outubro 28, 2003

Vento holandês


Rembrandt, Retrato de um Oriental [ou O Rei Osias Atingido pela Lepra?], 1635


Entretanto, saiu este fim-de-semana, na colecção de arte do Público, o volume dedicado a Rembrandt. Aqui no Barnabé gostamos muito deste pintor, até pela razão sentimental de que a primeira imagem que publicámos no blogue teve por base a Lição Anatómica do Dr. Tulp, de 1632.

Ora nesse mesmo ano, e no mesmo bairro de Amesterdão em que Rembrandt Harmenszoon van Rjin, então com 23 anos, pintava a sua primeira obra-prima, nasceu um filho de judeus portugueses exilados. A essa criança deram o nome português de Bento e hebraico de Baruch. Bento Espinosa.

Quando Bento Espinosa nasceu, Christian Huygens tinha apenas 3 anos. Tal como não se sabe se Rembrandt e Espinosa se chegaram a cruzar, também não se sabe se Huygens alguma vez olhou para os anéis de Saturno através das lentes que Espinosa fabricava por profissão enquanto pensava e escrevia filosofia. Amesterdão vivia naquele tempo uma daquelas épocas gloriosas que certas cidades têm a sorte de viver uma vez – como Viena antes de 1914. Além do Dr. Nicolaes Tulp e Rembrandt, quando Espinosa nasceu vivia na cidade o francês René Descartes, que tinha 32 anos. No mesmo ano nasceu John Locke, que também haveria mais tarde de procurar a Holanda, que é, mais ainda do que a Inglaterra ou a Escócia, a verdadeira pátria-mãe da revolução científica e do liberalismo político, ainda antes do Iluminismo.

Fui buscar a maior parte destas informações ao último livro de António Damásio, Ao Encontro de Espinosa. Ainda só tive tempo de o ler pontualmente, mas parece-me o melhor Damásio, ou pelo menos aquele que me suscita uma adesão mais imediata. De certa forma, Damásio está numa posição ideal para escrever um grande livro sobre Espinosa. Por um lado, não está preso às obrigações escolásticas das humanidades; a sua liberdade permite-lhe abandonar a interpretação estrita da obra de Espinosa para explorar as especulações que esta lhe sugere. Ser português também lhe permite aceder a um lado de Espinosa que, a nível internacional, tem sido menosprezado (por exemplo, pela recente biografia de Steven Nadler): a sua inserção na comunidade Judeo-portuguesa. Damásio nota que Amesterdão foi também a cidade de Menasseh ben Israel e Uriel da Costa, que Bento Espinosa conheceu pessoalmente enquanto adolescente, e por quem foi influenciado. E também pela comunidade judeo-portuguesa da cidade andou o Padre Vieira, quando Bento Espinosa tinha 12 anos. Damásio diz que Espinosa nunca seria o mesmo em Portugal, e eu dou-lhe razão, mas teimosamente não consigo deixar de pensar que o anti-semitismo da Inquisição nos roubou o "nosso" grande filósofo.

Felizmente, Damásio é (ao contrário de mim) um português desparoquializado, um pensador cada vez mais generalista [é um elogio, e dos grandes], um cientista com uma relação descomplexada com as humanidades e um escritor cada vez mais seguro.

E já lá encontrei umas três excelentes páginas de análise à Lição Anatómica do Dr. Tulp. Para mim, estas devem ser lidas em contraponto à análise muito diversa que faz W.G. Sebald do mesmo quadro, num livro fabuloso que se chama, não por acaso, Os Anéis de Saturno (Huygens de novo). Damásio reconhece a análise de Sebald e faz-lhe referência em nota: para ele, o facto essencial da pintura é o olhar no vazio do Dr. Tulp. Para Sebald, é antes o corpo iluminado, o cadáver de um azarado ladrão chamado Aris Kindt, enforcado pouco antes.


A posta vai longa. Voltarei depois a W.G. Sebald, o melhor escritor recente que conheço, num texto para o Barnabé XL.

Publicado por ruitavares em | TrackBack
Comentários

...Vá lá....não temos direito a carimbo...

Parabéns pela vossa actividade na blogosfera.

Morfeu

Afixado por: morfeu em outubro 28, 2003 08:53 AM

Esta coisa do Espinosa ter que à força ser Português, lembra-me a outra controvérsia que envolve um Santo, Pádua, Lisboa e noites de muita folia. Como dizes antes, em Amesterdão pululavam personagens marcantes, e Espinosa era mais uma. Mas ainda bem que dás razão ao Damásio; se o Espinosa tivesse vivido em Portugal, nunca teria sido o que foi. Só se o Portugal de antanho era um ninho de talentos, criatividade e pensamentos profundos. Porque o de agora, deixa muito a desejar...

PS - com metade da família constituída por filósofos, sempre fiquei com a sensação de que o Espinosa "filósofo Português" era dito com um misto de frustação e de inverdade...

Afixado por: Paulo Pereira em outubro 28, 2003 11:42 AM

Interesting...

Afixado por: chs em outubro 28, 2003 02:12 PM

Sempre a Divina Providência; não fora a Inquisição e perdera-se um filósofo. De português tem os genes, mas o génio, a forma de associar e abstrair, esses, ganhou-os noutra escola, a flandres.
Quanto ao ladrão Aris Kindt acrecento ao Damásio e ao Sebald o epitáfio “a curiosidade mata!”.

Afixado por: João Mão de Tesoura em outubro 28, 2003 02:12 PM

Cometi, no post anterior, a heresia de colocar o Rembrandt na escola de Flandres ao invés da Holandesa. Perdoa-me Rubens (que não o Barrichello) pela minha ignorância.

Afixado por: João Mão de Tesoura em outubro 28, 2003 02:38 PM

não imaginei que esta posta fosse ter comentários, até porque era uma versão 1.0 a pedir revisão (o adiantado da hora de publicação explica um pouco isso). mas ainda bem que tenho com quem conversar. para já, só tenho tempo para dizer isto: este texto tem umas pontas mal cosidas. logo à noite passo cá para as apanhar.

Afixado por: rui tavares em outubro 28, 2003 05:16 PM

Então vamos por partes:

1. Fui impreciso e mesmo injusto com o livro de Steven Nadler. Ele até reúne muita coisa sobre as origens de Espinosa, novidades que credita a autores especialistas no judaísmo português como I.S. Révah e outros, e que assim saíram deste círculo restrito. Em termos de história das ideas a contextualização, mas é o próprio autor que diz que nunca quis fazer uma biografia intelectual, mas apenas uma vida de Espinosa. E deste ponto de vista conseguiu um excelente livro.

2. Querer que o Espinosa seja português "à força" é de facto muito inadequado. Sempre o achei e concordo com o Paulo Pereira nisto. Além de ser incorrecto, é injusto a dois níveis: por um lado, Portugal dificultou a vida e/ou expulsou os antepassados do filósofo, de forma que é de mau carácter vir reclamá-lo agora; por outro lado Espinosa tentou precisamente içar-se destas categorias étnicas ou étnico-religiosas, por exemplo quando abandonou o judaísmo; a sua pertença à república holandesa parece mais ter sido a adesão cívica à polis do que propriamente "patriótica". Para lá daí, é a República das Letras (que ainda não era formalmente constituída, mas enfim).

3. Isto não quer dizer que o lado "português"do Espinosa seja menosprezável. Quem lhe passar ao lado está a perder uma parte do homem, como que esquecer o Espinosa judeu sefardita, holandês ou óptico. Por um lado, Espinosa era de facto um "português", no sentido em que foi educado naquela comunidade de emigrados. Na sua casa só se falava aquela língua do país dos pais, que aliás era a única que se sentia à vontade (nisso o livro de Nadler é definitivo: o holandês é uma língua segunda para Espinosa, que nunca a dominará completamente). Portugal é ainda importante na formação dele pela dupla-rejeição (entre país e indivíduo) que prefigura a sua outra dupla-rejeição na comunidade judaica.

4. É um bocado tonto culpar a inquisição pela perda de um filósofo que, aparentemente, até viveu feliz e contente na Holanda. Como digo na posta, eu sei que estou a ser tonto e não me importo nada com isso. Essa falsa perda é apenas o símbolo de uma perda maior e dolorosa, que é a de se terem expulso as comunidades que davam diversidade étnica e religiosa a este país. Mesmo que só se tivessem perdido cavadores, a partir daí o país ficou mais pequeno. Fez mal a si e aos outros. Só se é grande quando se aceita os outros.

Afixado por: rui tavares em outubro 29, 2003 01:56 AM

eh-oh! ainda está alguém aqui? então mais duas coisas:
1. O livro do Damásio também não deixa de ser influenciado pelo Sebald, nomeadamente na utilização que faz das imagens, colocadas em lugares estratégicos do texto, sem legendas nem explicações e que emprestam uma certa musicalidade à narrativa.
2. Embora ainda não tenha confirmado se Christiaan Huygens viu ou não os anéis de Saturno através de lentes de Espinosa, Nadler confirma que ele as conhecia e que se referia à excelência das lentes do "judeu de Woorburg".

Afixado por: rui tavares em outubro 29, 2003 11:56 PM

Ena pá!!!!
Ainda não li este recente livro de Damásio (está na calha), mas li os outros dois ... o que acho mais engraçado é a abordagem que os vejo fazer ao livro. O mesmo se passou com o "Erro de Descartes", fala-se da relação que ele estabelece com essas personagens, mas não às questões que le trata na realidade.
Isto não é uma crítica, acho que deve estar relacionado com os meus interesses profissionais.
Aquilo que retiro de essencial dos livros de Damásio é o seu trabalho enquanto neurocirurgião e investigador e o impacto que isso tem na saúde pública, na educação e, principalmente, nas diferentes áreas da educação: desde intervenção precoce, aos comportamentos anti-sociais e delinquentes. Nos EUA, muitos psiquiatras que trabalham com jovens assassinos, servem-se dos conhecimentos de damásio para as suas intervenções.
Outro aspecto importante na obra de Damásio, é que recoloca a discussão sobre se somos seres pré-determinados geneticamente (como defendem muitos reaccionários nos states para justificar, por exemplo, a pena de morte e o tratarem os pretos como seres inferiores porque geneticamente mais estúpidos) e aqueles que somos seres totalmente rsultantes do envolviemnto social.
Os trabalhos de Damásio colocam, de forma mais consistente, na ordem do dia as posições dos que defendem que a genética pré-determina muitas coisas, mas que é o envolvimento social que exerce forte influencia na construção da personalidade dos indivíduos. E Damásio, vem dar consistência física a esta postura, i.e., Damásio demonstra que o desenvolvimento do cérebro, que as trocas neurais que ali se processam, basicamente entre os 0 e os 4 anos, são resultado do envolvimento social. As relações neurais não são nem de origem genética, nem aleatórias, elas resultam das oportunidades, desafios e experiências que o meio proporciona.

GIN

Afixado por: GIN em novembro 6, 2003 08:32 PM

ah! esquecia-me ..
outro aspecto importante destas coisas que voltam a ser discutidas com os trabalhos de Damásio, são as que se referem à separação que durante anos e anos se fez entre racionalidade e emotividade. Mesmo em termos de investigação científica, estes trabalhos (não só de Damásio) tem feito algumas rupturas no chamado "método científico clássico".
Permite mostrar que não há racionalidade pura, mais, permite provar que a racionalidade nasce sobre as emoções. Isto tem levado à compreensão que os "olhos" do investigador são subjectivos e isso torna a investigação, mesmo a que é realializada pelo "método clássico", com uma boa dose de subjectividade.
Curiosamente, enquanto as chamadas ciências sociais se procuravam afirmar enquanto ciência fazendo recurso aos métodos clássicos de investigação, são os investigadores das ci~encias duras que vêm questionar a objectividade desses métodos ...
e prontos que a prosa vai longa

GIN

Afixado por: GIN em novembro 6, 2003 08:44 PM

tem razão, Gin: a coisa ficou um tanto desequilibrada. mas eu estava com vontade de falar de rembrandt, e do dr. tulp. tenho desculpa.

Afixado por: rui tavares em novembro 9, 2003 05:28 AM
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