Tem sido hábito ler e ouvir, na comemoração dos seus 90 anos, que Álvaro Cunhal é um homem coerente. Como é dito, na verdade, quer dizer sério mas teimoso, honesto mas parado no tempo. Não vou nesta matéria competir com Pacheco Pereira, o mais sério e profundo estudioso da vida do líder comunista (há elogios que não podemos deixar de fazer).
Mas gostava de deixar esta nota: a “coerência” de Álvaro Cunhal é um mito e um mito que até o inferioriza. Álvaro Cunhal sempre foi um táctico e nunca se incomodou por dar guinadas políticas. Levou, muitas vezes, até às últimas consequências a máxima (alterada) de que para salvar o partido até negociaria com o Diabo.
A sua política de alianças é talvez disso o melhor exemplo. Foi Álvaro Cunhal que envolveu os comunistas na campanha de um homem que esteve ligado ao regime, Humberto Delgado. Foi Álvaro Cunhal que procurou as alianças logo a seguir ao 25 de Abril junto de militares que, inicialmente, nada lhe diziam. Foi Álvaro Cunhal que fechou os olhos, segundo se sabe, ao 25 de Novembro em troca da legalidade do PCP. Foi Álvaro Cunhal que, depois, fez aliança com o seu inimigo Ramalho Eanes, ajudando até à criação do PRD. Foi Álvaro Cunhal que muitas vezes travou o sectarismo do seu partido (que agora está à solta) e outras tantas se alimentou dele. Foi Álvaro Cunhal que, um mês depois de jurar nunca votar em Soares, mobilizou o partido para o fazer. Foi Álvaro Cunhal que escolheu um homem fraco, mas que não era um ortodoxo, para o suceder, em vez de escolher os seus indefectíveis. Porque sabia que a sua herança sobreviveria a Carvalhas – e nisso foi vitima do maior dos seus pecados: o da vaidade. Cunhal é um egocêntrico, não é o homem humilde que sempre foi retratado pelo partido.
Foi Álvaro Cunhal que mostrou numa entrevista a Carlos Cruz uma fotografia da sua neta, quebrando o tabu da privacidade, quando partido vivia maus momentos. E revelou quem era o Manuel Tiago, quando o partido voltou a precisar.
Foi também Álvaro Cunhal que fez sair dos documentos do PCP a expressão “ditadura do proletariado”, que evitou sempre assustar as franjas conservadoras do país, que escreveu o “Partido com Paredes de Vidro” enquanto preparava a limpeza interna. Que tentou conter a limpeza interna ao estritamente necessário. E que, quando viu o seu partido a entrar em plano inclinado, voltou à velha simbologia ideológica para segurar os indefectíveis. E até criou uma nova, como a simpatia pela China, inimiga do movimento comunista a que o PCP estava ligado.
Álvaro Cunhal nunca foi coerente no sentido que tem sido dado a essa palavra. Deu as cambalhotas que teve de dar. Fez as alianças que teve de fazer. Porque era um estratega, nunca um teimoso.
Ó seu trotskista de um raio, vá mas é ouvir Velvet Underground fumar mais umas ganzas e discutir o caso prestige com o seu guru preferido.
então você diz que o camarada cunhal nunca foi coerente, pela sua lógica coerentes são aqueles que abandonam o navio quando a tripulação precisa mais, não é? Ainda você andava a pulular alegremente pela Nova a pintar murais, já eu era l´der estudantil. Agora que sou um grande líder da classe operária anda você outra vez metido nas "revoluções permanentes".A diferença entre o transcendente e o imanente sempre foi a pedra que se colocou entre homens de esquerda e homúnculus de esquerda
Ò "antónio", se pensa que ser da DOESL e da DCES é ser líder estudantil está um pouco enganado, se pensa que ser dirigente associativo é ser líder estudantil, então está completamente enganado.
Quanto à "revolução permanente" do Daniel Oliveira, deixe-o lá em paz, coitado do moço, que já há muitos anos que se deixou dessas coisas, agora ele é um feliz "reformista de esquerda".
Quanto ao Cunhal, é uma boa discussão, mas seria melhor se todos lesse-mos o post "O Cunhal de Rui Ramos", um pouco mais lá para baixo no Barnabé, e autoria do Pedro Oliveira (que por acaso é meu professor), e principalmente o comentário que lá colocaram.
O jpp já tinha ameaçado e agora cumpriu: mais um alinhavar de lugares comuns sobre Cunhal no Público de hoje. É isto o "guru" em assuntos de história do pc! Com alguma esquerda receosa em "competir com o Pacheco Pereira o mais sério e profundo estudioso da vida do líder comunista". (intelectualmente o "estudioso é sério" quando não se está a rir).Curioso que a esquerda reflicta os argumentos da direita na análise de Cunhal e não se pergunte por que em Portugal se deixa o campo da história do movimento comunista aos anticomunistas. Para quando a constatação à esquerda de que as iniciais jpp significam josé pacheco palisse?
Afixado por: pg em novembro 13, 2003 11:32 AMPartiho da opinião do Mário Soares em recente entrevista à SIC.
O Álvaro Cunhal somente pode ser hoje "festejado" pelos seus 90 anos ou elogiado pelo seu combate político ou pela sua "coerência" porque nunca chegou ao poder.
Se tivesse chegado nunca o seria.
Porque "em coerência" com os seus princípios ter-se-ia tranformado num Honnecker ou num Fidel Castro, com polícia política, campos de concentração e de "reeducação" e toda a parafernália que sempre caracterizou os regimes que sempre admirou e admira.
Agora refrescado com a entrada da Coreia do Norte na lista dos países que vê como o "Sol da Terra".
Não entendo como possa haver que ADMIRA Álvaro Cunhal como político e, principalmente, como pessoa.
Cunhal é um facínora da pior espécie.
Não digo isto imbuído ou cego por qualquer anti-comunismo primário.
Não é pelo facto de um homem ser comunista que é um facínora. Há homens admiráveis que são comunistas.
Não é o caso de Álvaro Cunhal.
Que é um Brejnev de trazer por casa.
Curiosamente esses homens, comunistas, de verticalidade reconhecida, são exactamente os que são repelidos e expulsos do partido, frequentemente de maneira aviltante e sem o mínimo reconhecimento pela entrega de uma vida à causa comunista.
Lembro o caso de João Amaral, por exemplo.
*
Como o tal António ali acima o fez com o Daniel, preparo-me agora para ser aqui "desmascarado" pelos indefectíveis defensores do Manuel Tiago (porra, não vêem que o gajo é um escritor de merda) que me colocarão rótulos de significado duvidoso.
Como se isso apagasse a substância do que acabo de dizer...
It's the soviet way...
Como já anteriormente tinhamos anunciado no nosso blogue, Cunhal começa uma aproximação ao marxismo-leninismo. Saudamo-lo por isso embora já o soubéssemos. Tal como o camarada B., anterior militante revisionista e que é neste momento um grande dirigente do proletário vermelho. Já o Barnabé ziguezagueia desorientado entre a classe operária aliada ao pequeno campesinato e a burguesia revisionista.
Relembramos comentários anteriormente feitos a um outro post (é significativo da verdadeira natureza do Barnabé a confissão de (auto?)censura feita por um dos seus membros):
Caros revisionistas do barnabé:
A vocês que começam por renegar Estalin, e depois renegam Lenin e depois renegam Marx e depois renegam Proudhon e depois renegam tudo aquilo de que é feita a esquerda para depois virem dizer que são da esquerda deixo aqui de novo o poema do Robert Wyatt sobre o revisionismo:
They say the working class is dead, we're all consumers now
They say that we have moved ahead - we're all just people now
There's people doing 'frightfully well' there's others on the shelf
But never mind the second kind this is the age of self
They say we need new images to help our movement grow
They say that life is broader based as if we didn't know
While Martin J. and Robert M. play with printer's ink
The workers 'round the world still die for Rio Tinto Zinc
And it seems to me if we forget
Our roots and where we stand
The movement will disintegrate
Like castles built on sand
Afixado por o proletário vermelho em novembro 12, 2003 02:22 PM
é verdade, o Wyatt é um dos últimos estalinistas. Confesso que o omiti de propósito dado o contexto. Mas a ele perdoa-se-lhe tudo.
Afixado por celsomartins em novembro 12, 2003 11:43 PM
António,
Não sou e nunca fui trotskista e se lesses com atenção os posts (não tens de ter paciência para tanto) saberias isso. Sou, como diz o aluno do Pedro, um "reformista". Isso mesmo. Radical, mas reformista. Quanto ao resto, não leste, com atenção. Se lesses, terias entendido o sentido da palavra coerência, que uma palavra que na política tem veneno. Terias entendido que o meu texto era elogioso para Álvaro Cunhal.
Afixado por: Daniel Oliveira em novembro 13, 2003 04:01 PMAlvaro (Carvalhop, nao o cunhal), voltaste a brincar ao Kumba Yalà. Dà a cara, por amor de deus.
Afixado por: Ricardo em novembro 13, 2003 04:29 PMAlvaro (Carvalhop, nao o cunhal), voltaste a brincar ao Kumba Yalà ? Dà a cara, por amor de deus.
Afixado por: Ricardo em novembro 13, 2003 04:29 PMAlvaro (Carvalhop, nao o cunhal), voltaste a brincar ao Kumba Yalà ? Dà a cara, por amor de deus.
Afixado por: Ricardo em novembro 13, 2003 04:30 PMConversa de coerência... Não lhe parecem coerentes todas essas incoerências?! A mim parece-me que ele nunca deixou de defender alguns princípios básicos, por isso dizem que está parado no tempo.
Tal como a Igreja. Esperam que se revolte contra a Bíblia e permita os preservativos, em nome da evolução. Hello?! De tudo o que pode ser criticado na Igreja, a sua recusa em deturpar as escrituras NÃO pode ser uma delas.
Ricardo, não sejas inconveniente, sabes muito bem que o Alvaro nunca foi o Kumba Ialá.
O Alvaro era o XicoNhoca, nome que usurpaste para o teu blogueco internacio-espaguetal.
Afixado por: Kumba Ialá em novembro 13, 2003 10:27 PM