dezembro 04, 2003

Leituras da cabeceira

"Já reparou", como diria Santana Lopes, no Barnabé Rebelo de Sousa? Ali na nossa mesinha de cabeceira do lado direito temos algumas novidades: um texto de Michael Bérubé sobre as novas guerras culturais na sala de aula das universidades americanas (via Chronicle of Higher Education); um dossiê especial do Guardian com reportagens sobre a situação dos prisioneiros de Guantánamo; uma entrevista de Amos Oz à Folha de São Paulo sobre as propostas alternativas de paz em Israel e na Palestina; e, finalmente, um excelente artigo de Henry Siegman sobre Ariel Sharon.

Este texto merece uma menção especial. Nele se defende que ainda mais grave do que a política criminosa de Sharon é a cega recusa, por parte dos sectores pró-Bush e pró-Sharon, em ver que Sharon não está de todo empenhado na paz. As palavras de Omri Sharon, filho do primeiro-ministro israelita, num encontro do Likud são elucidativas em relação a este erro trágico:

«Hoje em dia estamos instalados nas áreas palestinianas violamos acordos internacionais, e ninguém diz nada. Vamos dizendo: estado palestiniano, estado palestiniano, mas no entretanto já nem a área A [1ª área sob comando da Autoridade Palestiniana] existe. Nem existe já a Orient House, nem a representação palestiniana em Jerusalém, e os palestinianos têm medo de andar com armas até nas cidades deles. Claro que todos queremos a paz, quem não quererá a paz? Mas as declarações do meu pai acerca de um estado palestiniano são declarações muito remotas» [Ha'aretz, 13.12.2002]

PS: antes que me perguntem porque é que eu não aproveito para condenar a conivência de Arafat com o terrorismo, deixem-me poupar-vos o trabalho. Nunca acreditei em Arafat. Mas acreditando ou não, é evidente que não lhe é possível acabar com o terrorismo. Aliás: é precisamente por Arafat ser incapaz de acabar com o terrorismo (não sei se quer ou não, mas se quisesse também não poderia), que Sharon lhe exige que ele o faça. Sabe que a tarefa é impossível, e que isso lhe dá imenso tempo. Aquilo que nos cabe a nós, que não vivemos toldados pelo espectro quotidiano da violência, é apoiar os povos de ambos os lados para que eles possam dar passos corajosos. A desculpabilização constante de Sharon sob pretexto de que Israel é uma democracia e de que há ataques terroristas é que só ajuda à estupidez da violência miltante e da injustiça de estado.

Publicado por ruitavares em | TrackBack
Comentários

"Os palestinianos estão certos em olhar para trás, para a Alemanha fascista, e dizer que eles são os judeus dos judeus." - Ted Honderich.
A propósito deste assunto, recomendo vivamente a leitura de uma carta, de um judeu anti-sionista, ao Supremo Tribunal Federal do Brasil. Aqui.

Afixado por: Milfolhas em dezembro 4, 2003 12:24 AM

Gostei de ver o link sobre Guantanamo. Ainda há vozes a quebrar o silêncio.Que existam países em que o desrespeito pelos direitos humanos é geral e tem raíses históricas ou em que circunstâncias conjunturais de espirais de violência imediata levem ao desrespeito pelos direitos humanos, tudo isso é condenável. Mas é particularmente condenável, pelo que contém de intenção consciente e de atitude deliberada, o comportamento de um país que, em situações em que a violência não é imediata, que não se encontra debaixo de uma ameaça directa e imediata, que tem tradições de respeito generalizado dos direitos humanos, viola deliberadamente esses direitos humanos sobre determinados prisioneiros, mesmo que esses prisioneiros fossem os piores criminosos da humanidade. Não existe qualquer relação de proporcionalidade ou preventiva entre o que está a acontecer em Guantanamo e a luta contra o terrorismo hoje e agora. O que os EUA estão a fazer em Guantanamo é pura vingança medieval.

Afixado por: timshel em dezembro 4, 2003 12:22 PM

Pá é tão dificil acabar, pá, com a ocupação, como acabar com o terrorismo pá.

Afixado por: Bruno Pinto em dezembro 4, 2003 03:20 PM

Bravo Rui, subscrevo o texto. O facto de Israel ser uma democracia devia ser mais um título de responsabilidade.
Vi o «11 perspectivas» sobre o 11 de Setembro recentemente e os filmes do israelita e do egípcio deram-me muito que pensar. São ambos filmes de propaganda pura e dura. O filme israelita consegue bater o egípcio, pois limita-se a sublinhar que o inimigo de Israel é o mesmo que deitou abaixo as torres do World Trade Center. Quanto a Chahine, diz esta coisa espantosa: que na óptica do terrorista as vítimas do World Trade Center não eram completamente inocentes, pois os EUA são uma democracia e, portanto, a política do Governo de apoio a Israel é sustentada pelos eleitores norte-americanos. Como se entre as vítimas do World Trade Center não pudessem estar defensores de uma política externa alternativa dos EUA.
A única forma de defender a democracia israelita é ampliar as vozes israelitas críticas do Governo de Sharon e apoiar activamente todas as iniciativas para um entendimento israelo-palestiniano.

Afixado por: João Miguel Almeida em dezembro 6, 2003 06:49 PM

haha. esse é o mesmo Omri Sharon do qual Arafat diz que é "como se fosse meu filho" ?

Afixado por: lucklucky em dezembro 7, 2003 11:41 PM
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