dezembro 03, 2003

Auto-europa

Perante as quebras de produção, a Comissão de Trabalhadores da Auto-Europa aceitou o congelamento de ordenados por dois anos e, em contrapartida, as paragens de laboração (tempo em que os trabalhadores não vão trabalhar) não corresponderão a cortes salariais, os ganhos suplementares inesperados terão reflexos nos salários e em 2005 todos receberão 550 euros, para compensar as perdas. A escolha entre o salário e o não despedimento de nenhum colega foi feita, mas negociada com firmeza. E a proposta foi referendada pelos trabalhadores. Isto é inteligência, imaginação e democracia no sindicalismo. E, já agora, para, por uma vez, puxar a brasa à minha sardinha, a Comissão de Trabalhadores da Auto-Europa é presidida por um homem que conheço bem, com um sentido prático extraordinário e que está naquele espaço a que a direita gosta de chamar de “inconsequente e extremista”. As coisas tantas vezes são tão mais complicadas do que parecem.

Publicado por danieloliveira em | TrackBack
Comentários

Caro Daniel, gostei de te ver aqui proclamar a "morte" do sindicalismo político da CGTP. Há muito que a defesa dos interesses dos trabalhadores proclamava por uma mudança assim. Esperamos que frutifique.
Penso que com a morte do sindicalismo político da CGTP, também te regoziges com a inevitável saída de Carvalho da Silva para o PCP. Afastando o exagero da comparação é como Sadam abandonar Bagdad para ir para Tikrit.

Afixado por: Real em dezembro 3, 2003 06:05 PM

Sou um radical defensor do sindicalismo político. Mas sou defensor de um sindicalismo político que saiba vencer, não sou defensor da resistência resignada. Já deves ter entendido isso pelos meus posts.
Quanto ao Carvalho da Silva, é o melhor dirigente que a CGTP já teve e tem ajudado a CGTP a libertar-se da pesada mão do PCP. Mais uma vez, as coisas tantas vezes são tão mais complicadas do que parecem.

Afixado por: Daniel Oliveira em dezembro 3, 2003 06:09 PM

De facto não é comum uma atitude tão liberal vinda de um dirigente sindical.

Afixado por: Asulado em dezembro 3, 2003 06:19 PM

Nem mais, Daniel. (já agora: o Barnabé é o Carvalho da Silva da blogosfera! Parabéns plo trabalho e plo merecido sucesso. Um abraço deste amigo que vos lê todos os dias.)

Afixado por: eternuridade em dezembro 3, 2003 07:40 PM

Ainda agora vi no telejornal da RTP1 um director da Auto-Europa dizer que a solução da Auto-Europa devia ser seguida por "todo o Portugal" (sic). Continua assim caro Daniel que ainda vais para assessor do Durão Barroso. Ou, porque não, substituir esse perigoso radical pintasilguista que dá pelo nome de Bagão Félix? A partir de agora, desde que apadrinhada com o nome do Bloco de Esquerda, toda a política de direita passa a ser possível. Qual é a diferença com o PC ou com o PS ou com o PSD ou com o CDS ou com a ND? As siglas!

Afixado por: o proletário vermelho em dezembro 3, 2003 09:10 PM

Proletário, eu parto sempre do principio que estás a fazer uma personagem. Deve ser da minha natural esperança na humanidade. Quer então dizer que os trabalhadores da Auto-Europa, que votaram afavor desta solução, representam a política da direita?

Afixado por: Daniel Oliveira em dezembro 3, 2003 09:13 PM

Mas, nesse caso qual é a diferença entre a política da direita e a política da esquerda? Achas que os directores e os accionistas principais da Auto-europa não ficaram satisfeitos com a solução? E o Durão Barroso? Também não achas que ficou satisfeito? Afinal onde se situa a diferença entre a esquerda e a direita? No aborto?

Afixado por: o proletário vermelho em dezembro 3, 2003 09:22 PM

Não se situa na incapacidade de, quando é indispensável, negociar e, muitas vezes, chegar a bons acordos, como é o caso. E essa é que é a questão: o acordo permite reduzir o horário de trabalho, não se baixa o salário, mantém o número de trabalhadores e compensa-os mais tarde (com data marcada) sem haja despedimentos. Não é nada disto que defende a maioria dos empregadores e muito menos Bagão Félix e Furão Barroso. E isto só é possível porque os trabalhadores da Auto-Europa são combativos (tiveram uma das maiores adesões à greve geral), mas são inteligentes no seu combate. E acredita que, ao contrário do que pensas, são bastante radicalizados. Têm é uma direcção sindical que se recusa a leva-los para o buraco - estamos a falar dos operários portugueses mais bem pagos - só para provar que tem razão. ISto são direcções sindicais que conseguem vitórias - o que estava em cima da mesa era um despedimento colectivo. Eu sei de que lado estou: não é da mitica imagem do "proletário". É de quem trabalha. E quero que vivam o melhor possível, com o melhor que conquistem. Estes têm conquistado muito e é por aí que se deve medir a eficácia de uma direcção sindical. Os sindicatos da UGT, por exemplo, negoceiam a derrota. Muitos dos da CGTP, lutam para a derrota. Esta CT tem lutado e negociado, conforme a necessidade, a vitória. E tem provado que é possível escelentes resultados económicos com excelentes condições de trabalho. Porque, não te esqueças, eles prescindem de algumas coisas num contexto em que têm condições que mais nenhum operário tem em Portugal: direitos sociais, bons salários, formação profissional, auto-gestão de horários, etc. E tudo isto conquistaram com INTELIGÊNCIA e FIRMEZA. Uma, sem a outra, é a receita para a desgraça.

Afixado por: Daniel Oliveiral em dezembro 3, 2003 09:40 PM

Acho que realmente é um bom exemplo do sindicalismo inteligente. Um verdadeiro sindicato deve defender os verdadeirso interesses dos trabalhadores que normalmente não passam pelo afundamento da empresa nem pelo afundamneto de laguns trbalhadores em prol de outros. Este tipo de situação - actuação, já é vulgar noutros países como por exemplo na Alemanha.
Concordo que o Carvalho da Silva é um excelente sindicalista, se bem que não propriamente o nosso Lula, mas a CGTP está ainda "infestada" de dirigentes de espiríto aguerrido e actuação acéfala... ou enta~osou eu que tenho azar de trabalhar na empresa onde trabalho.

Afixado por: Pedro Farinha em dezembro 3, 2003 11:18 PM

Real,realmente meu caro sr. não existe sindicalismo digno desse nome em qualquer parte do Mundo que não seja politico.
Carvalho da Silva tem sido um hábil derigente sindical que tem sabido atenuar a pressão do PCP sobre a Central.Mas não se podem tirar os comunistas do sindicalismo,assim como os patrõs do CDS.
Quanto ao acordo da Auto-europa,tudo é relativo,o acordo conseguido não foi para obter ganhos ,mas sim para os não perder.
Os grandes ganhadores não foram os trabalhadores,eles só souberam e muito bem,não serem perdedores.

Afixado por: daniel tecelão em dezembro 4, 2003 12:08 AM

De qualquer modo trasparece aqui a ideia que a nogociação só foi feita por um lado, ou que só a inteligencia de um lado permitiu o acordo, ou que os "outros", se pudessem, não fariam nada disto. Não deixa de ser redutor...

Afixado por: Gasel em dezembro 4, 2003 09:23 AM

Quero defender aqui Daniel Oliveira.
Se duvidas houvesse sobre o meu primeiro comentário, o Proletário Vermelho logo a seguir acabou por as dissipar.
De facto, Daniel Oliveira fez o elogio funebre do sindicalismo político da CGTP ( e lá vem à memória a frase batida, oitenta anos para isto ?). A questão do Carvalho da Silva ser mais simpático, ter tirado até uma licenciatura em Sociologia e todos os up grades que lhe queiram conferim, não alteram substancialmente o modo de actuar da CGTP. No essencial os sindicatos sectoriais são dominados pelas células locais do PCP, na maior parte dos casos são até as mesmas pessoas. Conheço sectores de actividade industrial completamente destruídos pelos interesses partidários do PCP em determinados locais.

Afixado por: Real em dezembro 4, 2003 09:45 AM

O Carvalho da Silva é dos melhores nomes que a esquerda portuguesa agora tem para apresentar como candidato à presidência da república.

Afixado por: Luís Lavoura em dezembro 4, 2003 10:10 AM

Ó Luis Lavoura foi o Paulo Portas que te encomendou esse comentário ?

Afixado por: Real em dezembro 4, 2003 12:09 PM

Desculpa contrariar-te caro Daniel mas o que disseste aqui foi puro reformismo. Foi mesmo para além do reformismo: desde a ND até ao PC, passando pelo CDS, PSD e PS, todos poderiam ter dito o mesmo que tu. O que eles dizem é que é preciso fazer sacríficios, assegurar o que já se tem, produzir (de novo a célebre batalha da produção agora rebaptizada batalha da produtividade), produzir cada vez mais e melhor para se poder consumir mais, ter a economia a funcionar com inteligência e qualidade para sermos mais competitivos, etc. etc. Não há nenhum sinal de classe em todo este discurso.

Afixado por: o proletário vermelho em dezembro 4, 2003 12:15 PM

As provocações do Proletário Vermelho são deliciosas. Confrontam o Daniel Oliveira com a sua própria sombra. Cairá ele na tentação de a agarrar ?
Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não!

Afixado por: Real em dezembro 4, 2003 12:40 PM

Proletário, cometi o erro de julgar que falavas a sério. Mea culpa. Real, o sindicalismo político é aquele que não se limita a gerir a crise. Luis Lavoura, concordo contigo.

Afixado por: Daniel Oliveira em dezembro 4, 2003 03:51 PM

Obrigado a todos, esta thread deu para perceber onde está o futuro da Esquerda portuguesa. Daniel Oliveira apontou na sua direcção. Os outros, cada um à sua maneira -- incluindo o Proleta --, mais não fizeram do que confirmar que é por ali a saída para a actual encruzilhada. De uma maneira ou de outra :)

Afixado por: Paulo em dezembro 4, 2003 05:01 PM

O mais engraçado em todos estes comentários, è que os trabalhadores da Auto Europa pensaram, elaboraram, votaram e decidiram todo o acordo sozinhos. Ou seja, a malvada da administração da empresa foi derrotada em toda a linha. Não estivesse a Auto Europa em auto gestão e o mais provável seria despedimentos em massa, fecho das portas, roubo dos activos, etc, etc, etc.
Aliás, o acordo nem sequer lhes foi proposto pela empresa. A proposta era despedir 800 trabalhadores e "tándar"!

Afixado por: helder em dezembro 5, 2003 08:26 PM
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