As colunas de opinião nos jornais, os espaços de comentários e os debates na televisão, a direcção da quase totalidade da imprensa está tomada já não pelo bloco central (que está, felizmente, irremediavelmente morto), mas por uma direita mais radical. Esta direita, a que temos chamado de “nova”, abandonou (por mero cálculo, nuns casos, por convicção, noutros) as bandeiras do Portugal profundo: o aborto, a família, a religião, tradição e pátria. Se lhe tocamos nesta teclas, ela reage. Mas, por iniciativa própria, geralmente, fica calada.
Esta “nova” direita é mais culta e tem a enorme vantagem de se assumir: diz que é de direita e não perde tempo a pôr o hífen para fazer a ponte com o centro, esse não lugar da política. Esta direita gosta de discutir com a esquerda, a mais radical, aquela de que faço parte. Talvez porque reconheça nessa esquerda o mesmo que essa esquerda reconhece nela: clareza. E porque o debate que com ela pode fazer lhe é mais favorável, por ser ele mesmo, o debate, radical. Repare-se que não falo da extrema-esquerda e da extrema-direita, mais mortas que o bloco central. Falo de radicalidade.
Esta direita radical percebeu que, num momento em que muito das próximas décadas será decidido, a discussão sobre o pormenor e as circunstâncias já não chega, e é nas grandes escolhas fundadoras que todo o debate se faz. Percebeu ela e muito mais gente e, por isso, as posições radicalizam-se. Não sou dos que o lamenta. Há momentos na história que os debates são assim mesmo: de raíz. E os homens devem viver no seu tempo.
Acontece que na mesma proporção em que esta direita perde o combate da opinião pública, sobretudo graças à guerra do Iraque e à crise económica que a estratégia política desta direita está a provocar, ganha na opinião publicada. E ganha por três razões: porque os proprietários de meios de comunicação social lhes são mais favoráveis, enchendo as suas páginas de opinião e os seus espaços televisivos com a sua presença; porque a esquerda nem sempre consegue, com a mesma ligeireza, abandonar a sua arqueologia; porque a esquerda tem desprezado o combate pela hegemonia da opinião. Porque a direita parece ser mais gramsciana que a esquerda.
Para vencer este combate (e é de um combate que se trata e não de uma tertúlia amena para chegarmos a algum entendimento) é preciso que esta esquerda compreenda os mecanismos do próprio “mercado” da opinião. Que as manifestações com centenas de milhares de pessoas não chegam, que dois ou três lideres políticos carismáticos (teremos tantos?) não chegam, que o confronto de argumentos não chega. Que é preciso estar presente em todos os terrenos e em todos eles ser ofensivo. Ganhar o combate no terreno do vocabulário – cada palavra que se perde é uma ideia que se mata –, da imagem e da firmeza. Que ganhar o espaço onde “se faz opinião” é tão importante como ganhar a “rua”.
A blogosfera é, neste sentido, um bom exemplo. Um exemplo de que a esquerda não sofre apenas de um bloqueio no espaço de opinião da comunicação social. É verdade que sim, mas essa verdade não chega. Aqui, na blogosfera, onde essa bloqueio não faz qualquer sentido, a esquerda demorou a reagir e a perceber as suas virtudes. Porque aqui não há “massas”, não há “organização”, não há “colectivo”, não se faz “trabalho de base”. E a esquerda sente-se mal nestes espaços em que o individuo é quase tudo e o “programa” não dá lugar à “acção”. Faz mal.
Na minha opinião, a esquerda, a radical, que é aquela que tem hoje algum futuro, tem de pôr na sua agenda dois ou três trabalhos de casa: ajudar a construir líderes de opinião consistentes e bem preparados, apostar na apresentação de alternativas económicas, sem a qual o debate político é pobre, ajudar a construir um jornal de referência na sua área e procurar no mundo académico os seus gladiadores.
Dirão que me excedo na linguagem bélica e que, por este caminho, o debate só se pode tornar um debate de surdos. Ele já é, só que, no caso da esquerda, parece que estamos surdos-mudos.
Tomei a liberdade de fazer os comentários ao seu texto no meu blogue. http://observador.weblog.com.pt
Afixado por: André Abrantes Amaral em novembro 18, 2003 04:08 PMEstá bem construida a argumentação, não me parece é que isso possa ser conseguido.
Posso ser muito pessimista, mas esse combate parece-me já perdido (o que não é uma razão para desistir dele).
É assim mesmo.
Afixado por: hmbf em novembro 18, 2003 07:07 PMA direita tem facilidade em livrar-se da arquelogia porque só lhe interessa o esquema táctico. É essa a vantagem da esquerda, e a sua perdição: a esquerda, apesar de tudo, ama as ideias. A direita vive dos interesses.
Afixado por: Ruben em novembro 18, 2003 11:05 PMUma ideia só vale se conseguir ser posta em prática, de outra forma que é que adianta ?
Afixado por: Mário em novembro 19, 2003 11:37 AM"A esquerda não sofre apenas de um bloqueio no espaço de opinião da comunicação social"
Pois não...!!!
O problema da esquerda é mesmo o de não conseguir "abandonar a sua arqueologia" e de se sentir mal "nestes espaços em que o individuo é quase tudo” – ou seja, entender a evolução!
Até o vírus da gripe já percebeu isso!