Caro Daniel,
A tua resposta ao meu último post parece-me um bocado desproporcionada. Abreviando: pões-me na posição daquele-intelectual-chato-das-reuniões-em-que-é-preciso-decidir-as-novas-iniciativas-e-só-quer-discutir e eu acho que o espírito do que eu escrevi não era bem esse. Era mais uma coisa sobre a capacidade de recuo, na qual ter tempo para gastar é fundamental. O que eu disse ou queria dizer é que, no nosso cantinho, podemos fazer qualquer coisa para tentar aprofundar as discussões e assim evitar a simplificação de outros. Longe de mim pôr em causa a urgência de tantos combates e a gravidade de uma série de coisas que acontecem quotidianamente. Nem sei bem, aliás, para onde me virar. Também, infelizmente, sobre as coisas mais graves que se passam neste momento não temos poder nenhum.
O meu erro, se calhar, foi ter posto as coisas em termos de esquerda-direita. Para a esquerda, a partilha do tempo pode aparecer ou ter aparecido como uma reivindicação. Hoje, dizes tu, as perdas em termos de conquistas e direitos são tão grandes que já estamos noutra, muito pior. Mas um governo de esquerda que, certamente com alguns erros, tinha posto em prática reduções de horário de trabalho, o governo francês do Jospin, caiu, e em boa parte por culpa da própria esquerda (e incluo aqui, sem hierarquia, os erros estratégicos do próprio Jospin, mas também comunistas e verdes, para além do horrível Chevénement que para mim nada tem que ver com a esquerda). E agora as 35 horas estão a ser calmamente desmanteladas. No entretanto, os ex-membros da "gauche plurielle" não tiraram nenhuma, mas nenhuma, lição do que aconteceu. E não foi por falta de tempo. Mas a mim palpita-me que estás errado numa coisa importante: a esquerda não está na merda por causa das suas discussões paralisantes. A esquerda está na merda por uma série de razões históricas complicadas e por isso é que se perde, ou perdeu, em discussões. A esquerda tradicional, que tinha uma coesão histórica, desapareceu, estilhaçou-se. Saiu de órbita. Agora, uma parte dela, com coisas novas muito boas, está mais pragmática e mais activa e, na blogosfera portuguesa, até já encontrou um óptimo gladiador: o Daniel Oliveira. Dito de outro modo: a urgência de certos combates tem um preço, que eu estou pronto a pagar na minha pequena parte (sobretudo, não sou nada bom gladiador). Dito isto, eu, que sou o esquerdalho inconsequente que tu conheces, não embarco em todas as causas identificadas com a esquerda sem pensar e só porque estamos cheios de pressa.
Publicado por andrebelo em | TrackBackA esquerda está na merda? Olha, não sei. Eu ando bem-dispostíssimo.
Afixado por: rui tavares em novembro 26, 2003 12:27 AM