novembro 25, 2003

Vinte e cinco do onze

Por mais de acordo que possa estar com o espírito do post do Celso sobre o 25 de Novembro, a minha adesão a esse espírito é só racional. Os idiotas da simplificação vão dizer logo: "pronto, lá está o Barnabé na sua vertente velha esquerda. No fundo, no fundo, a esquerda sempre foi nostálgica da rebaldaria do PREC, lá por dentro anima-os uma pulsão totalitária, nunca amaram verdadeiramente a liberdade". Errado. Para mim, o 25 de Novembro de 75 está num canto da memória onde ficou gravado profundamente e para sempre "mau", "coisa má", "GNR's a cavalo", "perigo para as crianças". Do mesmo modo que 25 de Abril significa "bom", "feliz, "maus fogem ou são presos". Era num tempo (os meus 4 anitos) em que o mundo era binário, ou um ou zero, ou mau ou bom, sem a menor hipótese de haver outra entrada qualquer no meio. Por mais que, até ao dia de hoje, a minha visão do acontecimento tenha mudado à conta de distanciamento lúcido, continua lá por trás o maniqueísmo original e irracional. Não sei se é assim para quem viveu a data já crescido. Mas o 25 de Abril é que foi a fábrica de mitos, utopias, heróis e hinos. O 25 de Novembro não podia produzir nada disto: fez o trabalho sujo e, visto dos nossos dias, ainda bem que o fez. Lembrei-me disto depois de ter feito hoje ouvir aos meus alunos franceses, que estão a balbuciar as primeiras palavras de português, o "Grândola Vila Morena". Não o fiz por revanchismo, ou então só inconscientemente: apenas quando, depois da aula, estava a pedir fotocópias da letra da canção para lhes distribuir na próxima aula é que me apercebi que hoje era dia 25 de Novembro.

Publicado por andrebelo em | TrackBack
Comentários

No 26 de Novembro de 75 o COPCON encerrou o jornal onde trabalhava (um grupo de trabalhadores fez sair uma edição no «estado de sítio» que havia sido decretado). Tudo se complicou daí em diante.
De "Grândola Vila Morena" tenho boas recordações. Orgulho-me de pertencer ao grupo dos amigos pessoais do Zeca.
Quando foi necessário ir a S. Francisco, no concelho de Santiago do Cacém, gravar as suas palavras para serem passadas nos altifalantes de umas comemorações do 25 de Abril, na Av. da Liberdade, só eu e a minha irmã mais nova tivemos autorização para ir a casa dele.
Porque existiu o 25 de Novembro, alguns destes amigos dizem: "No tempo do outro fascismo", quando se referem ao período antes do 25 de Abril.

Afixado por: Dizer Bem em novembro 26, 2003 12:45 AM

No 26 de Novembro de 75 o COPCON encerrou o jornal onde trabalhava (um grupo de trabalhadores fez sair uma edição no «estado de sítio» que havia sido decretado). Tudo se complicou daí em diante.
De "Grândola Vila Morena" tenho boas recordações. Orgulho-me de pertencer ao grupo dos amigos pessoais do Zeca.
Quando foi necessário ir a S. Francisco, no concelho de Santiago do Cacém, gravar as suas palavras para serem passadas nos altifalantes de umas comemorações do 25 de Abril, na Av. da Liberdade, só eu e a minha irmã mais nova tivemos autorização para ir a casa dele.
Porque existiu o 25 de Novembro, alguns destes amigos dizem: "No tempo do outro fascismo", quando se referem ao período antes do 25 de Abril.

Afixado por: Dizer Bem em novembro 26, 2003 12:53 AM

André, gostei do post e entendo a tua posição. já estive convencido que crescer era conseguir por a infância a uma distância prudente. hoje acho que é ter a consciência de que ela nunca nos abandona. mas se não tivesse havido algo como o 25 de Novembro e tudo tivesse acabado numa guerra civil sangrenta, essa fábrica de mitos que é a tua e é a minha, seria hoje uma recordação bem menos amigável.

Afixado por: celsomartins em novembro 26, 2003 01:12 AM

Tudo teria sido tão mais simples se em 1975 os fdp dos comunas não tivessem tentado tomar o poder.
Eles eram e sempre foram uma minoria. Não tinham qualquer adesão popular a norte do Tejo. E tentaram tomar o poder.
Se não tivesse havido o 11 de Março, se o comuna Vasco Gonçalves não tivesse sido posto no poder, não teria sido preciso 25 de Novembro.
Foi tudo uma história muito triste e perfeitamente evitável.
Eu vivia na avenida EUA em fente à casa do Vasco Gonçalves e via as manifs a pararem lá à fente e a cambada a gritar: "força força companheiro Vasco, nós seremos a muralha de aço". Se eles não tivessem falado em aço, o aço nunca teria sido necessário.

Afixado por: Luís Lavoura em novembro 26, 2003 09:32 AM

Desculpe, Luís Lavoura, mas acho que você ainda está a viver o PREC ao retardador. E olhe que já lá vão quase 30 anos.

Afixado por: André Belo em novembro 26, 2003 10:54 AM

O 25 de Novembro FOI MESMO no PREC. Para o compreendermos e o julgarmos, é preciso pormo-nos no tempo do PREC.
Como muito bem diz o André Belo na sua mensagem das 2:05 PM, não podemos julgar o 25 de Novembro com os nossos olhos de 30 anos depois. É preciso voltarmos ao tempo do PREC.

Afixado por: Luís Lavoura em novembro 26, 2003 02:28 PM

Só há aí um pequeno problema: ou você tem uma máquina do tempo ou então, tal como eu, está encurralado neste dia 26-11-2003. E neste dia você só tem a sua memória que é um instrumento de recordação um bocado falível. Se isto é verdade para as pessoas individualmente consideradas (a memória deforma muito mais o nosso passado do que normalmente estamos dispostos a admitir), então para os acontecimentos sociais complexos o melhor é nem falarmos. Eram precisos muitos Luíses Lavouras e muitos André Belos a lembrar-se e mesmo assim... Para compensar isso é que se inventaram os historiadores. Os quais, acrescente-se, também não viajam no tempo nem voltam ao PREC. Limitam-se a trabalhar sobre testemunhos do passado, mas com um arsenal crítico (espera-se) que lhes permite ganhar distância e recuo. Uma das maneiras de ganhar distância é combater o anacronismo, que é aquilo de que eu falo nesse post que você cita.

Afixado por: André Belo em novembro 26, 2003 03:37 PM
Comente esta entrada









Lembrar-me da sua informação pessoal?