Não é original o que vou dizer, mas uma das bandeiras da esquerda podia ser o tempo. Talvez essa bandeira trouxesse para a esquerda pessoas que não se definem à partida como sendo de esquerda. A bandeira seria: reivindicar tempo. Querer mais tempo para consumir coisas que demoram tempo, como a arte, a literatura, os bons livros de história, de filosofia, sociologia, antropologia e outras coisas interessantes como a economia, a comida que demora tempo a fazer e a provar (a slow food é um movimento que já existe). Além do fundamental tempo para falar com calma na televisão que o Bourdieu, no seu modo talvez um bocado académico demais, bem pediu. Tudo isto são belas utopias se pensarmos na sua aplicação à sociedade toda.
Mas o problema de ter pouco tempo põe-se também na blogosfera, e aí a reivindicação é talvez menos utópica porque podemos reivindicar tempo a nós mesmos. Vem isto ainda a propósito da conversa entre o Daniel, o Pedro e eu próprio gerada pelo post "surdos-mudos", de dia 21 passado. Ao contrário do caminho que a resposta do Pedro tomou, o meu incómodo com o que o Daniel disse tinha menos a ver com uma arregimentação para o Bloco mas com o espectro de a urgência do combate nos levar a inevitáveis simplificações. Aplicado à blogosfera: o ritmo quase em directo de certas discussões, aproximando-as do registo da oralidade (uma conversa que vai decorrendo ao longo de um dia inteiro), constitui uma riqueza mas é também um constrangimento ao discurso. Talvez seja mesmo o principal constrangimento ao discurso (há outros, de conteúdo) aqui nos blogues. Este problema da falta de tempo nos blogues já foi identificado por metabloguistas ilustres. Os blogues, apesar de não terem aparentes constrangimentos físicos à publicação de textos longos, não "aguentam" textos longos, por razões certamente complexas (como a leitura em hiper-texto e a leitura em formato-écrã, associadas, claro, à eventual falta de interesse dos textos). Para contrariar isso, devemos pedir ao leitor que nos leia devagar, que imprima o que escrevemos - o que fica sempre mal à modéstia que se exige a quem escreve -, que continue a ler noutra janela. Mas nada disto funciona muito, porque é a própria escrita que tem um ritmo vertiginoso, casando-se bem com posts curtos, convidando também a uma leitura vertiginosa. Ora, a vertigem é inimiga da calma exigida à reflexão e ao aprofundamento de uma ideia, ao tempo necessário para assimilar ideias ou imagens complexas. Os textos longos, os livros, são uma forma de recuo em relação ao imediato, e esse recuo exige tempo. Daí também tanta necessidade regular de metabloguismo. Não falo apenas de textos argumentativos, falo também de poesia e literatura. Acho portanto que devemos, cada um à sua maneira - seja esse cada um de direita ou de esquerda -, contribuir para contrariar isto. Criando tempo, prolongando discussões no tempo, pedindo tempo aos outros, esse bem tão escasso e precioso. Aceitam-se sugestões concretas para melhor levar a cabo esta forma de luta.
Gostei desta reflexão. Há um post meu "antigo" (31.Out) que também tem a ver com isso: Pousio. Aliás, aconteceu logo no início da Turing Machine (segundo post), porque era uma questão que se punha a mim mesmo. Se não nos dermos esse tempo, valerá a pena?
Afixado por: Porfírio Silva em novembro 23, 2003 01:01 PMFui lá ler o post e o seu blogue. Ainda não tive aaa... tempo para ler certas coisas, mas vou imprimir e ler devagar.
Afixado por: André Belo em novembro 23, 2003 05:04 PMLançando mais uma acha para a fogueira do tempo, junto a minha voz à de Álvaro Campos no Blog.
Afixado por: Manuel Silva em novembro 23, 2003 05:59 PMessa da bandeira do "tempo" para a esquerda é patética; muita gente da direita, inclusive este animal que vos escreve, também quer reinvindicar o "tempo" como causa sua. o gosto pelo 'tempo com tempo' não pode ser a bandeira de ninguém (seria mutio feio; fascista, até)
O problema, a verdadeira bandeira, é o "como". Como proporcionar condições para que as pessoas tenham o "tempo" que para si sonharam?.... eu escolho o "como" capitalista, se não se importam!
Afixado por: maradona em novembro 23, 2003 08:04 PMMaradona,
Peço-lhe calma nos adjectivos. Não tive tempo para elaborar muito mais do que aquilo. Como terá reparado, acabei o post a dizer que a reivindicação não tinha de ser monopólio da esquerda. Do tempo para ler e escrever e aprofundar reflexões, cada um toma o que pode. E o tempo, claro, como tantas outras coisas, anda mal distribuído. Uma das bandeiras da esquerda foi e deve continuar a ser a redução das horas de trabalho (as 35 horas, em França, por exemplo). Portanto, para ser mais rigoroso teria dito isto: a partilha do tempo é que é uma reivindicação da esquerda.
Afixado por: André Belo em novembro 23, 2003 08:11 PM