outubro 29, 2003

Sem sentido

Aparentemente, não se consegue arranjar melhorzinho pela direita do que o argumento do "...então nessa altura andavam todos caladinhos!", que podemos abreviar por argumento dos entaladinhos [de "então+caladinhos", e também porque os seus autores estão entalados neste raciocínio]. Diga-se de passagem que a direita na blogosfera é praticamente toda ela um grande e ininterrupto argumento dos "entaladinhos" – que é aliás, a razão por que não se trata sequer de uma direita, mas só de uma anti-esquerda. A propósito da nomeação de Fernando Lima para o DN, Pacheco Pereira diz que a compra da Lusomundo pela PT "passou sem qualquer protesto dos que agora batem a mão no peito". O Jaquinzinhos escolhe uns exemplos sortidos para ilustrar as atitudes selectivas da esquerda. Quando não se tem nada para dizer, entala-se a esquerda mais a sua "hipocrisia". E como hoje em dia não se tem nada para dizer, faz-se isto o tempo todo.

Cada um fala por si. Mas, que diabo, eles sabem lá se eu estava caladinho ou não? Por acaso não estava. O Jaquinzinhos, uma vez que citou o meu post em particular, podia já agora, sei lá, tê-lo lido. Veria que não tenho uma posição de princípio acerca do trânsito entre jornalismo e política, e que me estou nas tintas para quantas vezes Fernando Lima foi assessor ou não. E veria que o que me irritava é a propensão dos conglomerados de media para bajular o governo, só interrompida quando há uma mudança de maré pré-eleitoral. Não tenho a menor dúvida de que no dia em que o governo for de esquerda há-de haver quem o faça [menos, porque também haverá que ter a lealdade dos proprietários]. E se chegarmos a uma situação como a de hoje, em que a paisagem mediática é mais plana do que a Bélgica, eu cá estarei para protestar, porque gosto demasiado de ler jornais para ter que ler sempre o mesmo. E agora, Jaquinzinhos, confesse lá: está à espera que eu termine dizendo "nesse dia verei se aqueles que agora, etc. etc.", não é? Esses reflexos condicionados...

Publicado por ruitavares em | TrackBack
Comentários

Mas acha que era preferível ser nomeado um qualquer "independente" que fosse fazer o mesmo trabalho?
Só porque Rangel nunca foi membro do PS ou acessor do Governo, é mais aceitável a sua nomeação para a RTP do que agora a de Fernando Lima para o DN?
E se a PT é actualmente uma empresa com capital maioritariamente privado, o que é que nós temos a ver com quem eles nomeiam para dirigir o seu jornal?
Não tarda muito ainda vão querer definir quem é que a Sonae põe ou deixa de pôr à frente do Público...
Já não vivemos num Estado estatizado, felizmente já existe algum liberalismo económico, deixem de querer intervir em tudo!

Afixado por: NunoP em outubro 29, 2003 11:18 AM

eu não quero intervir. agora, chateia-me ter três jornais de referência com a mesma linha política a nível de direcção. preferia o tempo em que havia um público de esquerda e um independente de direita, ambos com sangue na guelra. a triste verdade é que os jornais hoje em dia não são geridos tendo em conta nem a qualidade nem o aumento de leitores, mas somente como braço escrito da relação dos maiores grupos empresariais com o poder. os media estão cada vez mais concentrados (atenção: nisso o Pacheco tem razão, essa é a raiz do problema e a culpa é do PS; o que me chateia é que me digam que eu na altura achei bem) e isso vai secando aquilo de que eu mais gosto na leitura de imprensa.

Afixado por: rui tavares em outubro 29, 2003 07:38 PM

tens razão ... daqui a passarmos a ler o diabo com nomes variados vai um passo ... jornalismo "com sangue na guelra" só mesmo as notícias dos crimes passionais, o dos periodos mestruais das participantes no big brother que proliferam nos jornais diários ...
saudades que ficam de quando os jornais eram jornais e não pasquins ...

Afixado por: GIN em outubro 30, 2003 12:29 AM
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