Irei mais tarde e com muito mais tempo e respiração a tudo isto, Ivan. Limito-me agora a marcar lugar na polémica que se segue. Discordo em quase tudo da tua leitura de Dogville. O filme é o contrário do maniqueísmo, é o contrário da apologia do 11 de Setembro, quer ser sobre os americanos mas é sobre toda a natureza humana. Não é repugnante. É dos mais perturbantes que já vi. É muitíssimo reaccionário, mas inteligente. E um dos melhores filmes de um dos melhores realizadores de cinema vivos.
Haja alguém, Daniel... O sádico, intempestivo, bíblico, parabólico, primário Dogville é um dos melhores filmes (aceitando que aquilo é, categoricamente, cinema) que já vi. Quanto a ser reaccionário mantenho reservas. Apesar de ter dado por mim – e por muitos amigos que não são reaccionários – com uma pergunta insólita: «Não será a atitude de Trier a única possível nos dias que correm?» Não, concluimos.
Afixado por: Paulo Pena em novembro 3, 2003 05:02 PMDo filme ainda estou a ressacar. Que acredita piamente na maldade da natureza humana, lá disso não há dúvidas. No entanto, o introito do Pergolesi (Sabat Mater) assenta como uma luva. Esta obra inovadora, numa época em que as dissonâncias eram consideradas uma manifestação infernal, ajusta-se completamente à essência deste filme: inovador, que deixa marcas. Um "slow food" film, para lembrar durante muito tempo...
Afixado por: Paulo Pereira em novembro 3, 2003 08:01 PMPorquê "reaccionário"?
Bom, se calhar não acho Dogville reaccionário, porque eu próprio o sou um pouco (pelo menos, na moral e na ética).
Mas porque dizes isso, Daniel? Será pela mesma razão que o Ivan acha que o filme é "repugnante"? E qual é essa razão?
Gostaria de lembrar que o filme se passa nos anos 30 em plena crise, mas isso tudo seria ilustração, pois os dialogos são totalmente atuas, é certo que a crise tem tudo a ver com o contexto mas tenho certeza de que as dissonâncias não são consideradas uma manifestação infernal.