuel Alegre. Quem quer fazer da política uma tentativa permanente de mudar o que se quer mudar, é consequente e só quebra quando o que está em causa é o que se quer mudar. Quando se faz da política um palco de vaidades e ambição sem conteúdo, faz-se da dissidência uma pose para o retrato.

Carrilho correu o risco de ser vaiado nesse triste congresso do PS – que foi um retrato fiel do que é o PS e o bloco central –, mas o risco era nenhum. Carrilho sabia – eu nunca disse que ele era burro – que estava a discursar perante um cemitério político. Carrilho saiu do governo apesar de nada ter mudado entre o dia em que entrou e o dia em que saiu. Ou melhor, mudou: já não havia dinheiro para brilhar, já não havia popularidade por onde trepar. Os primeiros sinais de lepra de Guterres apareciam à vista de todos. E Carrilho, que era, até então, se a memória vos permite recordar, o trauliteiro de serviço em favor de Guterres e do PS (procurem entrevistas e declarações suas de uma cegueira inenarrável), queria a distância para voltar mais tarde. Voltou. Voltou sem brilho porque não tem conteúdo político. No parlamento, quando fala, fala de si. Chama toxicodependente a um ministro, quando está na oposição. Chama gelatina política ao líder da oposição, quando está no governo. Discute vestuário com Maria Elisa. Politicamente, nunca ouvi nada mais profundo do que isto, vindo de Carrilho. Mas voltou e o escorpião volta sempre à sua natureza.

Quanto ao que diz Gin Tónico, não discuto. Fui claro no que disse sobre o direito à discordância. Não tenho, por princípio, debates desencontrados. Disse o que disse e não o que Gin Tónico queria que eu dissesse para poder fazer o post que fez. Por isso, nada a acrescentar. Quanto ao que acho desta direcção do PS, isso é toda uma outra conversa. Pouco tem a ver comigo que não voto nem nunca votei nem planeio votar nos socialistas. Mas posso voltar ao assunto mais tarde.

Publicado por danieloliveira em | TrackBack
Comentários

Deixei algumas palavras no Adufe.
Um abraço

Afixado por: Rui MCB em outubro 24, 2003 11:21 PM

Tenho que concordar com o Daniel. Assim como concordo com o Miguel Sousa Tavares ("Público" de sexta-feira) quando, ambos, usam a expressão "Homem de partido". Não no sentido de cerrar fileiras ou de "ser da casinha". Não. No actual momento político-social é premente saber marcar a agenda política e quando todos começavam a falar do que é essencial - repito, a divulgação de conversas privadas do líder do maior partido da oposição em flagrante desrespeito da Lei por quem tem o dever de fazer respeitar a Lei- surge a personagem do dito, através da de uma carta aberta publicada no "DN" ( carta aberta..."DN"...brrr...) a recentrar a agenda no futuro político da direcção do PS. Não que este seja assunto tabú, não. Tem de ser discutido. Só que alguém do mesmo partido não pode, não deve, especialmente num momento em que estava a passar a mensagem - acertada- da tremenda canalhice de que Ferro Rodrigues e o PS estão a ser alvo, recentrar as atenções nos erros, que existem em demasia, deste mesmo Ferro Rodrigues e do PS. É nestes precisos termos que eu concordo com o Daniel e com o Miguel. O que o dito fez não foi, pois, nada mais nem nada menos, que um exercício de puro narcisismo que, diga-se, já consta do obituário político do mesmo.

Afixado por: rodion em outubro 25, 2003 03:22 AM

Tenho que concordar com o Daniel. Assim como concordo com o Miguel Sousa Tavares ("Público" de sexta-feira) quando, ambos, usam a expressão "Homem de partido". Não no sentido de cerrar fileiras ou de "ser da casinha". Não. No actual momento político-social é premente saber marcar a agenda política e quando todos começavam a falar do que é essencial - repito, a divulgação de conversas privadas do líder do maior partido da oposição em flagrante desrespeito da Lei por quem tem o dever de fazer respeitar a Lei- surge a personagem do dito, através da de uma carta aberta publicada no "DN" ( carta aberta..."DN"...brrr...) a recentrar a agenda no futuro político da direcção do PS. Não que este seja assunto tabú, não. Tem de ser discutido. Só que alguém do mesmo partido não pode, não deve, especialmente num momento em que estava a passar a mensagem - acertada- da tremenda canalhice de que Ferro Rodrigues e o PS estão a ser alvo, recentrar as atenções nos erros, que existem em demasia, deste mesmo Ferro Rodrigues e do PS. É nestes precisos termos que eu concordo com o Daniel e com o Miguel. O que o dito fez não foi, pois, nada mais nem nada menos, que um exercício de puro narcisismo que, diga-se, já consta do obituário político do mesmo.

Afixado por: rodion em outubro 25, 2003 03:23 AM

reconheço-te o mérito de conseguires ser aqui no teu blog bastante crítico independentemente de questões partidárias, reconheço-te, acima de tudo, a capacidade de observação e a pertinência das coisas que aqui "postas" ... não te quiz "pôr palavras nenhumas na boca", nem me interessa em quem votaste ou em quem virás a votar (é uma opção tua). Tb não pretendo justificar-me do que disse no meu blog.
Quero apenas que saibas, porque não me conheces de lado nenhum, que não entro em "debates desencontrados" e, refiro isto, porque essa expressão me cheira a atribuires-me uma intencionalidade que não tive ...
Abraço

GIN

Afixado por: Gin em outubro 25, 2003 09:54 AM

Fico contente por o saber. Porque esse tipo de debates mata a inteligência dos debates.

Abraços
Daniel

Afixado por: Daniel Oliveira em outubro 27, 2003 04:01 PM
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