dezembro 03, 2003

Só indignação

Soube-se hoje que, em Aveiro, 7 mulheres vão ser julgadas por terem abortado. Mais uma vez, várias mulheres vão passar por um ritual de humilhação pública, digna da Idade Média. Mais uma vez, vão ter de se explicar perante um juiz, para que este diga se as perdoa ou se as prende, como punição pelo seu acto. Mais uma vez as mulheres terão de se explicar perante esta sobrevivência da Inquisição. E isto indigna-me. E é isto que está em debate quando se debate a lei que temos. Chamem-me intolerante, mas, por alguma razão, não consigo fazer um debate sereno sobre esta matéria. Não consigo. Que me perdoem as mentes mais reflexivas. Nesta matéria, sou só indignação.

Publicado por danieloliveira em | TrackBack
Comentários

Eu já passei pela vergonha de um colega de trabalho Escocês me ter perguntado: então vocês lá em Portugal metem na prisão as mulheres que abortam? Isso é permitido na União Europeia?...

Este pergunta inocente fez-me sentir originário de um país do terceiro mundo...

Afixado por: Rui Silva em dezembro 3, 2003 07:07 PM

somos dois

Afixado por: hmbf em dezembro 3, 2003 07:23 PM

eh! nada de insultos à Idade Média! já a Inquisição...

Afixado por: rui tavares em dezembro 3, 2003 07:49 PM

... e vão três.

Afixado por: arminda em dezembro 3, 2003 08:20 PM

O direito à indignação é pertença de todos.

Mas olha que se o Paulinho das Feiras ou o Pedro Lomba lê isto, propõem já para amanhã a revisão da constituição!!!

Afixado por: Daniel Pires em dezembro 3, 2003 08:48 PM

Aborto é como adultério em Portugágál: é crime sem castigo, que nenhum juiz é parvo...
Mas e os crimes perdoados aos bêbedos ao volante?

Perdoar multas a alguns, não é corrupção; é uma N.E.P.
Perdoar multas por excesso de álcool a embaixadores, e por excesso de velocidade a deputados e a políticos, não é anormal.
Quem o diz, alto e bom som e sem pejo nenhum, é o advogado dos arguidos, às televisões.
É método. É o método seguido, há décadas, pelos mais altos comandos da GNR-BT.
Faz-se o auto naturalmente, mas este arquiva-se na Brigada de Trânsito, em vez de correr os trâmites legais, até que vai parar ao lixo, por prescrição.
Este procedimento tem um nome técnico: chama-se NEP - Norma de Execução Permanente e entrou em vigor há anos, exarada pelo Ministério da Administração Interna.

provavelmente perdoar abortos a embaixatrizes e deputadas também será uma NEPia...

Afixado por: João Tilly em dezembro 3, 2003 09:00 PM

Morte aos fetos. JÁ!!

Reparem que eu lhes chamei fetos para não melindrar os meus queridos abortistas.

Afixado por: Burno Pinto em dezembro 3, 2003 09:22 PM

Esta comparação com a Inquisação, não sei porquê, fez-me lembrar aquelas que os anti-abortistas radicais gostam de fazer entree a prática do aborto e o Holocausto. Os extremos, em tudo, são, simultaneamente, tão prevísiveis, tão parecidos e tão, tão, deprimentes!

Afixado por: Fernando Martins em dezembro 3, 2003 10:54 PM

A referência à Inquisição está longe de ser despropositada. Então, como agora, do que se tratava era de tomar a moral e os princípios de uma confissão religiosa como as regras de conduta impostas a todos os cidadãos.

Afixado por: Pedro Sales em dezembro 4, 2003 12:43 AM

Pois, e na Inquisição havia inquérito independente,instrução, princípio do contraditório, leis aprovadas democraticamente pelos representantes do povo, príncipio da legalidade, juízes sujeitos ao príncipio da independênia, instâncias de recurso, Ministério Público, defensor, direito de se constituir como assistente no processo, e um imenso "etc legal"
Sim, um "julgamento" da Inquisição era efectivamente similar.

Afixado por: Settembrini em dezembro 4, 2003 01:23 AM

De facto, inquisição!!!... Este daniel é um verdadeiro torquemada!

Afixado por: Gasel em dezembro 4, 2003 09:27 AM

Oh Daniel, desculpa mas tu não és só indignação. És muito, muito mais que isso...

Afixado por: Marco em dezembro 4, 2003 11:00 AM

1. A analogia é um recurso estilistico legitimo num discurso racional.
2. A analogia é usada há milenios.
3. A analogia faz-se, geralmente, com factos ou instituições que sejam do domínio do conhecimento público.
4. Este texto não era sobre a Inquisição ou a sua comparação com o sistema de justiça actual.
5. Podemos regressar ao essencial?

Afixado por: Daniel Oliveira em dezembro 4, 2003 01:01 PM

Como ser humano, eu, que sou mulher e já abortei, sinto-me humilhada pelo anunciado julgamento das mulheres de Aveiro (agora são as de Aveiro, já foram as de não-me-lembro-donde, amanhã, pelo andar desta carruagem, cada vez mais emperrada em fundamentalismos balofos, pseudo-religiosos mas nada espirituais nem humanos, outras mais se seguirão).
Se todas as mulheres portuguesas que, nos últimos trinta ou quarenta anos, fizeram abortos, tivessem coragem e disponibilidade para colar umas letras na T`shirt a dizer: Eu abortei, e juntassem as mãos e fizessem uma fila, ocupavam toda a fronteira portuguesa, orla marítima incluída. São poucas as que andam por aí a assumir que abortaram. Nem falam nisso, é quase sempre uma experiência a esquecer, daquelas que «mexe» com a gente, traumatizante e dolorosa (mesmo quando não temos práticas nem convicções religiosas). Mas a generalidade das mulheres evita andar por aí a dizer que já abortou porque, em Portugal, sec.XXI, não são só os juizes de toga a condená-las na barra do tribunal. Em cada esquina, em cada mesa de café, em cada porta de prédio, por todo o lado, essa gente com alma de inquisidor (a Inquisição continua viva dentro de muita gente), está sempre á espreita, pronta a condenar cada mulher que teve de abortar.
Não digo mais, estou a ficar tão indignada, tão indignada!... Indignemo-nos todos, meus senhores e senhoras, que se faz tarde.

Afixado por: Vanda Duarte em dezembro 4, 2003 03:44 PM

Sou homem, casado, pai de filhos, respeitador
da vida mas,,,,,,,, respeitador da LIBERDADE.

Veja o que escrevi no meu blogue sobre o aborto
por deficiência.

Cumprimentos blogados.

João Norte.

Afixado por: João Norte em dezembro 4, 2003 04:49 PM

A analogia com a Inquisição tem todo o sentido, bem explicitado no comentário de Vanda Duarte. O que é comparável, parece-me, é a vontade de coacção moral da cabeça (e do corpo) das pessoas. E a teia de cúmplices (médicos, familiares, gente espalhada por todo o tecido social) que é preciso ir buscar quando se condena uma mulher que abortou também me faz lembrar a inquisição.

Afixado por: André Belo em dezembro 4, 2003 06:03 PM

As indignações são as mais variadas mas esquecem-se de invocarem a razão principal que obsta à
liberalização do aborto, que é a comercial. Então
como seria a vida nas clinicas privadas onde se
pratica o aborto clandestino assistido por clinicos de renome. Não acham que esta prática transferida para os hospitais iria óbviamente estragar o negócio das clínicas?

Afixado por: congeminações em dezembro 4, 2003 09:55 PM

Hipócritas! Sob o piedoso pretexto de que ninguém deve ser punido penalmente pela prática do aborto - "despenalização" é a palavra que usam - o que verdadeiramente querem é que seja o Estado, com o dinheiro dos meus impostos, a fazer abortos nos hospitais públicos, "com todas as condições de segurança" (menos para a criança, é claro...).
Esses mesmos são os que não hesitarão em pedir histericamente a prisão para quem ouse destruir um simples ninho de garça no sapal do Tejo, ainda que nem ovos lá tenha dentro!
Para certos bem-pensantes, progressistas, ecológicos, civilizados, clinicamente testados, higienicamente puros, é muito mais valioso um ovo de um pássaro do que um ser humano concebido no ventre de uma mulher!...

Afixado por: Instrumentista em dezembro 7, 2003 07:13 PM
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