Como ninguém queria saber da sua opinião, um tal de Fernando Lobo fez uma entrevista a si mesmo e toca de a publicar. A profundidade das suas respostas só é comparável à acutilância das suas perguntas. Por vezes nota-se que Fernando Lobo tenta fugir às perguntas certeiras de Fernando Lobo. Sem sucesso, acaba por ter de dizer o óbvio: que os estudantes são uns vadios.
Como não me quero ficar atrás, decidi seguir o exemplo deste professor universitário, quer no estilo, quer na forma, quer na qualidade da argumentação. As perguntas e as respostas sofreram apenas pequenas adaptações.
Bom dia. O meu nome é Joaquim Perguntas, o que fez a entrevista a Fernando Lobo. Hoje tenho o prazer de ter comigo o jovem Daniel Oliveira que se predispôs, (gentilmente e apesar da sua agenda carregadíssima) a falar sobre a contestação estudantil, um problema que tanto tem atormentado os nossos professores universitários.
Joaquim Perguntas - Bom dia. Que comentário tem a fazer sobre a indignação dos professores?
Daniel Oliveira – Compreendo-os. Quando se fecha uma Universidade isso causa imenso transtorno. Sobretudo quando isso acontece no dia da semana em que o professor lá vai.
J.P. - Mas os professores queixam-se que é precisa a contribuição dos estudantes para um ensino de qualidade.
D.O. - O senhor sabe quanto dinheiro é que ganha um professor? E quanto gastam em telemóvel, gasolina, cigarros e, em alguns casos – não divulgo nomes – em bares de alterne?
J.P. - Não.
D.O. - Eu também não sei e isso não interessa para nada. Mas tenho a certeza que nem 10 propinas dão para a despesa. A verdade é que os nossos professores estão quase sempre em sabáticas e só têm contacto com assistentes. É raro falarem com um estudante que não seja seu familiar. Uma prova cabal de que as propinas são dispensáveis é a quantidade de professores que não põe os butes na faculdade e dá aulas em três privadas ao mesmo tempo. Nós temos cerca 50% de professores fantasmas. Por outras palavras, deitam o dinheiro que foi conseguido pelas propinas para o lixo. Isso é uma prova evidente de que, se os dispensarmos, não precisamos de propinas para nada.
J.P. - Mas não admite que haja professores que precisem do ordenado da Universidade Pública?
D.O. - Admito que haja. Mas repare que esse ordenado representa uma pequena parte dos rendimentos mensais de um professor. Tem de contar com as aulas nas três privadas, a consultadoria, os trabalhos para fora. Por outras palavras: não é o facto desse ordenado desaparecer que vai fazer com que um só professor fique pobre.
J.P. - Presumo então que é da opinião de que há professores a mais e a ganhar demais…
D.O. - Meu caríssimo amigo, esta gente não anda lá a fazer nada. Qualquer caixa do Continente o fazia melhor do que eles com o ordenado mínimo. Na minha opinião, o Estado só deveria pagar o ordenado ao professores que merecem.
J.P. - E quem é que merece?
D.O. - São aqueles aqueles que lá vão, pelo menos, cinco horas por semana. Os que chegam, às vezes, a dar aulas. Não os que andam na vadiagem. Esses devem ser colocados fora.
J.P. - E como é que isso poderia ser feito?
D.O. – Muito simples: quem conseguisse que os seus estudantes tivessem média superior a 16, recebia 200 contos brutos (desculpe falar na moeda antiga, mas eu tenho dificuldades na matemática); com média entre 14 e 16 recebiam 150 contos, mas sem 13º mês nem subsídio de férias; com média inferior a 14, mas que fossem uma vez por semana à faculdade, receberiam 100 contos. Os outros, aqueles que raramente lá aparecem, não recebiam nada e pagavam o aluguer da sua sala e do material de escritório que usam.
J.P. - Humm... Você é um génio.
D.O. - Uma abordagem deste tipo daria incentivos aos professores para se aplicarem. Seria uma espécie de medida à Robin dos Bosques. A diferença é que em vez de tirar aos ricos para dar aos pobres, tirava-se aos calões para dar aos que dão aulas.
J.P. - Pelas suas palavras, fico com a impressão de que a maioria dos professores anda na vadiagem.
D.O. - Se não andam, parece. O que acontece é o seguinte. Dez por cento dos professores têm realmente interesse em ensinar. Dos outros 90%, uma parte anda na vadiagem e a outra parte até se esforça, mas não vai lá. Repare: eles andaram nas mesmas universidades que esta malta agora anda. Não aprenderam nada. É impossível transformar esta gente em bons professores.
J.P. - Voltando à sua interessante ideia de tirar aos calões para dar aos que estudam. Não receia de que num cenário desses a universidade fique com muito poucos professores?
D.O. - Infelizmente sim.
J.P. - E havendo poucos professores, ficava com alunos a mais, certo?
D.O. - Infelizmente sim.
J.P. - E se calhar não havia lugar para si.
D.O. - Provavelmente sim.
J.P. - Não tem receio disso?
D.O. - Um bocadinho.
J.P. - Mas então não era melhor estar calado?
D.O. - Não consigo ficar calado. É uma coisa que eu tenho. Quando me tenho de fazer uma pergunta a resposta sai logo. É compulsivo. E o pior é que fico fora de mim e, sem saber controlar os meus actos, mando isto para os jornais.
J.P. - Os estudantes não debatem todos esses problemas internamente?
D.O. – Eu internamente, como pode observar, até debato. Mas nas raras oportunidades que tive para exprimir estas ideias com outras pessoas, quando apanhava alguém no refeitório que não conseguia fugir a tempo, senti que me olhavam como se fosse um extra-terrestre.
JP – Porque será?
D.O. – Mais uma vez, não faço a mínima ideia.
o inimigo publico já se disseminou e anda à solta sem controle pelo jornal durante toda a semana
Afixado por: tchernignobyl em novembro 10, 2003 09:04 PMCLAP!!! CLAP!!! CLAP!!!
Parabéns Daniel, depois de um pequena fase em que os textos eram mais transpiração que inspiração, já vi que voltaste aos bons velhos tempos.
:))) inspiradora esta entrevista...
Afixado por: fedelha em novembro 11, 2003 01:41 PMÉ pena que a sua (que partilho) opinião não chegue ao grande público.
Afixado por: ricardo em novembro 11, 2003 04:15 PM