novembro 19, 2003

Eu até tenho amigos de direita...

Como, aparentemente, quatro posts sobre o anti-americanismo não chegam para os mais duros de ouvido, aqui vai um quinto.

1) o anti-americanismo é, ou tende para ser, uma espécie de racismo. Há quem diga, evidentemente, que o anti-americanismo se dirige contra o poder do império e não contra o povo da nação. Simplesmente, não me parece que seja possível manter esse equilíbrio altamente instável por muito tempo. Como em todas as formas de racismo, grande parte dos estereótipos mais perniciosos têm precisamente origem nestas zonas de ambiguidade: no caso do anti-americanismo, veja-se a título de exemplo a forma leviana como os americanos são muitas vezes tratados sucessivamente de povo sem história, logo sem memória, logo ignorante, logo cretino. O problema está no começar. Sendo o racismo a mais estúpida das doenças estúpidas da humanidade, o anti-americanismo é inaceitável, desde logo, por esta questão de princípio.

2) do que foi dito atrás deve depreender-se que acho que o anti-americanismo existe realmente, e não que ele seja uma invenção. Evitar o assunto, como em qualquer racismo, não o faz desaparecer – tal como não o faz desaparecer o repetitivo sermão sobre a gratidão que devemos ter para com os americanos. Eu, por regra, desconfio das pessoas que iniciam uma conversa sobre preconceito com "eu até tenho muitos amigos [ciganos, pretos, chineses, homossexuais, etc.]" – e se os não tivessem, o que é que isso mudaria? Da mesma forma, o sentir-se ou não gratidão pela política internacional dos EUA, ou até o sentir-se por ela uma viva repulsa, não vem minimamente ao caso. Poderia perguntar-se: e quanto aos países pelos quais não há lugar a sentimentos de gratidão aqui na nossa tribo [o Butão, ou a Guatemala]? Aí já podemos ser racistas à vontade? E quanto aos estados de cujas políticas discordamos [a Rússia, a China, o Zimbabué]? O facto de discordarmos delas faz de nós anti-russo, anti-chinês, anti-zimbabueano?

3) o anti-americanismo é o buraco onde a direita gosta de ver a esquerda retratada. Não me custa nada dizer que existe uma esquerda mais básica que docilmente gosta de se deixar enfiar neste buraco. Não é por se tratar de gente de esquerda que deixarei de dizer que se trata de uma atitude imbecil.

4) hoje em dia a acusação de anti-americanismo é uma droga política que já criou uma certa auto-imunidade, de tal forma tem aumentado o seu uso e abuso pela direita mais preguiçosa e cábula. A aplicação tem sido tão negligente que já não dá moca: como bem lembrou o Pedro Oliveira, agora o que está a dar são as acusações, ainda mais protozoárias, de anti-semitismo. O oportunismo destas acusações, bem patente no esquecimento selectivo de que também há anti-americanismo de direita, e que praticamente só existe anti-semitismo à direita, deixa bem claro a debilidade da sua sustentação.

5) o racismo é provavelmente o pior pecado da humanidade. A desonestidade intelectual vem mais atrás – mas não andamos lá muito longe quando posts [1, 2] deste blogue cujo significado era cristalino são distorcidos como enfermando de condescendência pelos americanos, serem anti-americanos quando dizem que não são, ou serem "tendencialmente" anti-americanos. Pessoal: não percam tempo a identificar "tendências" capciosas ou hipócritas; o que nós menos temos é problemas em dizer o que pensamos. É caso para dizer: eu até tenho amigos de direita, mas eles ultimamente têm se esforçado pouco.

Publicado por ruitavares em | TrackBack
Comentários

Tudo bem até dizeres que só existe anti-semitismo à direita, quando cada vez mais é o contrario.

Afixado por: BP em novembro 20, 2003 07:45 PM

o que é que está lá escrito: praticamente só existe à direita.

Afixado por: rui tavares em novembro 25, 2003 01:07 AM
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