novembro 06, 2003

A geração mimada

José Manuel Fernandes acha que os estudantes tinham melhores assuntos para se manifestarem. Como não o deixam entrar nas RGA’s para o explicar às massas impreparadas, escreveu um editorial.
JMF acha que os estudantes são egoístas. JMF, que faz parte de uma elite que nasceu sabendo que ia acabar o liceu, que fez o liceu sabendo que ia entrar na faculdade, que faz parte de uma geração que fazia a faculdade sabendo que cá fora esperava-a um emprego, acha que os estudantes são egoístas. Porque José Manuel Fernandes, Miguel Sousa Tavares ou Pacheco Pereira não interiorizaram parte do 25 de Abril. Interiorizaram a liberdade (apesar de José Manuel Fernandes, que de vez em quanto volta, na adjectivação, aos velhos tempos, achar que quem tem uma opinião diferente da sua é um palhaço oportunista), mas não interiorizaram a democracia no que ela tem de mais profundo: a ideia de que todos temos direito ao melhor para sermos o melhor que pudermos.
Por isso o 25 de Abril tentou dar-nos a todos, filhos de licenciados e de analfabetos, a possibilidade de escolher o nosso futuro, fazendo com que a origem social de cada um pese o mínimo possível. Esta geração, que quase só encontrou os filhos das elites nas suas faculdades, não viu os mais pobres a chegar à Universidade. Esta geração acredita que os que se manifestam hoje são os filhos dos seus amigos. Não são.
Diz um estudo de Casimiro Balsa que, numa família de classe média, um filho na Universidade Pública leva 25% dos rendimentos. Se for de uma família de classe baixa, são 50%. As propinas são altas para esta gente e esta gente é muita gente. Os pais deles não têm livros e a escola não foi um passeio. A entrada na universidade pública foi conquistada a pulso. O emprego, depois, é uma miragem. Para os pais, tudo isto significou um esforço brutal, cortando em despesas essenciais. Não são egoístas as manifestações dos estudantes. Eles sabem que este aumento é só o começo, como foram os anteriores. Poder ver, com naturalidade, um filho de continuo numa Universidade Pública, é isso que está em causa.

Publicado por danieloliveira em | TrackBack
Comentários

Bem dito! Gostava de ter visto ontem a explicação toda da ministra da CES no parlamento. Vai dar bolsas a todos os mestrandos e doutorandos? Este ano, cortam o orçamento do superior e aumentam o da ciência, mas as BIC's (bolsas de investigação científica), financiadas pela UE e pela FCT (ambos dinheiros ministeriais) vão desaparecendo... Mais dinheiro para os sôres dôtores, que coitaditos, bem merecem...

Afixado por: ricardo em novembro 6, 2003 04:05 PM

Como não me apetece repetir argumentos, se quiserem dêem uma leitura a este meu
post.

Afixado por: NunoP em novembro 6, 2003 06:44 PM

Caro Daniel,

Desculpe maçá-lo com mais um comentário mas parece-me um escândalo aquilo que diz sobre as propinas. Analisemos a questão de uma forma séria. Só pagam propinas os alunos cujo rendimento per capita do agregado familiar, após a dedução das despesas com habitação e saúde e de mais um abatimento de 10%, for inferior ao ordenado mínimo nacional, que é de 356 EUR. Vejamos então uma família tipo, de um casal com dois filhos na universidade. As contas são fáceis. 356 vezes 4 é igual a 1.424 EUR a dividir por 90% dá um total de rendimento líquido de 1582 EUR. Imaginemos que andam os dois filhos na universidade e que a propina desses dois estabelecimentos de ensino é a máxima, o equivale a uma despesa de 140 EUR por mês, para os dois filhos. Fica, assim a família com um rendimento líquido mensal de 1.442 EUR. Ou seja no pior cenário possível uma família de quatro pessoas depois de pagas as rendas de casa e as despesas com a saúde fica com mais ou menos 280 contos por mês. Não é muito, mas é suficiente para pagar as propinas. Todos aqueles que estão abaixo deste patamar não pagam propinas.

Afixado por: Ricardo Sousa em novembro 6, 2003 07:11 PM

Não sei se está a falar de a Acção Social Escolar. Suponho que sim. E as suas contas não me parecem estar certas. Nesse cao, eu não pagaria propinas e pago. Sempre paguei. Não lhe vou dizer o meu ordenado, mas depois de descontada a renda da casa e as despesas da saúde fico (per capita) com bem menos do que isso.

Dou-lhe os números que tenho:
Uma família com dois filhos na Universidade que tenha um rendimento bruto superior a 1450 euros mensais (conjunto dos ordenados brutos do pai e da mãe) e tenha os filhos a estudar fora da sua cidade não tem direito a qualquer apoio do Estado.

Uma nota: A Assembleia da República paga as propinas aos seus funcionários. É uma nota interessante, não é?

Afixado por: Daniel Oliveira em novembro 6, 2003 07:35 PM

Fico pasmada contigo Daniel ... não conseguiria responder com tanta clareza às postas aqui deixadas ,,, é que eu sempre trabalhei e estudei. Hoje tenho uma situação económica desafogada, mas passei muitas dificuldades enquanto fui estudante. Só pôem postas como as que li aqui, as pessoas que nasceram de rabo sentado e nunca o tiveram que levantar. Como eu, há muitos estudantes universitários que vivem em condições difíceis. Não me refiro apenas ao factor económico, refiro-me a que o factor económico agrava em muito a situação desses estudantes, nomeadamente aqueles que se vêm deslocados para longe de casa ,,,
Agradeço sinceramente as tuas respostas a tanta cegueira

GIN

Afixado por: GIN em novembro 6, 2003 08:02 PM

o nunop descobriu as virtudes da produção em série segundo normas standardizadas.
repete argumenos, repete comentários. isto gera riqueza suponho eu

Afixado por: tchernignobyl em novembro 7, 2003 09:41 AM

Ricardo,

Bem me parecia que as tuas contas não batiam certo. Só 30% das despesas em habitação e saúde são abatidas. O abatimento de 10% é só para estudantes deslocados.

Afixado por: Daniel Oliveira em novembro 7, 2003 01:01 PM

Não é que eu concorde com tudo o que está na nova lei. Não é que não ache que o investimento na educação é escasso. Mas eu faço parte da geração que não tem certo o lugar na faculdade e muito menos no emprego. Mas que direito têm os meus colegas (e não são assim tão poucos) de se andarem a arrastar nas faculdades sem fazerem um mínimo de esforço para passarem a cadeiras e desperdiçarem o dinheiro de todos nós? Ando no IST, Lisboa, e não é raro o caso em que alunos do primeiro ano não fazem sequer uma cadeira. Aqueles que fazem uma ou duas, já são em número considerável (relembro que há 10 para fazer). A irresponsabilidade dos alunos é grande e vem desde a escola primária. O ensino básico, secundário, superior, está mal, mesmo muito mal, há dezenas de anos.... não é hipocrisia e demagogia, vir berrar para a rua apenas e só quando se fala em dinheiro??!

Afixado por: francisco delgado em novembro 10, 2003 03:17 AM
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