Como tem noticiado o Monde o parlamento francês prepara-se para criar uma lei proibindo o uso de sinais exteriores de identificação religiosa nas escolas. Os relatórios de preparação da nova lei, que merecem o acordo de princípio dos partidos de direita no poder (com excepções importantes nalguns ministros) e de parte da esquerda — os socialistas já se manifestaram favoráveis —, apontam para um claro alargamento do âmbito das restrições anteriores. A questão é extremamente complexa e tem por trás conflitos concretos nas escolas que existem já desde pelo menos finais dos anos 80. É o famoso problema do foulard, o véu ou véus — há diversos, com conotações religiosas também diversas — islâmicos, pondo em conflito o desejo intransigente de certas alunas muçulmanas de não tirarem o véu que usam sempre fora da escola e a direcção das escolas, que insiste na obrigatoriedade de todos os alunos se apresentarem de cabeça descoberta em todos os espaços escolares. Nos últimos meses, o tema voltou à capa de revistas e de jornais e aos debates televisivos, sob o pano de fundo mediático internacional que conhecemos, o qual cria uma narrativa de guerras "civilizacionais". E sob o pano de fundo de um caso contreto que não teve solução: face à intransigência das duas partes, em Aubervilliers, zona suburbana de Paris, duas alunas irmãs acabaram por ser excluídas recentemente de uma escola pela sua direcção.
Assim, no parlamento francês, com o empurrão do presidente Chirac, foi criada uma comissão parlamentar e é pois provável que o que dantes eram disposições orientadoras para as escolas, que agiam depois caso a caso com alguma autonomia, passe a ganhar foros de lei. Além disso, para além dos "religiosos", os textos preparatórios que estão a ser discutidos mencionam também "sinais exteriores políticos". As proibições poderão recair sobre "qualquer signo visível e observável" ("tout signe que l’oeil peut voir") e sobre "outros comportamentos igualmente perturbadores e contrários à neutralidade do espaço escolar". As citações, que vêm de um texto de preparação de uma lei e que portanto pode ainda ser objecto de grandes alterações, parecem-me atentatórias da liberdade de expressão dentro das escolas e também significativas de um fenómeno mais geral: a forte — e fortemente integradora dos imigrantes — cultura laica e republicana das instituições francesas está a dar sinais de fechamento. Perante problemas novos e complexos, a que os deputados franceses chamam, provavelmente com razão, de renascimento dos sentimentos comunitários, o poder político e a escola republicanos estão a responder, também eles, de forma "comunitária". Mais tarde, num segundo post, gostava de desenvolver isto.
Essa lei, se for aprovada, será a lei mais imoral desde a lei seca americana!
Além do atropelo às convicções religiosas das pessoas, que é gravíssimo, há tambem o problema social. Imagino que muita gente vai simplesmente boicotar ou proibir os filhos de ir à escola.
P.S. Vão proibir TODOS os símbolos religiosos mesmo?
Tipo corações de Jesus ao pescoço e brincos com cruzes? Apesar de terem perdido quase por completo a conotação religiosa, não deixam de ser marketing católico. Será que os vão proibir?
Isto já não é revisionismo mas simples reaccionarismo.
Vocês imaginam o grau de opressão a que serão submetidas as raparigas de famílias muçulmanas se não for proibido o uso do véu nas escolas?
Vocês imaginam as pressões que os fanáticos pais e irmãos e tios e primos fazem para que elas continuem todas tapadas?
Se não for proibido o uso do véu nas escolas elas ficam sem qualquer possibilidade de se emanciparem e integrarem nas sociedades ocidentais, sempre com o véu imposto pelos pais e maridos a estigmatizá-las socialmente.
Do revisionismo já vi muito mas isto...
Afixado por: o proletario vermelho em novembro 13, 2003 04:40 PMCuidado: parece que algumas meninas queriam fazer exames de cara tapada. E ninguém pode espreitar, para ver se por debaixo do véu não está o irmãozinho mais velho. Até há quem argumente que no ensino superior a liberdade de cobrir a cara deve ser respeitada. Se querem que elas destapem a cara, só se não houver meninos na sala. Salas separadas, exigem-se.
Meus caros: nem pensar. Todos somos livres de fazermos o que quisermos e em nenhuma ocasião podemos atentar contra a liberdade religiosa de terceiros. Mas quem emigra sujeita-se às leis e costumes do país que os recebe, pelo menos publicamente. Exigir que se alterem hábitos das escolas públicas para as pôr de acordo com os costumes dos imigrantes, faz-me lembrar a canção do vosso mentor, o excelente Sérgio Godinho: O D.Sebastião também foi para Alcácer Quibir gritar: "aqui quem manda sou eu". Não era.
Lembro-me de ler no Metro Holandes (O Metro e um jornal gratis, distribuido nos transportes publicos, que existe em varios paises da Europa) um artigo engracado sobre este assunto, em linhas gerais era assim:
1. Ha quem ache que desfilar nu na Gay Pride de Amsterdao (o que acontece) nao e aceitavel
2. Quem escrevia o artigo nao achava isso, no sentido em que a nudez nao traz consigo nenhuma carga negativa.
3. Pelo contrario, que escrevia o artigo achava que aquilo que se devia pensar em proibir era mulheres com cabecas tapadas em locais publicos. Porque? Porque a cabeca tapada era na pratica um simbolo de dominacao masculina. ie, os homens depois de casados nao teem que esconder nada, contrariamente as mulheres.
Por acaso, da ultima vez que fui a Amsterdao (e ja la vao uns meses), havia um cartaz na rua, penso que da camara. Com uma mulher com um veu. E a pergunta no cartaz era mais ou menos esta: "simbolo multicultural ou problema social?". A ideia, se bem lembro, era promover o debate.
Eu por mim tenho outra questao:
1. Se for uma mulher ocidental que fica em casa a tratar da casa e dos filhos e pouco moderno e simbolo de machismo
2. Se for uma nao ocidental entao dizer que um veu e demais. Pode ser visto como comentario racista e intolerante
A minha pergunta e (alias sao 2):
1. Sou so eu que vejo 2 pesos e 2 medidas?
2. Nao e esta postura "racista"? (ha falta de melhor termo). No sentido em que para "nos" ha o dever de cidadania de acabar com o machismo, mas para os "outros" nao se reconhece esse dever de cidadania? Nao e isto tratar os "outros" como cidadaos de segunda (com menos deveres)?
JL
Afixado por: jean-luc em novembro 13, 2003 04:58 PMse uma mulher quizer (e puder) ficar em casa a tratar dos filhos, tudo ok.
se uma mulher quizer cobrir a cabeça, tudo ok.
O que não é ok é serem obrigadas a fazer o que quer que seja.
Afixado por: JSM em novembro 13, 2003 05:56 PMEm http://alvino-lair.blogspot.com/2003_11_01_alvino-lair_archive.html#106868481308876657 eu já cumentei iço e outras pulhices :-)
Afixado por: AlVino em novembro 13, 2003 06:05 PMIsto é mais um exemplo do típico jacobinismo francês: A persistente vontade de fazer da lei um intrumento radical de mudanças sociais e culturais.
Os franceses têm mesmo uma relação complicada com a liberdade.
ou seja, pode entrar-se com uma camisola do Figo,mas do Maradona não... ehehehe.. absurdo!
Afixado por: cparis em novembro 21, 2003 11:09 AMcomo estudante de direito nao posso deixar de manifestar o meu desagrado por tal lei que se esqueçe pura e simplesmente de alguns direitos consagrados em todas as constituiçoes europeas que sao os Direitos Fundamentais, tais como o direito a vida, á liberdade religiosa etc. Será que o governo francês e nomeadamente o seu presidente da república ainda nao perceberam que para alem de inconstituional tal lei seria um desastre para a educaçao da país?? muito se fala de insucesso escolar ainda vamos contibuir mais para que ele aumente?? Tudo bem que de a uns séculos para cá se instaurou a laicizaçao do ensino mas é necessario chegar a extremos condenando as pessoas pela religiao??
Afixado por: ana filipa em outubro 16, 2004 05:12 PM