Já disse aqui que tinha a melhor opinião de Catalina Pestana, sobretudo do tempo em que ela esteve à frente do combate ao Trabalho Infantil. Dulce Rocha e Catalina Pestana têm algumas características em comum. Conheci mal as duas mas tive, em momentos diferentes, o prazer de as entrevistar: são empenhadas, combativas, emotivas e, por vezes, excessivamente voluntaristas. Isso muitas vezes é bom. Algumas vezes é mau. Num caso como o da pedofilia, é péssimo.
Catalina Pestana esperou ontem pela hora do telejornal para “falar ao país”. Não o devia ter feito. Não vou aqui falar da pressão sobre a justiça. Não compro essa. Dar a opinião sobre decisões de juízes é um direito de qualquer cidadão, quando individualmente considerado. Não faltava mais nada que a nossa liberdade de expressão e opinião acabasse onde começa a decisão de um tribunal. No entanto, Catalina fez mal. Fez mal por causa do lugar que ocupa.
Dizer que as crianças lhe pediram para fazer a conferência de imprensa só me ajuda a ficar com mais receio do estado em que esteja a Casa Pia. Catalina Pestana não é porta-voz de crianças. É responsável pelo seu bem-estar e pela sua educação. Nenhuma criança, da mais rica à mais pobre, da mais segura à mais desprotegida, decide fazer conferências de imprensa. Essa incapacidade de compreender os efeitos de uma declaração à imprensa faz parte dos direitos de ser criança. Usar este expediente é mais do que demagogia. É irresponsabilidade.
Catalina Pestana não é provedora das vítimas de pedofilia. É provedora da Casa Pia. Tem centenas de crianças à sua guarda e é nisso que se deve concentrar. E no apoio pessoal e emocional às crianças que, estando envolvidas neste processo, devem encontrar na Casa Pia um lugar de estabilidade. Ao estar permanentemente a apontar os holofotes para aquela instituição, Catalina está a prejudicar aquelas crianças em concreto e todas as restantes que estão na instituição.
E, no entanto, Catalina Pestana tem muito para fazer em relação a tudo o que aconteceu na Casa Pia: mudar a própria Casa Pia. Aquela instituição, como tal, é a principal responsável por tudo o que aconteceu àquelas crianças. Era à Casa Pia que as crianças estavam entregues e a Casa Pia falhou em toda a linha.
Para mudar as coisas não chega fazer a caça às bruxas. Catalina sabe, melhor que muitos, que uma instituição com tantas crianças, com um internato de tipo militar, com tal mistura de idades, é um tipo de solução ultrapassada e que acarreta imensos riscos. O que fez Catalina para mudar este estado de coisas? Que propostas fez ao ministro? Como tenciona criar uma estrutura mais leve e mais próxima de um ambiente familiar? Precisa de mais profissionais? Tenciona substituir o internato por pequenos apartamentos com educadores, como se faz nas mais modernas instituições de protecção de crianças em risco? Era disto que gostava de ouvir falar Catalina Pestana. Faria muito mais para evitar novos abusos de crianças, do que com todo este espectáculo.
Caro Daniel, não podia estar mais de acordo com esta opinião (apenas não subscrevo a parte inicial, pois não conhecço pessoalmente nenhuma das duas para ter esse tipo de opinião formada).
Esperemos que também ela leia isto e deixe de dizer disparates e faça aquilo para que foi nomeada: assegurar a correcta gestão da Casa Pia, no interesse do Estado e de TODAS as crianças que lá estão!
Sr Daniel Oliveira, a mim parece me que o importante seja a tão falada "Memoria Futura", a aplicação deste mecanismo de defesa, para as vitímas, é que me parece fundamental, esta pratica é corrente nos países mais desenvolvidos.
Quanto à conferência de imprensa, sinto que não foi muito correcta a atitude. Mas talvez o Sr Daniel oliveira, vivendo o drama como vivem todas as pessoas que trabalham na Casa Pia, talvez se indignasse, talves se sentisse injustiçado,pelos mais recentes acontecimentos, Poderia não se manifestar nos meios televisivos, mas será que não o faria através da escrita, escrita essa que o senhor tão bem domina? Aguentaria a angústia do silencio e da espera, teria sangue frio e racionalidade? Será que daqui há 10 anos se voltar a ler este seu artigo, concordará com tudo o que então escreveu?
Mais uma vez concordo plenamente com todo o conteúdo do post. Infelizmente em todo este processo o pior foi o mediatismo do mesmo (estou a falar em relação ao processo e não aos factos) e por isso quanto mais se falar dele mais se prejudicam as vitimas. Como é possivel todas as pessoas que aparecem nas televisões (os que dizem estar do lada das vitimas)ainda não terem visto o que estão a fazer.
Afixado por: Maria Ribeiro em outubro 29, 2003 01:34 PMNão concordo de todo com este post. Há coisas que são complicadas de entender nas crianças e nos jovens e mais ainda em crianças e jovens com a experiência de vida das crianças da Casa Pia. Não vou aqui tecer considerações sobre o que penso de Catalina Pestana ou Dulce Rocha, gostaria apenas de dizer que entendo bem o que veio dizer Catalina e porque o veio fazer.
Não me lembro (cheguei agora do trabalho e estou cansada de mais para ir verificar) de ter visto neste blog um texto identico sobre o protagonismo que, por exemplo, Miguel Júdice tem estado a tentar assumir. Aliás nem de Miguel Júdice, nem de ninguém que ande ou tenha andado a atirar-se à magistratura responsável por este processo...
Acho que irei tentar fazer um esboço das razões porque considero que a intervenção de catalina se justificou ..
Abraço
GIN
Afixado por: GIN em outubro 30, 2003 12:17 AMQuem a conf de imprensa era escusda ninguém duvida... Mas como censurar alguém que grita por ser sistemática e istitucionalmente espezinhada? E, no caso, até veio dar voz a outros... Aos que, à semelhança de quando foram abusados, não têm voz de tão pequenos que são...
Da pouco interacção que tive com a justiça, e casos de gravidade ínfima quando comparada com isto, tenho a dizer que percebo a reacção...
É frustrante, revoltante... É isto que faz nascer ódios irreparáveis!
Afixado por: Joao S em outubro 30, 2003 12:42 AMTambém não tenho má opinião de si, mas há pontos em que discordo...
>"Catalina Pestana não é porta-voz de crianças. É responsável pelo seu bem-estar(...)"
Certo, e foi nessa qualidade que interveio. Pode discordar, ou não acreditar, mas a sua conferência de imprensa foi dada com a intenção expressa de proteger as crianças.
>"Nenhuma criança (...) decide fazer conferências de imprensa"
Esta frase ganha o segundo lugar na lista "O que aprendemos sobre as crianças no processo Casa Pia", logo atrás de "As crianças não mentem". Posso estar enganado, e não sei que bases tem para fazer essa afirmação, mas não sei porque motivo uma criança (não falamos de bebés) não poderá pedir que a defendam em público, mesmo sem perceber todos os efeitos. São crianças que vêem as notícias, sabem que há uma grande pressão sobre elas e sobre o processo, e agora, depois de sentirem a reacção dos "poderosos", têm medo e querem que tudo termine rapidamente. Pode nem ser a verdade, mas penso que é plausível. É preciso não esquecer quem são as principais vítimas em todo este processo, o que me leva ao último ponto:
>"Aquela instituição, como tal, é a principal responsável por tudo o que aconteceu àquelas crianças"
A responsabilidade da Casa Pia, e de todos os que souberam e esconderam, ao longo dos anos, é inegável e importante. A principal responsabilidade é dos que perpetraram os abusos sexuais.
Afixado por: Paulo Almeida em outubro 30, 2003 01:00 PM