dezembro 16, 2003

Como, quando e de que maneira?

A prisão de Saddam Hussein tem sido festejada como uma grande vitória pelas várias direitas portuguesas. Veremos nos próximos tempos se esta captura significa realmente um piparote na história do Iraque rumo à democracia. Por mim acho que talvez ajudasse um pouco melhorar efectivamente as condições de vida dos iraquianos. Mas talvez isto seja só uma patusquice de ingénuos. De qualquer forma compreende-se a alegria da direita de colt - quando as coisas não estão fáceis qualquer troféu é importante. Mas a prisão do ditador não traz só o regozijo geral (de que uns pensam ter o monopólio); põe novos problemas: onde julgá-lo?, quem chamar para julgá-lo? e sob que quadro jurídico? Se Saddam for julgado por iraquianos só pode ser julgado por dois tipos de Iraquianos: ou os juízes do seu regime ou os constituidos pela oposição. São ambas soluções muito pouco fiáveis caso se queira realmente fazer justiça. Por outro lado, se se quer julgar Saddam por todos os seus crimes é preciso ter em conta que uma boa parte deles são crimes contra a humanidade cometidos contra iranianos e koweitianos. Isto leva-nos a pensar que a melhor solução seria um tribunal internacional, solução que tinha a vantagem de não nos fazer ver a Grã-bretanha a aceitar um julgamento com pena de morte (contra os princípios dessas duas grandes ilusões que são hoje a ONU e a UE). Esta solução seria óbvia caso o ocupante não tivesse um problema genérico com o direito internacional (ONU, TPI) para já não falar nasimples existência de algumas regras de convivência internacional (protocolo de Quioto). Assim, o mais certo é vermos os cowboys a fazerem a justiça dos vencedores por entrepostos índios. Eu, que não acredito que a principal razão da invasão fosse um zelo democrático, duvido muito que a justiça venha a ser uma preocupação. Terão os crentes nesta jornada pela democracia e pelo estado de direito esta exigência?

Publicado por celsomartins em | TrackBack
Comentários

É preciso ir aí o Rui Tavares meter ordem na casa e distribuir ampolas de lítio, está visto.

Uma coisa excelente para combater a impulsividade é jogar Xadrez, recomendo. Deixem a escrita psicadélica para as gentes da arte, as gentes da cultura, como eu. A vida é um caminho. Não tomem atalhos etc. etc.

Faltou falar numa questão interessante:
Saddam cometeu crimes de guerra nos anos 80, com o apoio político, financeiro e militar dos USA, entre outros países ocidentais.
As vítimas, como o Irão, vão preparar um caso contra esses países.
Num tribunal fora do controle americano Saddam pode começar a dar com a língua nos dentes e embaraçar bastante os meus amigos americanos.

Ora muito devia espantar os barnabitúricos que os EUA tenham resolvido capturar Saddam vivo. Não percebo muito bem a utilidade dele vivo, e o meu colega Henry Kissinger deve estar com uma apoplexia, onde estão os velhos tempos de uma força delta ou de uma CIA fria e decidida?

Agora têm um grande berbicacho em mãos.
A mim só me prova que os americanos não sabem MESMO o que estão lá a fazer.

Afixado por: O Bom Selvagem em dezembro 16, 2003 07:47 PM

O que me começa a preocupar é que todas as pessoas que ouço falar com desconfiança das intenções americanas de salvar o mundo dos perigos que o ameaçam não têm no seu discurso [pudera!] frases balsâmicas tipo "ah, mas pelo menos existe a ONU" ou "estes americanos não iriram tão longe assim". No livro do Gore Vidal "Império" aprendi que no primeiro mandato de Roosevelt não havia embaraço no uso da palavra império nos debates do congresso americano. E os pró-imperialistas tinham a sinceridade de sustentar que, dada a queda de influência dos ingleses no mundo, era o momento de os americanos reclamarem o seu lugar de timoneiros da humanidade. Nada mais sincero e claro.
Hoje, digerir o discurso que os acessores da Casa Branca preparam para os nossos ouvidinhos de cordeiros é tirar um curso intensivo e forçado de contenção da náusea.
Mas pior é levar com a impreparada retórica dos nossos lus(tr)os(os) governantes a procurar sustentar teses alheias em que vemos (que rei tão nú e tão flácido!) desacreditarem profundamente. Pelo menos, que refrescante, sou insultado por o meu pé esquerdo me leva a não assinar atestados de acefalia. Sou insultado (anti qualquer coisa, sempre) e aí sim, recupero algum fôlego: fica claro que não acredito na vossa política, não engulo o sofismo dandy e cowboyesco com dizem querer congregar as boas vontades na luta contra o papão. Mesmo havendo papões tão feios como o Bin Laden e este que agoram prenderam. Quando for julgado já irá de cara lavada, o monstro. Quanto à bela (agora divorciada depois de calorosa fornicação há uns anos), a bela América (leia-se os que agora se sentam no poder) aí vai formosa e segura - pela bestialidade disforme da pouca vergonha dos que eu não elegi no meu país e que agoram o governam.

Afixado por: troblogdita em dezembro 17, 2003 01:58 AM
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