O Barnabé saúda o aparecimento de mais um blogue. Numa opinião estritamente pessoal, a minha previsão é que dentro de muito pouco tempo a blogosfera ficará irreconhecível. A Causa Nossa anuncia, logo no seu manifesto, que rejeitará a “expressão fútil dos confessionalismos pessoais” e se concentrará na “discussão de opiniões e atitudes”, abdicando por completo dos “ataques pessoais”. Bem Hajam! Parece-me um programa altamente estimulante, mas só este último ponto é que me deixou um pouco desapontado. Não vamos ter ataques pessoais na Causa Nossa? Ora que pena. Com uma tão notável plêiade de polemistas, estou certo de que a admirável tradição portuguesa do insulto sairia muito enriquecida. Pensem, por exemplo, nos memoráveis ataques pessoais que pontuam as páginas da nossa literatura, jornalismo e oratória parlamentar. O ataque impiedoso do Antero ao António Feliciano Castilho, as injúrias de João Chagas a João Franco, os vitupérios lançados por Afonso Costa à Casa de Bragança, o demolidor Manifesto Anti-Dantas do Almada Negreiros, os perfis cáusticos do Vasco Pulido Valente. Em suma, o insulto, se bem elaborado, pode bem ser aquela pitada de sal que tanta falta faz ao debate público. Numa biografia de Karl Marx recentemente publicada, deparei-me com um dos melhores insultos que me lembro de ter lido. O visado, Lord John Russell (1792-1878), era o arquétipo do político tímido e hesitante, favorável às reformas mas sem o nervo para enfrentar os interesses instalados. Eis como Marx o descreve: “Nenhum outro homem provou a tal grau a verdade do axioma bíblico que ninguém consegue acrescentar um centímetro ao seu tamanho natural. Colocado por nascimento, relações e acidentes sociais num enorme pedestal, permaneceu sempre o mesmo homúnculo – um anão deformado e maligno no alto de uma pirâmide” (in Francis Wheen, Karl Marx. Biografia, Lisboa, Bertrand, 2003, pp. 164-165).
Publicado por pedrooliveira em | TrackBackGrande Pedro, desta vez concordo contigo em absoluto. Esse novo blog constitui um atentado ao espírito da blogosfera.
João
A rejeição à "expressão fútil dos confessionlismos pessoais" não é, na realidade, o primeiro insulto (talvez não o 1º - não li os textos desse blog)?
Afixado por: Inês em novembro 28, 2003 01:27 PM