Os incidentes desagradáveis têm sempre um lado bom: permitem-nos reafirmar certos limites éticos, felizmente praticamente consensuais, da participação nos blogues. Permitem-nos também ir um bocadinho mais longe na reflexão sobre as janelas dos comentários na sua relação com os posts de um blogue.
Movido por um certo lado intelectual que, confesso, existe em mim, alimentei desde o início do Barnabé uma certa desconfiança em relação aos comentários, e especificamente os anónimos. Os outros Barnabés, que nunca manifestaram essa desconfiança, sabem-no. Aliás, um dos meus primeiros e mais ingénuos posts foi de repúdio aos comentários anónimos. Ingénuo porque, por um lado, nenhum comentador, mesmo anónimo, tinha revelado desonestidade até àquele momento, e, por outro, porque exibi em público a minha ignorância sobre a facilidade com que uma pessoa pode esconder na web a sua verdadeira identidade. Isto conduziu-me a levar, em directo, um bem merecido bailarico (ver os comentários ao referido post). Continuo, no entanto, a achar que tinha razão na altura: não gosto de comentadores anónimos, independentemente do conteúdo dos comentários. É o anonimato que permite a existência de insultos e a conspurcação da janela de comentários. Se eu mandasse (e felizmente que não mando) os fóruns de discussão na Internet tinham apenas janelas de comentários cujo software obrigasse, de alguma maneira, a que o email do comentador fosse real. Imagino que tecnicamente isto deva ser possível.
Mas o lado intelectual desta minha desconfiança em relação aos comentários tem a ver com uma ideia kantiana de espaço público: num ensaio em que responde à questão: "O que são as Luzes?", o filósofo alemão Immanuel Kant definiu um espaço ideal de debate intelectual, que seria feito por leitores e escritores de textos impressos. Gente que ousaria emancipar-se dos seus preconceitos pessoais pelo uso público da razão permitido pelo debate através de textos impressos (isto é, públicos), em que cada um dos escritores se tornaria leitor dos textos dos outros. Uma posição de igualdade pura em termos de intelectuais. A minha desconfiança em relação aos comentários vem de acreditar nisto. Eles colocam-se em relação aos posts numa posição que não é exactamente de igualdade. Sendo públicos, são feitos numa janela, que não é imediatamente lida por quem acede ao blogue. São textos mais escondidos. Onde, por definição, quem escreve, pensa que é lido por um pouco menos de gente (às vezes engana-se, o que gera situações embaraçosas). E é essa expectativa, que imagina os comentários como um espaço mais "privado", ou menos público, que convida também a que ele se torne numa espécie de meio de escape. Onde a menor visibilidade (e o menor espaço, e o menor tamanho de letra) convida ainda a textos mais curtos do que os posts, escritos ainda mais rapidamente do que estes. Dependendo, ainda por cima, do post para existir, o comentário torna-se uma espécie de glosa do post. Presta-se ao aplauso, ao assentimento, mas também à discordância radical, à provocação de certo modo irresponsável de quem critica o texto alheio sem ter nunca um texto próprio para ser criticado. Não se presta ao debate entre iguais. Ao dizer isto, note-se, estou a fazer um exercício de interpretação racional, sem tomar nenhum partido sobre o conteúdo específico do que escrevem os comentadores. De facto, este fenómeno, se a minha interpretação tiver algum fundo de verdade, aplica-se a todos os comentadores, inclusive os autores de posts quando se colocam na posição de comentadores. Ou seja: também a mim. O que critico nos comentários tem apenas a ver com isto: a posição em que se escreve.
A minha mudança de atitude em relação aos comentários, a partir da experiência do Barnabé, veio do facto de perceber com o tempo que eles se tornam mais interessantes quando os leitores começam a interpelar os escritores de posts e estes entram em diálogo com eles. Ou quando os comentadores se estão nas tintas para o conteúdo do post e começam a dialogar entre si. É claro que o meu lado narcisista também ajudou: o blogger gosta que falem do que ele escreveu e alimenta essa conversa motivada pelo que ele escreveu. E como no Barnabé somos um bocado narcisos, damos imensa trela a comentadores que querem trela. Quaisquer que sejam as razões, no entanto, o resultado permite uma evolução positiva: coloca leitores e escritores de posts em posição de igualdade.
Esse diálogo nos comentários permite também criar maior proximidade entre os leitores e quem escreve. Ele tem, com efeito, uma função eminentemente afectiva. Realiza concretamente uma das grandes fantasias de todo o acto de leitura: a participação no texto da obra (se quiseremos chamar obra a um Barnabé) de que se gosta. Por fim, e não é de somenos, os comentários permitem a concretização, pelo seu melhor lado (que é o do exemplo em vez do do sermão), da superioridade moral da maioria dos blogues de esquerda em relação à maioria dos blogues de direita. Enquanto alguns aguerridos comentadores de direita têm no Barnabé um espaço para dar azo às suas discordâncias e embirrações, não nos oferecem, nos seus próprios blogues, a reciprocidade. Sublinho que não penso que o facto de não se oferecer comentários ao leitor num blogue seja criticável. E sobretudo que isso nada tem a ver com qualquer espécie de vontade de restrição da liberdade de expressão. O meio permite hoje a cada um, democraticamente, criar um blogue e dizer o que quer dizer publicamente. Falar de censura, neste contexto, é completamente desajustado. O que é criticável é passar a vida na posição – no fim de contas bastante confortável – de quem critica publicamente os posts de outrem nos comentários e não oferece, em contrapartida, o seu blogue à exposição dessa mesma crítica.
Os efeitos nocivos do formato-comentário, no entanto, mesmo que todos tivéssemos janelas de comentários nos blogues, continuariam a existir: o anonimato permite excessos; a janela, sendo uma janela para um espaço menos público do que o blogue, convida também a um certo tom desbragado. Os bloggers, no seu afã narcisista, perdem um tempo imenso a responder aos comentários. E tendem a tomar a parte pelo todo, os autores de comentários por todos os leitores do Barnabé. O que é uma grande miopia.
Por todas estas razões, vivam os comentários. Por todas estas razões, também, o ideal de Kant continua actual. Porque o seu ideal transposto para a blogosfera é: passar do comentário ao post. Cada pessoa que lê e comenta blogues ter também o seu próprio blogue onde escreve, é lido e comentado. Por isso é que considero exemplar que o José Mário Silva tenha convidado o (antes apenas comentador, se não me engano) Tchernignobyl para escrever no novo Blogue de Esquerda. E que este tenha aceite, é claro.
Muito interessante. E agora "Do post ao comentário: sigamos o maradona!" ou o bom selvagem; primeiro distintos bloggers, mas aqui ilustres comentadores.
Afixado por: Inês em dezembro 19, 2003 03:26 PMExactamente.
Afixado por: André Belo em dezembro 19, 2003 03:32 PMDesculpem lá que eu sei que não tem nada a ver mas porque carga d'água os pulhas não deixam comentar os posts? Será algum trauma???
Afixado por: Viúva Alegre em dezembro 19, 2003 04:34 PMHmmm porque será que os 'pulhas' não deixam comentar os posts... hmmm...
Afixado por: O Bom Selvagem em dezembro 19, 2003 04:49 PMA reflexão que o teu post lança fez-me olhar para o registo que a minha memória fez dos comentários que tenho plantado em alguns blogues.
E é realmente um patamar diferente aquele em que está o comentador. E há a tentação (dada não só pelo anonimato de alguns, mas pela imobilidade do post - um alvo apetecível) de fazer desta janela uma varanda de onde se disparam bejardas escusadas e imerecidas.
Isto é algo que me andava a pedir (apercebo-me graças a este post) uma revisão da minha atitude enquanto comentador. Já tinha até aflorado esta preocupação entre a desigualdade (que é apenas ponto de partida) entre blogger e comentador num comentário aqui no Barnabé. Procurei e procurei mas não consigo encontrar o post que o originou... se ainda o encontrar, deixo-o numa citação noutro comentário, mas penso que até lá vai-me passar a vaidade de o mostrar...
Obrigada trobglodita, procura e depois manda vir.
Afixado por: Viúva Alegre em dezembro 19, 2003 05:08 PMÀ força de tanto frequentar o Terceiro Anel, gosto desta forma de expressão. Espera-se, também, a indulgência dos comentados. Se toda a gente fizesse blogs depois quem é que os lia ? Eu acho que há gente a mais a escrever e gente a menos a ler. Também é desculpa de mau pagador, pois eu teria todo o gosto em ter um blogue desde que cumprisse as seguintes condições:
- A ambição de substituir M Rebelo de Sousa na TVI como tem o Daniel Oliveira;
- Escrever tão bem como os Relativos, os barnabéis e outros (poucos) blogues que leio;
- Ter a cultura do FNV
- A metalinguagem do Tchernignobil
- O humor dos casadoiros
- E a tesão do PIPI
Assim sendo, continua a ler que é para ver se aprendes
Obrigado Viúva Negra, pela ironia lúcida.
Encontrei e aqui deixo uma parte para poder passar da vaidade ao acto de contricção (afinal não tem exactamente a ver com o que eu me lembrava) e novamente à vaidade:
"a sua [do Barnabé] escrita quase sempre é perigosamente actual. E comprometida - consigo própria. E de pessoas assim dá gozo discordar. Porque nos apresentam fundamentos sólidos de determinado pensamento: alvos apetitosos e fáceis de focar para onde apontamos o nosso modo de ver as coisas. Que dessa forma fica, ele próprio, mais definido, mais claro."
O post que o originou é o "Um intelectual em acção" de dia 17 de Dezembro.
Mais à frente acaba assim:
"É que muitos dos críticos mais monolíticos e minimal-repetitivistas deste blogue devem ser tão ácidos (e ensoços, diga-se) precisamente por que concordam intimamente com o que é dito.
Ás vezes a reacção à comichão é coçar, outras vezes é negar as suas causas.
Mas que o Barnabé deixa mossa, lá isso...".
sorry. chamei-te Viúva Negra. foi engano, não malícia.
Afixado por: troblogdita em dezembro 19, 2003 05:50 PMSolow's model of economic growth, often known as the neo-classical growth model, allows the determinants of economic growth to be separated out into increases in inputs (labour and capital) and technical progress. Using his model, Solow calculated that about four fifths of the growth in US output per worker was attributable to technical progress.
Afixado por: Wassily Lontief em dezembro 19, 2003 05:59 PMEstou a aprender muito a ler o Barnabé. Obrigada pelo link ao EServer.
Comentários, comentários... só no meu blog; mas acho que vou permanecer anónima, porque embora diga o que pense e de certa forma me revele naquilo que escrevo, não é por aí que me vão conhecer de facto.
Ai eu fiquei cheio de curiosidade de conhecer a GS! Vocês não ficaram? Que atire a primeira pedra quem n"#$#$% fo!"##$" aii#$"#$
Afixado por: O Bom Selvagem em dezembro 19, 2003 07:37 PMQuando tenho os meus dias negros sou imprópria para consumo. Volta trblogdita, estás perdoado ;)
Afixado por: Viúva Alegre em dezembro 22, 2003 09:52 AM