dezembro 14, 2003

Heil Bush

A captura de Saddam Hussein constitui um êxito retumbante para as forças da coligação e, em particular, para o actual presidente norte-americano. Hoje George Bush marcou vários pontos nas frentes interna e externa. Na frente doméstica coloca Howard Dean, o principal candidato à nomeação pelos Democratas, numa posição embaraçosa, pois esvazia muito do apelo que a sua crítica à intervenção no Iraque e ao mau planeamento da ocupação pós-bélica estava a conhecer. Pela primeira vez desde as imagens da queda de Bagdade, Bush surge como um líder vitorioso e contra isso há poucos trunfos que se lhe possam comparar numa disputa eleitoral. Ainda não é possível saber ao certo qual o papel efectivamente desempenhado por Saddam na liderança do maquis iraquiano (diz-se que o bilião de dólares levantado pouco antes da guerra do banco nacional iraquiano foi decisivo para financiar as acções da guerrilha), mas parece evidente que um Saddam «a monte» inibia muitos iraquianos de cooperar mais abertamente com as forças de ocupação. Se a guerrilha afrouxar, tudo se conjuga para que os americanos possam operar uma retracção do dispositivo militar, convencer mais alguns países a enviar forças para o Iraque, e assim aligeirar os custos humanos e materiais da ocupação. Ora, para partir confiante para a campanha eleitoral, Bush precisa de duas coisas: estancar o pingue-pingue das baixas e impedir que o Iraque se constitua num sorvedouro de fundos federais. A partir de hoje, está mais perto de o conseguir.
Em termos externos, a captura de Saddam concretiza aquele que foi, sem sombra de dúvida, o principal objectivo político da guerra: a eliminação de um regime que há mais de uma década desafiava a Pax Americana no Golfo Pérsico. Para além do ajuste de contas familiar (e que nem me parece ter sido especialmente importante), a Administração Bush pretendeu acima de tudo lançar um aviso. E o aviso era este: qualquer regime que ouse desafiar os termos da hegemonia americana será esmagado sem dó nem piedade. O Blitz de Março-Abril foi uma impressionante exibição de poderio militar, mas o simbolismo das imagens hoje divulgadas não será menos eficaz na perspectiva da intimidação de potenciais rivais.
E, por fim, as imagens de júbilo da população. Essas imagens terão um impacto equivalente ao das imagens da queda de Cabul em 2001 e serão muito úteis para pacificar algumas consciências liberais, tanto na América como na Europa. Por tudo isto, Bush e os seus acólitos vão hoje mais satisfeitos para a cama (e, para mais, num dia em que a UE se afunda num grave impasse institucional).
Mas será que os opositores da guerra têm motivos para se sentir embaraçados? Nem por um momento. Entre os opositores da guerra contam-se, por exemplo, várias ONGs dedicadas à defesa dos Direitos Humanos, como a Amnistia Internacional, que há anos denunciavam as atrocidades de Saddam, mesmo quando ele era o «nosso filho da puta». Em segundo lugar, o pretexto oficialmente apresentado para a guerra – as Armas de Destruição Maciça – ainda não encontrou qualquer espécie de justificação. Finalmente, as pessoas que se opuseram à guerra têm tanta ou mais legitimidade do que os paladinos da intervenção para desejar uma genuína democratização do Iraque; a questão é que nada nos garante que esse objectivo venha a ser mais facilmente alcançado com esta modalidade de «mudança de regime». Mas sobre isto teremos mais oportunidades para conversar.

Publicado por pedrooliveira em | TrackBack
Comentários

As eleições americanas que se aproximam podem levar à tentação de cavalgar sobre este triunfo. E é muito perigoso um cenário em que a Administração Bush dê azo a que alguem possa dizer que Sadam não teve um julgamento justo, ou não foi tratado com a devida humanidade, ou qualquer coisa do género. É de algo assim que o terrorismo gostaria para tornar Sadam um mártir - ainda bem que foi capturado e não morto, senão...

Afixado por: velutha em dezembro 14, 2003 09:25 PM


Não sei até q ponto é q não seria aconselhável identificar a "do nosso filho da puta", a memória é curta e o Somoza já anda lá perdido pelo longinquo século XX...

Afixado por: Shyznogud em dezembro 14, 2003 09:33 PM

Ora aqui está um comentário feito da perspectiva anti-guerra sensato e com o qual não me custa concordar.
Saudações de um velho lobo do mar
NMP

Afixado por: NMP em dezembro 14, 2003 09:35 PM

Acho piada às tentativas que os anti-Bush fazem para descredibilizar a captura de Saddam. Até parece que estão com pena do ex-ditador. Coitadinho...

Afixado por: Peixoto em dezembro 14, 2003 10:25 PM

Com toda a honestidade, você faz uma das melhores análises ácerca deste assunto, com a qual concordo quase em absoluto. No fundo o objectivo de todos é o mesmo. Só discordamos nos meios, e aí caro Pedro, você está e-r-r-a-d-o.

Afixado por: helder morais em dezembro 14, 2003 10:50 PM

peixoto :
fazes-me lembrar um Tokarev no Expresso online !

Afixado por: zippiz em dezembro 14, 2003 10:54 PM

É claro que os opositores da guerra não têm motivo para se sentir embaraçados. Não os metam é no mesmo saco daqueles que criticam Bush e omitem Saddam, esses sim são os grandes derrotados de hoje. Se se diz que Bush alcançou uma vitória pessoal hoje, deve-se à radicalização de discurso que esse grupo protagonizou.

Afixado por: Asulado em dezembro 14, 2003 10:59 PM

Apesar das juras em contrário, e nas quais eu acredito, a captura do Saddam pertubou os Barnabés. Enfrentam uma crise, um dilema. A partir de agora, todos os seus posts sobre o Iraque serão substancialmente diferentes. Isso não significa que sejam melhores ou mais sensatos.

Afixado por: Fernando Martins em dezembro 14, 2003 11:20 PM

Fernando Martins sabe o que lemos, sabe o que sentimos,
sabe até o que vamos escrever. E nós aqui a perder tempo e a tentar ter ideias.

Afixado por: Daniel Oliveira em dezembro 14, 2003 11:25 PM

Só faltava mesmo eu ter que responder pelo Chirac. Respondo pela direirta, pela esquerda. Assim é dificil, rapaz

Afixado por: Daniel Oliveira em dezembro 15, 2003 02:23 AM

Caro Pedro e caro Fernando Martins

Não estou assim tão seguro que tudo vá mudar no Iraque daqui para a frente. Ou nas eleições norte-americanas que estão muito ligadas a esta questão. Não há dúvida de que este é um teste importante à natureza da guerrilha. Mas do ponto de vista daqueles que esperavam por um regresso triunfante ao poder do Baas não faz sentido pensar que já teriam desanimado com a morte dos filhos de Saddam que tinham organizado os irregulares e representavam o futuro do regime?

Afixado por: Bruno Cardoso Reis em dezembro 15, 2003 02:30 AM

Uma lateralidade: A meu ver Howard Dean não seria (já inútil o será, a press conference de reacção à detenção de Saddam tresandou a luto) engulho à reeleição de Bush – uma agenda apelativa para a inteligentzia de esquerda está, nos dias que correm, longe de o ser também para a maioria dos americanos. Os acontecimentos de ontem e consequências previsíveis – que não são mais do que isso mesmo, previsíveis – se esvaziam Dean (e em certa medida Clarck), insuflam um novo fôlego em Lieberman e particularmente em Kerry, provavelmente o opositor mais complicado que Bush poderá ter. Ironicamente Bush poderá partir muito confiante para a campanha eleitoral (como o George Herbert partiu) , tendo pelas mesmas razões que lhe a conferem, um oponente muito mais duro de vencer. Com a prisão de Saddam, e sob um prisma Democratic, perdem os Mondales, ganham os Clintons. De resto, bom post. Mas o Saddam nunca foi Somoza – verdadeira mitomania da leftist propaganda essa, e a guerra era precisa: a pax é americana, mas sempre é pax e é a que temos.

Afixado por: cordobes em dezembro 15, 2003 03:41 AM

é isto que a má esquerda tem de melhor (e a má direita tb!):custa reconhecer um ditador!

vá lá, oh Daniel, é hora de festejo!

Afixado por: jp em dezembro 15, 2003 03:16 PM

O Pedro tenta e consegue fazer uma análise equilibrada. Porém, do ponto de vista dos efeitos que a captura de Saddam poderá ter para a evolução tanto da situação no Iraque, como para uma presumível reeleição de G. W. Bush, penso, como o Bruno Cardoso Reis, que ainda falta muito para tirar conclusões. O que passará no Iraque é uma autêntica incógnita. Por lá, quase tudo se tem passado em maior ou menor desacordo com as previsões. Agora, uma coisa é certa. Ou bem que a economia norte-americana recupera - o que ainda é duvidoso - e os custos humanos e financeiros da presença norte-americana no Iraque baixam muito - sobretudo os primeiros -, ou então a reeleição de Bush continuará a ser muito difícil. É verdade, também, que a captura de Bin Laden ou uma vitória com uma expressão estratégica sobre a Al Qaida, a que se juntasse, o que é pouco provável, um novo e efectivo fôlego no processo de paz israelo-palestiniano - recorde-se que à derrota parcial de Saddam em '91 sucedeu a coroação do plano de paz do então secretário de estado Baker - poderia beneficiar Bush e liquidar os democratas. De qualquer modo, o problema destes só se resolverá - evitando ou uma derrota retumbante ou uma vitória nas presidenciais - se encontrarem um discurso credível em matéria política externa, algo que, em 1992, Clinton podia dispensar, não apenas por causa da crise económica, mas porque o sentimento de (in)segurança dos norte-americanos é hoje totalmente diferente daquele que era há uma dúzia de anos e, por isso, exigem que os democratas lhes digam sobre a matéria algo que seja efectivamente credível.

Afixado por: Fernando Martins em dezembro 15, 2003 10:37 PM

comentário 1
Já que estamos numa de links, copiem este. Dos cartoons da Al-Jazeera.
http://english.aljazeera.net/NR/exeres/0EE30E43-B137-417C-9FA4-E629E849E7DC.htm?idpage=2

comentário 2
Dean e os outros acabam por ficar para trás, porque serão condenados por tomarem uma posição que tem a ver mais com realidades de política eleitoral do que de princípios. E todos os outros seguirão o mesmo caminho, mesmo que as últimas sondagens sejam óbvias (ver http://www.nytimes.com/2003/12/17/politics/17POLL.html)
abraços

Afixado por: filinto em dezembro 17, 2003 11:42 PM

"uma genuína democratização do Iraque" deveria pressupôr um controlo efectivo sobre a economia (leia-se a exploração do petróleo) e não é crivel que os beefs queiram abrir mão desse controlo,,
logo, falar de democracia é despropositado,, talvez mais de mercadocracia

Afixado por: xatoo em dezembro 19, 2003 07:55 PM

O Soddom afinal já está preso e com julgamento marcado. No Iraque que ele construiu não costuma é haver muito respeito pelos direitos humanos. Que pena! Não acham?

Afixado por: David Paz em julho 22, 2004 09:33 PM
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