novembro 09, 2003

[XL6] W.G. Sebald

[Referi-me a este autor há uns dias atrás, a propósito de Rembrandt, Spinoza e do último livro de António Damásio. Prometi voltar a ele e publico agora o obituário que acerca dele escrevi, no Natal de 2001, e que esteve inédito até agora. W.G. Sebald é, para mim, o melhor escritor recente.]

O Mundo sem W.G.

Num gesto habitual a tantas passagens escritas por W.G. Sebald, li o jornal do início até ao fim. E, como frequentemente acontece nos seus livros, dedicava-me principalmente à exploração dos textos breves e das notícias locais, até que a minha atenção foi chamada por um título no canto inferior direito da página, onde se lia: “ESCRITOR W.G. SEBALD MORRE NUM DESASTRE DE VIAÇÃO”. O facto deixou-me chocado e sem respiração, como se fosse alguém realmente próximo de mim, e no meio da surpresa consegui apenas reunir mentalmente o essencial do que ali se dizia: “o escritor alemão faleceu anteontem, aos 57 anos, num acidente de viação em Norwich, no leste de Inglaterra, onde vivia e era professor de Literatura desde 1970”. Segundo o seu editor, Max (Winfried Georg Maximilian Sebald, nascido na Baviera em 18 de Maio de 1944, usava W.G. Sebald como nome literário e Max em privado) levava a sua filha de volta a casa quando um ataque cardíaco o fez perder o controle do carro e mergulhar no trânsito que vinha em sentido contrário. Sebald teve morte imediata; a sua filha ficou em estado grave.
Quando levantei os olhos das páginas e olhei em frente, o tecto da agência bancária onde calhava encontrar-me parecia rebaixar-se, as paredes perderem-se na curva da retina e o fundo da sala escurecer como se estivesse num túnel, tudo compondo claramente a sensação de que o mundo físico se comprimira e afunilara momentaneamente, talvez como sinal da aridez que sempre se acrescenta quando desaparece alguém que, como Sebald, consegue pensar e enriquecer o mundo. Para muita gente 2001 será o ano dos ataques terroristas a Nova Iorque, dos bombardeamentos ao Afeganistão e da interminável guerra na Terra Santa, da recessão e da crise política. Para mim 2001 será isto e decisivamente ainda o ano em que W.G. Sebald morreu de forma inesperada, quando estava no auge dos seus poderes criativos.
Sebald começou a escrever tarde, aos 47 anos. Nestes prodigiosos 10 anos entre o abandono de uma normal vida académica e a sua morte legou-nos quatro livros maiores. Um dos motivos de encantamento deles era o seu fio condutor, já que todos eram atravessados por um enigmático narrador-protagonista que poderia ser o próprio autor, ou apenas W.G., ou ainda um homem sem nome, um molde de gesso vazio, mas pensante, um fantasma solitário e sensitivo que caminha quase sem rumo e que é o eixo que une o leitor ao mundo de Sebald. Em Schwindel Gefuhle (1990, Vertigo na tradução inglesa), vagueia pela Áustria, pela Itália e pelo Sul da Alemanha “na tentativa de preencher o vazio que de mim se apodera de cada vez que termino um grande período de trabalho”, e, ao mesmo tempo que perde e recupera o julgamento reflecte sobre o amor, recolhe memórias da passagem de Kafka pela Itália e tenta fazer sentido da sua própria infância no seio de uma família pós-nazi em que o silêncio abafou tudo o que tivesse a ver com o holocausto e a guerra. Em Die Ausgewanderten: Vier Lange Erzahlungen (The Emigrants, 1992), assiste à vida de quatro judeus, exilados reais ou emocionais, sobre cujos destinos paira a sombra do suicídio e cujas vidas e personalidades são descritas em evocações magistrais e copiosas que transportam e enlevam, e onde o narrador tanto pode assumir o centro como dissolver-se na paisagem por largos períodos até dele nos esquecermos. No soberbo Die Ringe Der Saturn: Eine Englische Walfahrt (The Rings of Saturn, 1995) caminha pela costa inglesa numa pausada meditação enquanto, inesperadamente, se intercalam na narrativa breves ensaios sobre Rembrandt, a guerra, o ciclo de vida dos arenques, a melancolia e a destruição das grandes florestas do mundo.
Austerlitz, o seu quarto e último livro, foi editado neste ano que agora termina em alemão e inglês. É com verdadeiros prazer e espanto que se reencontra esta escrita tão invulgarmente grandiosa e segura, e contudo tão modesta e temerosa nas distâncias que deve respeitar o autor nos seus leitores como nas suas personagens. O tema é a vida de Jacques Austerlitz, um professor de história da arquitectura que o narrador encontrou por puro acaso em várias ocasiões da sua vida e que em duas longuíssimas rememorações que consomem mais de metade das 400 e tantas páginas do livro conta como descobriu que, ao invés de ser como acreditava filho de um pastor calvinista galês era afinal uma criança judia checa enviada num kindertransport para longe da morte certa que teve a sua mãe no campo de concentração de Terezín, facto da sua própria vida que esquecera desde sempre até este vazio inexplicável o vergar emotivamente. Sebald, contudo, gostava de fazer as coisas ao seu ritmo, pelo que esta história não surgirá antes de cumprido o primeiro terço do livro, gasto a lançar-nos pacientemente o feitiço que nos levará até ao fim.
A questão do género. Para quem só agora tem conhecimento do nome e da obra deste escritor, é natural que se pergunte que género de escrita ele praticava, e é possível que este texto até agora o tenha ajudado em pouco ou nada no que a este assunto diz respeito, uma vez que nunca nele foram utilizadas as palavras “romance”, “poesia”, “história” ou qualquer outra definição que não fosse a palavra “livro”. Mas é um pouco pueril — não é? — este assunto, com o qual a certa altura têm de lidar todos os textos sobre Sebald, explicando que não se trata bem de romances nem memórias, nem de histórias ou reportagens, elegias ou consolações, ficções ou artigos, contos ou novelas — assunto que ao próprio autor não parece ter tirado o sono. Os seus livros são apenas a sua voz pessoalíssima, tanto mais encantatória quanto sem nenhuma concessão nem arrogância, a voz madura de alguém que se sentasse a um banco e lhe saíssem de uma vez só todas as palavras necessárias por que esperara sem sequer saber. Pelas raras entrevistas que concedeu disse-nos que não era bem assim e que a escrita — excepto as raras vezes em que páginas inteiras lhe apareciam durante o sono — era para ele uma actividade penosa e lenta. Mas no entanto é esta aparência de espantosa naturalidade e segurança que os seus livros respiram, escritos numa cadência em que tudo parece um sonho ou uma memória meio apagada, uma meditação hipnótica e abundante intercalada por silenciosas fotos a preto e branco, sem legendas e grosseiramente reproduzidas, que ampliam a espessura do mistério entre nós e o nosso passado.
Em português nada foi editado ainda de W.G. Sebald — a sua breve carreira literária só nos últimos anos repetiu traduções, principalmente em inglês e também francês. Para o leitor que não domina o alemão, as traduções inglesas têm, de certa forma, valor de original, pois o inglês era o segundo idioma do autor e este retrabalhava consideravelmente os textos com os seus tradutores, o excelente Michael Hulse e, no caso de Austerlitz, Anthea Bell. Anunciam-se para o próximo ano duas edições inglesas do restante espólio de Sebald — a sua primeira obra, a prosa poética intitulada Nach Der Natur: Ein Elementargedicht (After Nature, 1988) e o ensaio Luftkrieg und Literatur (Air war and literature, 1999).

Rui Tavares

Dezembro 2001

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