dezembro 14, 2003

Uma na mecha sobre a captura de Saddam

Estou a fazer uma tese em que um dos capítulos diz o seguinte: há trezentos anos atrás as pessoas liam as notícias das guerras internacionais como se pertencessem às facções em conflito. Os católicos contra os protestantes, os portugueses contra os espanhóis, os defensores da casa imperial dos Habsburgos contra os franceses, etc. Quem escrevia e quem lia notícias funcionava segundo esta grelha totalmente intolerante em que cada vitória militar, ao ser noticiada, transformava-se numa porrada dada ao campo adversário. A leitura de notícias prolongava simbolicamente a guerra.
Se a história se repetisse, diria que o espaço público que conheço hoje se começa a parecer perigosamente com o meu objecto de estudo, as notícias no tempo de D. João V. Uma época em que, à escala da informação impressa, só existia um jornal, evidentemente censurado, e detendo o monopólio da informação. Em que, pelos nossos padrões políticos e intelectuais, a liberdade e o distanciamento crítico e racional que vieram a caracterizar o jornalismo contemporâneo não existiam. Mas como a história não se repete e ninguém vivo conheceu por dentro a época que eu estudo para poder saber como é que era realmente, fico por aqui nas comparações. Ainda assim, e como já imagino o que vem aí, pela minha parte digo, para atalhar polémicas inúteis: fico contente com o facto de Saddam ser preso. Penso que, em si, é uma coisa boa. Fico também contente por ter sido apanhado vivo. Espero que tenha um julgamento justo, como qualquer outra pessoa. As críticas que temos feito aqui no Barnabé ao que se passou e continua a passar no Iraque não se alteram uma vírgula por causa desta captura.
E agora regresso à actualidade das notícias do antigamente.

Publicado por andrebelo em | TrackBack
Comentários

A história do homem é mais do que conhecida e todos conhecemos a sua personalidade beligerante - só comparável à da família Bush. Por esse e outros motivos igualmente me congratulo pela sua captura.
Mas, por outro lado, a sua captura tende a ser somente uma trunfo na mão do eleitorado ocidental (numa época tão necessária para eles).
Por esse motivo, temo que esta captura leve a algo pior: a reeleição de Bronco Bush.
Para os países árabes já houve o milagre de transformarem um monstro odiado no único líder com coragem para enfrentar os EUA. Terá corrido tudo assim tão bem?
Se quiserem rir um pouco com este tema, vejam o blog:
www.al-qaeda-pt.blogspot.com
Que tem o curioso nome de: Al-Qaeda portugal.
Vale mesmo a pena rir um pouco com o blog!

Afixado por: NSL em dezembro 14, 2003 03:24 PM

Saddam foi preso. Um ditador a menos à solta. Os iraquianos festejam e com eles devem festejar todos os democratas do mundo. E é o que faz a esquerda. Mas não esquece que a administração Bush quebrou a lei internacional e o consenso encontrado entre as democracias de que a guerra não é a continuação da política por outros meios.Nem os fins justificam os meios. Como não esquece que tem de combater os "cavaleiros da democracia", teóricos neo-conservadores que com a arrogância de quem se considera iluminado procuram criar uma lei internacional em que impere a "lei do mais forte" à boa maneira do far-west. A democracia não se constrói com bombas nem com visões do mundo do "bem e do mal". A esquerda convive, portanto, muito bem com a prisão de Saddam como com a prisão de qualquer ditador.E congratula-se.Apesar de a direita ir inundar a imprensa com artigos com a suposta azia ou raiva contida. Mas estão redondamente enganados. A esquerda tirou lições da queda do estalinismo. A direita confunde essa queda com o fim da esquerda.

Afixado por: pg em dezembro 14, 2003 04:01 PM

A notícia que hoje domina os media tem sido comentada por personalidades de todos os quadrantes políticos com regozijo. De facto, parece que com a captura de Saddam Hussein, todos aqueles que se dizem contra esta guerra ao terrorismo se transformaram por um dia em verdadeiros defensores da liberdade e da democracia. Hoje, todos os Louçãs e Carvalhas deste país têm vindo para a comunicação social afirmar que estão com o povo iraquiano, neste momento de alívio e alegria pelo ex-ditador ter sido capturado.
Não seria melhor, em nome da coerência, terem ficarem calados em relação a um acontecimento que só foi possível concretizar porque mais de trinta países se uniram em torno da guerra ao terrorismo. Nem nesta altura ganham vergonha...

Afixado por: Peixoto em dezembro 14, 2003 05:04 PM

Da mesma forma que por vezes escrevo aqui algumas atoardas, também é justo que aplauda este post do André Belo.
É pena o comentário do pg não ser ele mesmo um post num blog, pois a sua opinião merecia maior destaque. Apenas um reparo: infelizmente o seu ponto de vista não é extensível a toda a esquerda, tal como pretende fazer crer.

Afixado por: Asulado em dezembro 14, 2003 05:13 PM

É sim caro Asulado. Porque de esquerda e de esquerda marxista só é quem rejeita os totalitarismos e o pensamento único. Os "guardiões da ideologia" é que conseguiram durante muitos anos impedir essa constatação. Encontramo-nos é perante o totalitarismo da direita. Mascarado de levar a democracia aos quatro cantos do globo. E como se vê pelo post do peixoto se a esquerda se congratula com a prisão do saddam é hipócrita. Se não dissesse nada defendia uma das piores ditaduras. Tudo muito simples e muito claro sem margem para dúvidas: presa por ter cão, presa por não ter.

Afixado por: pg em dezembro 14, 2003 05:34 PM

Estas polémicas esquerda/direita fazem-me muita comichão. Sou pela democracia e por formas democráticas de atingi-la. É isto assim tão estranho? Participei em manifestações pela paz e não gosto de lá ver t-shirts com o Che Guevara, que de democrático não tinha nada (porque não t-shirts do Ghandi?). É isto assim tão estranho? Ai que não se calhar não sou de esquerda nem de direita e não tenho assim lugar neste mundo!

Afixado por: Jorge Moniz em dezembro 14, 2003 06:00 PM

Ó peixoto quem é que são vocês (direita pró-bush)para falar em coerência! Nunca ouviste nenhum indivíduo de esquerda a elogiar o Sadam ou ouviste? O vosso problema é que infelizmente têm de viver em democracia! E isso é muito chato porque os outras pessoas podem questionar o que os políticos fazem e podem criticá-lo. Vocês até se esforçam para acabar com a democracia, quando discordamos de alguma coisa que fazem é logo:
- Seu anti-americano! Seu apoiante de terroristas! Seu grandessíssimo comunista! etc....
Eu acho vergonhoso a forma como os EUA invadiram o Iraque e mentiram ao mundo e, muito embora esteja contente com a prisão e julgamento de um ditador, não posso deixar de realçar que, até agora, foi a única coisa de jeito que os EUA. Parece-me a mim que só isso não chega para justificar a guerra!

Afixado por: _achtung_ em dezembro 14, 2003 06:06 PM

Sadam já cá canta. E os outros ditadores? Por exemplo, Pinochet, tão perto dos States, vai para a cova sem ser julgado pelo não alegado :) desaparecimento de milhares de cidadãos chilenos. Andem-me a caçar!

Afixado por: Olima em dezembro 14, 2003 06:12 PM

Já agora, por curiosidade, suponho que você apoiou incondicionalmente a captura e tentativa de julgamento (sim porque aquilo não foi bem julgamento) do filho da puta (perdoem a expressão) do Pinochet, bem como a queda parcial do seu regime (sim porque o regime é exactamente o mesmo só que já não se mata a torto e a direito). Poisssss, ele também era um ditador... onde é que estavam os EUA quando foi preciso pô-lo... quero dizer tirá-lo de lá.
Isto foi só um exemplo, também podia ter pegado em qualquer outro país do oriente com o qual os EUA mantêm relações comerciais, que se não me engano, à excepção de israel, vivem todos sob regimes dictatoriais!

Afixado por: _achtung_ em dezembro 14, 2003 06:14 PM

Olima, atão mas tu não vês que tens de ser coerente se não o Peixoto chateia-se!
Achavas bem que, depois de tanto trabalhinho que a CIA teve e de tanto dinheiro que o uncle Sam gastou para meter o Pinochet no poder e acabar com o regime democraticamente eleito do Salvador Allende, os States fossem agora prender o Pinochet.
Vá lá, sejamos coerentes!

Afixado por: _achtung_ em dezembro 14, 2003 06:24 PM

Achei cómico ver as bandeiras vermelhas a comemorar a prisão do Hussein. Primeiro pensei: o vermelho deve ser a cor festiva deles. Depois reparei no canto superior esquerdo e... estavam lá a foice e o martelo. Imaginei o que terá pensado o Bush quando viu aquilo: Holy S***!!!! Afinal estamos a dar uma ajuda aos comunas!!!! Libertem o gajo!!!

George W. Bush deve ser o primeiro presidente da história dos EUA a conseguir, pelos seus actos, erguer bandeiras vermelhas, de foice-e-martelo, repito, em sinal de...comemoração :)

Ao mesmo tempo, na imagem que a SIC escolheu para ilustrar a notícia, o preso parecia o Marx. Não?

Afixado por: Nuno em dezembro 14, 2003 07:33 PM

Caro pg
Não me vai dizer também que o regime soviético foi um desvio direitista da ideologia de Marx?
Concordei com a sua análise, apenas discordei com o facto de a ter colado a toda a esquerda como sua pertença. Há legitimidade em vários quadrantes políticos de se congratularem com a prisão de Saddam, mas quer à esquerda quer à direita há inimigos da democracia, por muito que isso lhe custe a aceitar.

Afixado por: Asulado em dezembro 14, 2003 08:00 PM

foda-se!
mas ninguém leu este post?
"A leitura de notícias prolongava simbolicamente a guerra."
"diria que o espaço público que conheço hoje se começa a parecer perigosamente com o meu objecto de estudo"
Os comentários aqui deixados estão-me a fazer lembrar uma merda de um debate sobre o aborto a que assiti na altura do referendo e em que apenas ouvia "a esquerda é irresponsável nesta matéria", a "direita é dogmática" e ninguém falava nem das mulheres nem do aborto e - acredito - todos se estavam a cagar!
Quanto ao Iraque, cada vez me convenço mais que ninguém quer saber o que acontece aos iraquianos: apenas vêm na situação do país um manancial de armas argumentais para arremessar aos que, politicamente, estão do outro lado.
Tenham vergonha.

Afixado por: troblogdita em dezembro 14, 2003 09:43 PM

Caro Asulado, procurei tão só dizer que a esquerda totalitária é a sua própria negação. Os resultados são conhecidos. Quanto à tese de que o marxismo é por natureza totalitário e dele só podia sair um regime como o soviético discordo em absoluto. Mas isso levar-nos-ia muito longe e não cabe nesta troca de ideias.

Afixado por: pg em dezembro 14, 2003 09:51 PM
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