dezembro 03, 2003

A propósito

A propósito de anti-semitismo, o Contra a Corrente [Um indício, caro Rui Tavares | 28.11] interpela-me directamente a partir de uma notícia do Público sobre a pesquisa acerca do anti-semitismo na UE, patrocinado pela própria UE. Nesta discussão já antiga entre nós [ver aqui e aqui] o MacGuffin Contra a Corrente tem lutado pelo seu palpite de que a esquerda está anti-semita e falhado redondamente em fundamentar esse seu palpite com qualquer coisa que se veja. Daí a importância deste artigo como meio de prova.

Caro MacGuffin: não é preciso dizer-lhe que o artigo que cita está truncado, e que tudo o que diz sobre o relatório não aponta para anti-semitismo na esquerda, ao passo que tudo o que diz sobre a esquerda não é dito pelo relatório [mas sim por um comentador externo que aparece na segunda metade da citação que você faz do artigo, que não tem ligação à equipa que conduziu o estudo e que, como você, fala apenas por intuição]; não é preciso dizer-lhe que os autores do relatório nunca falaram de anti-semitismo na esquerda europeia; não é preciso dizer-lhe que não houve, que me lembre, nos últimos 30 anos, nenhum discurso anti-semita por parte de nenhum responsável político da esquerda europeia, ao passo que da direita, desde a CDU alemã à Forza Italia, já não pode infelizmente dizer-se o mesmo; não é preciso dizer-lhe que esta história da censura do relatório está mal contada [o Cruzes Canhoto já a contou em pormenor]; não é preciso dizer-lhe que a voz que no Parlamento Europeu foi mais audível na exigência de publicação dos resultados deste estudo foi a de Daniel Cohn-Bendit, o mesmo anarco-eco-esquerdista que os bloggers de direita abominam. Não preciso de lhe dizer tudo isto: dou-lho de barato, como abébia, porque estou bem disposto.

Limito-me a citar a notícia que saiu sobre o assunto no Forward, o mais respeitado dos jornais judeus nos EUA [sim, é liberal de centro-esquerda, espero que isso não seja um problema para si]:

An excerpt from the draft report obtained by the Financial Times stated: "it can be concluded that the antisemitic incidents in the monitoring period were committed above all by right-wing extremists and radical Islamists or young Muslims." Ou seja, palavras do relatório: "pode ser concluído que os incidentes anti-semitas no período em questão foram causados sobretudo por extremistas de direita e islamistas radicais ou jovens muçulmanos" [ênfases meus]. Onde está Wally, ou seja, onde está a esquerda? A não ser que você continue a comprar a lunática identificação entre o islamismo radical e a esquerda, que foi a primeira a combatê-lo, de Marrocos à Indonésia. Aliás, é engraçado que você cite em abono da sua posição um estudo que, tanto quanto sabemos, diz exactamente o contrário daquilo que você intui. Repare até naquele "sobretudo" que motivou a nossa primeira discussão: você diz que é "sobretudo" a esquerda que é anti-semita hoje em dia; o estudo que você traz à discussão diz que o são "above all" a extrema-direita e os islâmicos radicais. Nada disto chega a ser uma surpresa; surpresa é que V. não repare que o estudo o desmente.

Bem, a posta vai longa. Um abraço – e continue a mandar postais.

Publicado por ruitavares em | TrackBack
Comentários

Boa.
Montem um jornal, por favor. Tablóide ou não, mas montem um jornal.

Afixado por: GP em dezembro 4, 2003 12:13 AM

Gabo-te o sangue-frio, Rui. Parabéns.

Mas começa a parecer-me que essa malta só pára com o "anti-semitismo da esquerda" quando começarmos a tratar esse tipo de atoarda como aquilo que é: um insulto.

Afixado por: Jorge em dezembro 4, 2003 02:41 AM

Há que ver que, na sua aceção técnica moderna, importada dos Estados Unidos, "anti-semitismo" não é ter nada contra os judeus, mas sim criticar a política do Estado de Israel. Neste sentido, a esquerda europeia sim é largamente anti-semita, e a direita, não obstante volta-e-meia fazer discursos grosseiramente anti-judeus, não é anti-semita.
By the way, como Chomsky fez notar, se logo por azar o anti-semita (no sentido técnico) calha ser um judeu, então aplica-se-lhe o epíteto "self-hating Jew".
Trata-se do Newspeak americano moderno, à la George Orwell. A própria esquerda não é isenta de culpas, por exemplo quando aceita referir-se ao direito ao aborto como "a escolha".

Afixado por: Luís Lavoura em dezembro 4, 2003 09:58 AM

O McGuffin tem uma impressão, um feeling, um je ne sais quoi, um pressentimento, um passarinho amigo que lhe diz, um.. Enfim, há que respeitar. Pode até, eventualmente, ser uma questão de fé, e com a fé não se brinca.

Afixado por: antonio em dezembro 4, 2003 04:30 PM
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