novembro 24, 2003

Havia uma alternativa

No último Sábado, Pedro Magalhães publicou um artigo no Público sobre o balanço que já se pode fazer acerca da intervenção anglo-americana no Iraque. No estilo que normalmente o caracteriza (uma numa cravo, outra na ferradura), põe a nu as inconsistências do argumento a favor da guerra e termina com uma interpelação aos críticos da intervenção, exortando-os a apresentar uma agenda alternativa à combinação de «realismo» e «idealismo» que esteve por detrás da ofensiva militar anglo-americana.
Esta última observação suscita-me duas reflexões. Em primeiro lugar, não creio que o problema deva ser colocado nesses termos. Uma guerra não é uma coisa que se possa desencadear de ânimo leve – mesmo quando a tecnologia à disposição de quem as inicia seja capaz de evitar as carnificinas do passado. Sucede, porém, que o que terminou em Maio foi apenas a primeira fase da guerra. A segunda – um clássico conflito de contra-insurreição – está ao rubro e a opinião pública norte-americana começa a dar-se conta do verdadeiro custo destas expedições imperiais. Assim sendo, a irresponsabilidade com que os decisores norte-americanos planearam e executaram a guerra contra o Iraque demonstra que os seus críticos tinham razão - e o facto destes possuírem ou não uma «agenda alternativa» é absolutamente irrelevante. Não é à toa que se sacrificam as vidas de dezenas de milhar de inocentes. Em segundo lugar, não é verdade que os críticos da guerra estivessem de mãos a abanar no que toca a alternativas ao status quo no Iraque. Eminentes especialistas norte-americanos, como os insuspeitos John Mersheimer e Stephen Walt, sublinharam que a estratégia de «contenção» do Iraque seguida desde o fim da I Guerra do Golfo, complementada por um regime de inspecções mais robusto, poderia lograr o objectivo da actual administração: o desarmamento do regime de Saddam Hussein. Outros sugeriram que uma maneira de confrontar a França com as suas responsabilidades enquanto membro-permanente do CS seria, por exemplo, intimá-la a partilhar os custos da pressão militar sobre Bagdade – hipótese nunca explorada a sério pela diplomacia americana.
Dirão os defensores de Bush & Blair: isso é tudo muito bonito, mas no fim Saddam e a sua tirania lá sobreviveriam a mais esta crise. Será assim? Obrigado a aceitar a presença permanente de inspectores em solo iraquiano, cercado por um forte aparato militar, humilhado perante os seus rivais internos, Saddam veria a sua autoridade «carismática» fortemente abalada, inclusivamente perante a sua tradicional base de apoio (a minoria sunita). Nessa altura, os EUA poderiam então recuperar alguns dos instrumentos que tão bem os serviram durante a Guerra Fria: uma propaganda bem direccionada, o apoio a movimentos de oposição iraquianos, etc. Tudo isto foi insistentemente referido pelos críticos da intervenção.
Quanto à ausência de uma visão mais «livre» e menos «injusta» para a ordem internacional por parte dos opositores de Bush & Blair, é caso para dizer: por onde é que tem andado o Pedro Magalhães? Há anos que nos meios académicos, nas ONGs e nos gabinetes das organizações internacionais se discutem esquemas para reformar a ONU, as instituições de Bretton Woods, a OMC, etc. Já para não falar do TPI, cujo estatuto Bush fez questão de «des-assinar» em 2001, certamente porque se encontrava desejoso de ver os EUA ingressar na companhia da Arábia Saudita, Rússia e outros admiráveis Estados de direito.

Publicado por pedrooliveira em | TrackBack
Comentários

Escreve Pedro Magalhães (PM) "como foi possível...a defesa da actuação da Administração americana tenha podido parecer tão eficaz, tão empenhada e tão intelectualmente robusta nos meses que precederam a guerra" e "A defesa da invasão do Iraque baseou-se numa combinação nova e quase irresistível de realismo e idealismo, que deixou muitos dos seus opositores prostrados e sem alternativas credíveis". Mas, será que ele vive noutro planeta?! Nunca uma decisão de qualquer governo conseguiu mobilizar contra si uma parte tão substancial da opinião pública mundial, com percentagens contra a invasão do Iraque pelo menos acima de 70 por cento em todos os países excepto EUA e Israel, e PM acha que a argumentação da administração americana foi convincente e irresistível?! Há aqui algum lapso mental, talvez uma amnésia selectiva. Opositores prostados?? Bom, sim, talvez, alguns dos milhões que se manifestaram em todo mundo se tenham prostado no chão como forma de desobediência civil. Ele deve-nos estar a confundir com o seu grupo da bisca...

Afixado por: Pedro Viana em novembro 24, 2003 11:06 AM

O seu artigo tem uma particularidade, aliás muito distinta, de conseguir de forma muito ligeira e vaga, dar a entender que existiam, de facto, outras alternativas para resolver o problema que era (e ainda maior seria com o passar dos anos) Saddam Hussein e o seu regime.

Fala na possibilidade de se poder ter 'intimado' a França. Por favor, caracterize intimar. Caracterize o que entende por intimar a França em termos diplomáticos. Contudo, não se esqueça, primeiro, que a França não se limitava a ser contra a Guerra, tinha também negócios, bons negócios, com o Iraque.

Outra conclusão do seu artigo, que só poderemos classificar de engraçada é o considerar que Saddam "veria a sua autoridade carismática fortemente abalada".

Convém recordar que Saddam Hussein governava o Iraque com mão de ferro. Nunca o povo iraquiano teve qualquer benefício com o seu governo. Não era a pressão diplomática da França que o iria desacreditar.

Desconheço se ouviu a entrevista que Mário Vargas Llosa (um crítico da guerra) deu à televisão portuguesa à cerca de três semanas, onde afirmou (depois de lá ter estado - no verão passado - doze dias) que o regime de Saddam só poderá ser comparado com o de Hitler e de Estaline. O horror que ele encontrou era tanto que se convenceu ter valido a pena a libertação do Iraque.

A vaguidade e ligeireza do seu artigo têm uma razão de ser. O senhor é de esquerda, o que é, sem dúvida, nenhuma legítimo. Ora, acontece que, para pena nossa, e do debate democrático, a esquerda não tem ideias de há 30 anos a esta parte.

A esquerda não tem, actualmente, qualquer fundamento filosófico (nem vislumbra ter para os próximos anos, atento o que se lê) para sustentar aquilo em que, pretensamente, acredita.

Assim, limita-se a ser anti-americana. Digo anti - americana pois, quem está sempre a dizer mal dos EUA, muitas das vezes sem qualquer fundamento que se possa considerar racional, só pode mesmo ser anti - americano.

E o pior é que utilizam os mesmos argumentos de imperialismo de há 30, 40 anos atrás.

Debater com alguém de esquerda já não é um desafio, é uma enorme dor de cabeça.

Afixado por: André em novembro 24, 2003 12:40 PM

Tome uma aspirina, homem! Olhe que ainda lhe dá uma coisa...

Afixado por: rui tavares em novembro 25, 2003 02:46 AM
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