Caro McGuffin do Contra a Corrente:
Li a sua réplica "Eu Sabia" [7.11.2003], que me motiva as seguintes conclusões:
– V. pode generalizar abusivamente acerca de uma categoria de pessoas e chamá-las de "completa e alegremente analfabetas", sem apresentar, em qualquer dos seus posts, nenhuma prova das suas asserções. Se eu chamar a atenção para o facto, não tenho "honestidade intelectual".
– V. pode atribuir intenções a outrem de forma arbitrária, v.g.: partir do princípio de que eu vou avançar com o "chavão neo-liberal", porque "seria fastidioso explicar-lhe o que quero dizer com liberal", isto sem base em coisa nenhuma que eu tenha alguma vez escrito. Eu, se comentar coisas que você escreveu no seu blogue por sua livre e espontânea vontade, estou a ser pouco cordial e não tenho "estofo" nem "afabilidade".
– V. pode reivindicar "Um pouquinho de sentido de humor" aos outros. Mas se os outros fazem humor, considera-se ofendido e insultado, e insultado até por insultos puramente imaginários.
Isto quer dizer que V. demonstra arcaboiço para ir à guerra; mas só se for para dar, porque quando lhe acontece levar grita "Aqui d'El-Rei!". Ora, eu até acho que a Ana Sá Lopes foi injusta quando colocou o Pedro Mexia na "Direita Chorona". Mas que a categoria existe, lá isso existe. E V. deveria evitar de correr assim de braços abertos para ela.
Mais desenvolvidamente:
A coisa vem a propósito de um comentário meu a um excerto de um texto seu ["Vargas Llosa", de 5 de Novembro]. Nesse seu texto, Você comentava opiniões de Vargas Llosa e comparava-as com um site de extrema-esquerda que você, no seu direito, acha perigoso e abominável. Até aí tudo bem.
Só que depois decidiu generalizar para o resto da esquerda, e dentro desta com mais pertinência para as "supostamente esclarecidas elites académicas europeia e americana - completa e alegremente analfabetas em matéria de filosofia política «hostil» (nunca leram uma linha de Oakeshott, Berlin, Hayek, Schumpeter, Popper, Aron ou Strauss, embora insistam, no caso de Strauss, em crucificá-lo a título póstumo)". Eu, no meu comentário, perguntei-me como é que V. teria tido acesso a tal informação, e brincava: teria V. feito um inquérito? É que V. não apresentava prova nenhuma da sua alegação, e na sua resposta de ontem ["Eu sabia", 7.11.2003], continua a não apresentar dados ou documentação a seu favor. Como é que sabe que eles não leram nem uma linha destes autores? Não sabe e não pode saber. Generalizou e de forma até bastante agressiva – chamar analfabetos a universitários é como chamar surdo a um crítico musical.
Ora eu por acaso sei exactamente o contrário: a primeira vez que li ou ouvi falar destes autores (com excepção de dois que cita, mas com muitos outros que poderia colocar na lista, de Popper a Nozick) foi porque eram de leitura obrigatória em faculdades de letras [e com fama de serem de esquerda]. E, com apenas uma excepção (da Prof. Fátima Bonifácio), estes livros foram sempre aconselhados e comentados por professores de esquerda. Os tais "completa e alegremente analfabetos".
Depois comentava também esta passagem: "Já para não falar do uso e do abuso do relativismo quando, por exemplo, perante a evidência da falência do modelo socialista, ainda recorrem, na esteira de Thomas Khun [sic], aos paradigmas relativizantes, em que a tradicional frase “contra factos não há argumentos” foi substituida por outra: “contra factos há... paradigmas". É que qualquer leitura, ainda que superficial, de Thomas Kuhn, confirmaria que a sua obra não tem absolutamente nada a ver com o assunto de que está a falar, muito menos com qualquer possibilidade de a utilizar para branquear a "evidência da falência do modelo socialista" – utilização que, aliás, seria inédita a justo título. E que "paradigmas relativizantes" é coisa que não encontrará na obra de Kuhn, onde os paradigmas, para serem paradigmas, não poderiam nunca ser relativizantes.
Ainda antes disso, fiz o comentário ao "Contra o Corrente" do seu título e nele dizia que "estes nomes" são sempre um "tanto adolescentes". Não me parece que seja de uma grande gravidade [olhe – se isso o sossega, o mesmo dissemos de nós mesmos em relação ao nosso nome]. Não é a mesma coisa que lhe chamar adolescente a si, coisa que V. toma como prova da minha falta de afabilidade, mas que eu não fiz – não ataquei ad hominem, elaborei sobre um título de um blogue que é público.
Já a questão do neo-liberalismo é curiosa. Não sei de onde é que V. foi tirar que eu fosse avançar com qualquer chavão, nem imagino o que é que possa autorizar tais ideias. Eu considero-me bastante devedor do liberalismo. Stuart Mill é dos raros autores que me modificou. E gosto muito, por exemplo, de Nozick. Até acho, surpresa das surpresas, que Nozick é insuficientemente libertário. E gosto também de certos reaccionários: Lakatos, por exemplo. V. criou um Rui Tavares que nada que eu alguma vez tenha escrito (ou dito, ou pensado) legitima, e atacou-o por aquilo que ele não tinha dito, enganando-se na porta.
A propósito disto, uma nota final: creio que só existe uma razão pela qual eu poderia estar disposto a comprar o argumento, frequentemente avançado, da superioridade cívica anglo-saxónica. E isso tem a ver com a sua efectiva tradição de se poder entrar em polémica sem se levar as coisas a peito pessoalmente. Caso contrário, acontece como em Portugal: ou ninguém diz o que tem para dizer, ou se se diz alguma coisa toda a gente fica zangada. Isso, numa comunidade pequena, é trágico para o debate de ideias. Um dos motivos de interesse da blogosfera é tentar ver se assim já atingimos a massa crítica que nos permita fazer a coisa de outra maneira. E creio que todos nós, trabalhadores da bloga, temos um duplo dever perante a clareza e a capacidade de encaixe.
É por isso que eu não vou, ao contrário do que V. pede, ignorar a mensagem que me enviou. Isso seria mesquinho. Tratou-se de um gesto simpático (aliás, enviado umas horas depois do meu post, de forma que fiquei positivamente impressionado até ler este seu volte-face) e fiquei a saber que V. gosta de um livro de que eu também gosto. Nada está perdido: V. parece gostar do Orwell; vou enviar-lhe também um texto que escrevi sobre ele. Corações ao alto, caro McGuffin!, – e saúdinha, que é o que é preciso.
Publicado por ruitavares em | TrackBackOuve lá ó Rui Tavares é verdade que com treze anos já tinhas lido o Capital do Marx e as obras escolhidas do Lenine? É verdade que distribuíste bordoada pelo comité central todo – qual Jesus no templo entre os fariseus –, cindiste com o partido e viraste independente.
Afixado por: Isolda em novembro 10, 2003 01:02 AMCaro Rui,
Das coisas que mais prezo, na blogosfera, é dar para levar. E vice-versa. Portanto, poder de encaixe não me falta. É preciso dize-lo, com toda a frontalidade: V. «deu-me» e, nalguns pontos, com razão.
Admito que possa ter sido injusto com a generalização das “elites académicas”. Contudo, a referência às elites académicas «alegremente analfabetas em matéria de filosofia política hostil” não é totalmente descabida ou gratuita. Conheço alguns professores universitários que a justificam. O próprio site que referi na minha ‘posta’ é feito por ilustres e respeitados professores universitários. Muitos deles, usam e abusam do seu estatuto e dos meios de que dispõem para elaborar pseudo-debates sobre questões políticas (alguns deles são da área da Quimíca e da Física). Veja-se, por exemplo, a forma como o falecido Strauss é hoje em dia retratado (ou nunca o leram ou são cínicos). E digo pseudo-debates porque nunca são convidadas todas as «sensibilidades»... De resto, não sou só eu a dize-lo (se quiser, posso enviar-lhe alguns artigos de opinião ingleses e americanos onde essa mesma opinião vem expressa.)
Folgo muito em saber que gosta de Sutart Mill e, pasme-se, Nozick. Parto, portanto, do pressuposto de que já leu Nozick. Pois foi o próprio Nozick que explicou o «caso» Kuhn (e foi por causa do livro de Nozick “Invariances” que comprei o livro de Khun). A culpa da aplicação generalizada da retórica dos “paradigmas” não foi tanto culpa de Khun (que os aplicou à Física). Foi à utilização abusiva e enviesada dos “paradigams” khunianos que me referi. Eu escrevi: “(...) ainda recorrem, na esteira de Thomas Khun...”.
Se levei a questão em termos pessoais? Não. Contudo, achei que foi particularmente incorrecta a forma como se referiu à minha ‘posta’, aproveitando para «gozar» com um lamentável mas inocente erro ortográfico, numa ‘posta’ que era tudo menos ‘humorística’ (não lhe vislumbrei uma pontinha do tal «sentido de humor»), antes altivamente ‘desdenhosa’. E fiquei particularmente incomodado com a sua observação sobre o título do meu blogue. Descabida e repleta de preconceito.
Escreve o Rui: “V. criou um Rui Tavares que nada que eu alguma vez tenha escrito (ou dito, ou pensado) legitima, e atacou-o por aquilo que ele não tinha dito, enganando-se na porta.” Acho que, pela sua resposta, talvez tenha agora compreendido o que é ser arrumado numa prateleira, devidamente catalogado e formatado. Não criou o Rui Tavares um Carlos “MacGuffin” que não existe?
PS: a minha missiva sobre o Wittgenstein foi enviado antes, a 3 de Novembro. No dia 7, recebi uma mensagem de erro em como a dita não tinha chegado a seu destino. Voltei a enviá-la a 7, já depois de ter lido a sua ‘posta’ sobre a minha.