novembro 01, 2003

[XL5] Christiane Machado Coelho: A Justiça na Fila de Espera

[Para o Barnabé XL desta semana, um relato por dentro do processo de "legalização" de imigrantes no nosso país. O texto é de Christiane Machado Coelho, socióloga brasileira residente em Portugal – e amiga do Barnabé. Para imprimir e ler com calma.]

A saga dos imigrantes em Portugal constitui experiência inédita e surprendente em termos de institucionalização de uma situação ilegal. Por mais que se faça, a impossibilidade de se estar legal é uma constante para qualquer estrangeiro que chegue a este país durante, pelo menos, seu primeiro ano de estadia em Portugal.

Jogo de paciência e espera

A primeira etapa do jogo consiste em destinar tempo para idas consecutivas e ilimitadas ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). A familiarização com este ambiente receptivo impõe-se rapidamente. Da má informação ao descaso, tudo vale para quem procura dificultar a vida do imigrante ao máximo. Só para começar, saiba que destinar-se ao SEF para tratar de seu caso é, por principio, um teste de paciência (nunca nenhum Zen budista pôde imaginar algo semelhante). Chegando a esta funcional instituição, informar-lhe-ão inicialmente de que o seu caso não pode ser tratado onde está. É-lhe dado um outro endereço, situado num sítio oposto da cidade. Quando finalmente se encontra o sítio indicado – cabe lembrar que muitos imigrantes desconhecem a cidade e muitas vezes a língua de Camões, o que deve provavelmente indicar uma gentil opção do SEF em acelerar o processo de integração destes estrangeiros récem-chegados – será informado que o seu caso deve ser tratado exatamente onde tinha ido inicialmente. Nesta primeira etapa, as informações do SEF serviram certamente para dar um passeio forçado, que entre a visão da nova cidade e o contingente populacional concentrado nas filas de espera (quando se apanha uma senha dificilmente se obtém um número inferior a duzentos) lhe lembram o tratamento animalesco a que podem ser submetidos seres humanos.
A imagem recorrente que vem à mente é a de rebanho. O conjunto de pessoas que se encontram neste ambiente muitas vezes esperam horas, dias, meses, anos para obterem a regularização de seus processos. Poderíamos imaginar, neste caso, que se tratam de pessoas desocupadas cujo hobby consiste em tratar de questões administrativas. Infelizmente não é este o caso. Estas pessoas muitas vezes trabalham de forma extraordinária para garantir sua sobrevivência, num sistema que não lhes oferece a menor garantia em termos de contrato, de segurança social, contrato de aluguel de casa.
Certamente poderão pensar que estou me referindo à pessoas cujo interesse pela regularização não é uma prioridade, mas infelizmente este não é igualmente o caso. Independentemente da nacionalidade, da personalidade, do gosto, da situação, do estilo de vida do estrangeiro em questão, o imigrante é institucionalmente obrigado a experimentar uma situação de irregularidade instituida. Para aqueles que nunca imaginaram encontrar-se em situação semelhante, é surprendente.
Quando se consegue dar entrada ao pedido de visto, certamente após algumas idas consecutivas ao SEF, pois informação que é informação nunca pode ser dada por completo nesta instituição – é uma regra da casa, provavelmente formulada como o intuito de tornar a vida do imigrante mais diversificada – recebe-se algo semelhante a um recibo de fotócopias, sem fotografia e sem aspecto oficial, cujo prazo de validade, embora não seja informado, é mensal. Quando se tem finalmente este recibo em mãos e se pensa que tudo foi feito para estar regularizado, descobre-se que a saga do insucesso mal começou. No SEF nunca se sabe dizer se uma união de fato com cidadão português é ou não válida para fins legais; o tempo médio de resposta a um processo nunca é igualmente mencionado, o que faz provavelmente jus a uma situação em que nem Deus sabe (no meu caso estou à espera há um ano).

Prisão a céu aberto

Após alguns meses em Portugal, descobre-se rapidamente que se foi inserido numa situação de limbo institucional e de direitos. Uma pessoa que deu entrada a um pedido de visto, mas que ainda não tem a resposta (este tempo é em média de um ano e meio) encontra-se numa situação legalmente vegetativa. Oficialmente tudo foi feito para regularizar a situação, mas na prática a pessoa encontra-se em situação irregular e desprovida de direitos.
Questões básicas da vida que vão da moradia ao trabalho ficam igualmente relegadas para uma situação de irregularidade. A vida fica suspensa por tempo indeterminado, numa situação de prisão a céu aberto. Os deslocamentos para fora do território nacional são fortemente desaconselhados, embora mesmo quanto a este assunto não se tenha informação única e fiável. Descobre-se após alguns meses de espera que uma nova ida ao SEF pode resultar num novo carimbo que revalida por um mês o recibo de entrega do pedido de visto – o que normalmente poderia ser informado pela própria insituição que força à irregularidade de situação a pessoa que espera por uma resposta.
Após alguns meses de entrega do pedido de visto, recebe-se finalmente alguma correspondência do SEF : pedido de complementação dos documentos entregues no processo. Em alguns casos, conseguem a proeza de pedir documentos inexistentes, redundantes, contraditórios ou já entregues. Quando se tenta completar o processo, descobre-se, já em situação de desespero, que há possibilidade de recorrer ao pedido de urgência no processo, que deve ser devidamente fundamentado e sujeito a um parecer administrativo. A luz no final do túnel parece surgir, quando se descobre que, mesmo o pedido de urgência tem por resposta um tempo indeterminado. A etimologia da palavra urgência não se aplica neste caso.

Sub-cidadania

O teste de paciência a que foi submetido o indivíduo desde o inicio deste processo é novamente lembrado. Alguns meses depois recebe-se finalmente mais uma carta: novo pedido de complementação do processo. A situação parece chegar ao absurdo. Além do que é pedido formalmente, é preciso ler e interpretar as entrelinhas da documentação demandada. A lógica é a seguinte: nunca vá pelo mais simples, leve o que lhe foi pedido e o que não lhe pedem da forma mais actualizada e não se espante se lhe pedirem documentação que não estava mencionada no folheto. Já me aconteceu deitarem ao lixo o papel que tinha na mão com a lista da documentação exigida, quando afirmei estarem pedindo documentação que não tinha sido solicitada antes e que não estava presente na lei. Obtive como resposta : “se calhar a lista está mal feita”. Infelizmente não tinha câmara para registrar a arbitrariedade do tratamento de alguns funcionários do SEF face aos estrangeiros.
No meu caso específico, o português é minha lingua materna e comprendo bem o que está escrito nas leis – que no caso da imigração em Portugal já não é das melhores – mas enfrento quotidianamente dificuldades para obter informações necessárias ao meu processo e à efectivação dessas leis.
A ausência de direitos, por tempo indeterminado, a que se sujeita forçosamente quem tenta, enquanto estrangeiro, regularizar a situação em Portugal cria uma situação de sub-cidadania ou de cidadania de limbo para estas pessoas. História sem fim e sem prazo para resolução, espero que divulgando parte do que enfrenta um estrangeiro no país se possa pensar na legalidade ou ilegalidade de certas situações oficialmente instituidas.

Publicado por ruitavares em | TrackBack