novembro 07, 2003

O conteúdo e a forma

«O que é que Cunhal diz que não se encontre, na sua substância (a forma é outra coisa), um pouco por todo o lado na esquerda radical?»
José Pacheco Pereira, seria fastidioso explicar-lhe, até porque está careca de o saber, que, em política, a diferença entre forma e conteúdo não existe. A linguagem é quase tudo. Como não há diferença entre fins e meios.
Seria fastidioso explicar-lhe que é diferente dizer que a política dos Estados Unidos é importante foco de instabilidade que favorece o terrorismo do que dizer que os «Estados Unidos tornaram-se a principal força do terrorismo mundial». Que é diferente dizer que a revolução de 1917 foi um marco político importante ou que empreendeu «com êxito a gigantesca tarefa de construir uma sociedade sem exploradores nem explorados». Que nem toda a esquerda radical concorda com Negri. Que dar o exemplo da Coreia do Norte e do Laos não é um pormenor estilístico. Que nem toda a esquerda radical gosta de Fidel. Diz que «tanto quanto eu saiba, manifestações da esquerda em Portugal nunca houve contra Kadafi ». Porque raio não a organizou? Devo depreender, então, que é apoiante do ditador líbio. E porque não se revoltou contra o aperto de mão de Martins da Cruz, seu colega ideológico, ao mesmo líder? Seguindo o seu raciocínio, depreendo que achou muitíssimo bem.
«Cunhal incomoda-os porque a forma, a linguagem e o estilo, fazem parte de um passado de que ninguém quer ser herdeiro». Não imagino nenhuma frase que lhe assente a si tão bem. Por isso seria fastidioso explicar-lhe tanta coisa. Porque você não está a debater. Está a montar processos de intenções contra o seu ódio de estimação – o seu passado. E a diferença está aí mesmo: não por acaso, este é o seu ódio de estimação. Não se bate em mortos, todos sabemos.

Publicado por danieloliveira em | TrackBack
Comentários

Boa!

Afixado por: José Farinha em novembro 7, 2003 07:31 PM

Brilhante.

O homem pode até pairar vários degraus acima da mediocridade do partido em que milita e até dos outros, mas se há pessoa a quem falta honestidade intelectual é JPP.

Ainda bem que há pessoas que escrevem como o Daniel.

Afixado por: JC em novembro 7, 2003 07:55 PM

isto é muito simples. se o gajo quer manifestações contra o kadhafi que as organize e que vá lá colar cartazes e dar o litro avenida a baixo e que se deixe de merdas

Afixado por: tchernignobyl em novembro 7, 2003 08:07 PM

Caro Daniel,
Porque raio não a organizou ???
Como tás careca de saber não há apenas uma forma de expressão política.
Podemos criticar o apoio que as camaras comunistas dão à Festa do Avante e não podemos (não posso) ter como resposta, as câmaras socialistas que organizem uma.

Essa do passado como ódio de estimação é, no meu modesto entender, uma tentativa de assassinato de carácter que recorrentemente se procura fazer ao PP e que não acho justa. Senão pergunto:
-É politicamente mais correcto e intelectualmente mais sério o Pacheco Pereira ou o Carlos Brito ?

Afixado por: Real em novembro 8, 2003 12:39 AM

PAcheco Pereira é inteligente, o que torna impossível a comparação com Carlos Brito.

Afixado por: Daniel Oliveira em novembro 8, 2003 12:51 AM

Aceito a metalinguagem como resposta.

Afixado por: Real em novembro 8, 2003 12:58 AM

Tenho ouvido elogiar Álvaro Cunhal pela luta de toda uma vida por uma causa que abraçou.

Partilho do elogio: "não concordo com aquilo que dizes, mas lutarei até à morte pelo teu direito a dizê-lo".

Mas ouço também elogiá-lo pela coerência de princípios que demonstrou em toda essa vida.

É também verdade!

Álvaro Cunhal tanto "espetava" comigo no Campo Pequeno no princípio da sua vida, se pudesse, claro, como igualmente o faria agora, 60 anos depois.

É, na realidade, o que se chama coerência!

Afixado por: luishgr em novembro 8, 2003 02:20 AM

O "Velho" está velho e quase cego, escreveu, ou deu seu nome a um texto que dizem ser medíocre e sem ponta por onde se pegue, coisa que até não parece dele.
Mas, não é que provoca uma tal agitação, um tal alvoroço, espelhado em posts e mais posts, em comentários e mais comentários nesta aldeia dos macacos.
Na arvore da sociedade, os macacos dos galhos de cima, desataram a gritar para os macacos dos galhos de baixo - Estão a ver, estão a ver, as vossas ideias são medíocres e sem ponta por onde se pegue, ainda não perceberam que chegamos ao fim da história, doravante as coisas devem ficar como estão, as vossas ideias não prestam.
Está claro, os macacos dos galhos de baixo, fartos de levar com merda, sim, porque os macacos dos galhos de cima passam o dia a cagar, argumentam - Não, não podemos continuar assim, temos de cortar alguns galhos, a arvore, tem de haver menos galhos, e em direcções diferentes, para ver se o pessoal não apanha com a vossa merda, ou pelo menos não apanhamos com a merda toda.
Mas, a coisa não fica por aqui, lá em baixo na terra onde a arvore vai buscar o seu sustento, vive uma catrefa de macacos que por terem caído da arvore, ou porque nunca terem conseguiram subir, vagueiam tentando fugir da merda que cai a potes, ainda por cima só têm direito a comer os frutos podres que os outros já não querem.
Meu caros, eu, macaco com direito a galho, estou com medo que um dia deste os macacos lá debaixo se lembrem de deitar a arvore a baixo.
Pelo sim pelo não, é melhor a gente pensar em fazer qualquer coisa antes que a arvore vá mesmo abaixo.

Afixado por: José Gabriel em novembro 8, 2003 12:01 PM

O "Velho" está velho e quase cego, escreveu, ou deu seu nome a um texto que dizem ser medíocre e sem ponta por onde se pegue, coisa que até não parece dele.
Mas, não é que provoca uma tal agitação, um tal alvoroço, espelhado em posts e mais posts, em comentários e mais comentários nesta aldeia dos macacos.
Na arvore da sociedade, os macacos dos galhos de cima, desataram a gritar para os macacos dos galhos de baixo - Estão a ver, estão a ver, as vossas ideias são medíocres e sem ponta por onde se pegue, ainda não perceberam que chegamos ao fim da história, doravante as coisas devem ficar como estão, as vossas ideias não prestam.
Está claro, os macacos dos galhos de baixo, fartos de levar com merda, sim, porque os macacos dos galhos de cima passam o dia a cagar, argumentam - Não, não podemos continuar assim, temos de cortar alguns galhos, a arvore, tem de haver menos galhos, e em direcções diferentes, para ver se o pessoal não apanha com a vossa merda, ou pelo menos não apanhamos com a merda toda.
Mas, a coisa não fica por aqui, lá em baixo na terra onde a arvore vai buscar o seu sustento, vive uma catrefa de macacos que por terem caído da arvore, ou porque nunca terem conseguiram subir, vagueiam tentando fugir da merda que cai a potes, ainda por cima só têm direito a comer os frutos podres que os outros já não querem.
Meu caros, eu, macaco com direito a galho, estou com medo que um dia deste os macacos lá debaixo se lembrem de deitar a arvore a baixo.
Pelo sim pelo não, é melhor a gente pensar em fazer qualquer coisa antes que a arvore vá mesmo abaixo.

Afixado por: José Gabriel em novembro 8, 2003 12:01 PM

Robert Wyatt:

They say the working class is dead, we're all consumers now
They say that we have moved ahead - we're all just people now
There's people doing 'frightfully well' there's others on the shelf
But never mind the second kind this is the age of self
They say we need new images to help our movement grow
They say that life is broader based as if we didn't know
While Martin J. and Robert M. play with printer's ink
The workers 'round the world still die for Rio Tinto Zinc
And it seems to me if we forget
Our roots and where we stand
The movement will disintegrate
Like castles built on sand

Afixado por: o proletário vermelho em novembro 8, 2003 09:56 PM

Magnífico texto de Robert Wyatt.

No entanto, não posso deixar de perguntar ao «Proletário Vermelho», que o citou:

- A que raio de propósito vem esta citação, quando se fala de Álvaro Cunhal?


Afixado por: luishgr em novembro 9, 2003 03:15 PM

o proletário vermelho para ser coerente com a sua linha de comicidade indigente e revivalista podia abster-se de citar o robert wyatt que é um assunto mais sério e honesto do que as brincadeiras passadistas acerca do camarada estaline que é mais um motivo de nojo do que de humor.

Afixado por: tchernignobyl em novembro 9, 2003 08:29 PM
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