
Esclareço desde já que ainda não li o novo livro de José Saramago. Comprei-o hoje e nada tenho a dizer sobre ele. Apenas li várias declarações suas e fui hoje ao lançamento do “Ensaio sobre a Lucidez”. Falaram quatro pessoas: Saramago, Marcelo Rebelo de Sousa, Mário Soares e Barata Moura.
Primeiro o público: a média de idades das mais de 1.500 pessoas presentes deveria rondar os 60 anos. Era a velha esquerda que ali estava. Não, não estou a falar de nenhuma área política ou partidária. De esquerda, estava gente de todos os quadrantes. É mesmo de uma geração que falo. A geração que fez o 25 de Abril e o 25 de Novembro. Ela estava toda ali, em caras conhecidas e anónimas. E os aplausos disseram quase tudo do sentimento que dominava a sala: contra «os políticos», contra «esta democracia», contra «o sistema». Nenhuma esperança. Só amargura e desespero.
Saramago lá deu uma facada indecente no seu partido, ao dizer que fazia parte das suas listas «apenas por uma questão de fidelidade». Uma fidelidade que confessa em público a sua traição era bem dispensável, mas adiante. O apelo já claro e sem rodeios que Saramago fez ao voto em branco, a um protesto legítimo mas que nada constrói, é que marcou toda conversa. E caiu bem, mesmo que ninguém tivesse muito ar de o querer seguir. Era mais uma catarse colectiva. O que Saramago propunha era que os cidadãos «uivassem», que gritassem «estamos fartos», usando as suas próprias palavras. Ou seja, que confessassem a sua derrota a ver se «eles» (os políticos) ouviam. Eles, indistintamente. Os outros, sem nome nem culpa.
Este populismo que tomou Saramago é só a rendição final de uma geração de esquerda. E esta esquerda nega-se a si própria a obrigação de construir a alternativa. Quer ser passiva e desalentada. Estava ali uma geração que já não tem nada a perder. Estava ali uma esquerda rancorosa e cansada, de todos os partidos. E verdade seja dita, Saramago representa-a como poucos.
Já nem discuto o apelo ao voto em branco. Marcelo Rebelo de Sousa, no lançamento, mostrou bem o paradoxo: a esquerda estava ali a pedir à esquerda que desistisse e desse a vitória à direita. Quando tem de ser a direita a dizer isto, estamos mal.
O meu problema é outro: o que Saramago nos propunha ali era um protesto individual, indiferenciado, travestido de cidadania. Pedia-nos a "nós", essa entidade difusa, sem causas nem passados, que protestássemos contra "eles", essa gente sem rosto nem programa.
E o meu problema é ainda mais outro: Saramago zurziu na democracia e assim deu novas vestes à retórica contra a “democracia burguesa”. A conversa é tão velha como inútil. Mas não perdeu um segundo a falar no dia seguinte. «E depois?», perguntou, muito bem, Mário Soares, que estava em forma. Perante o discurso sem destino de Saramago, foi Soares, que ali parecia representar, ele sim, a lucidez, que disse a evidência das evidências: «só há uma alternativa à democracia: mais democracia!»
Mas o público não queria esperança. Queria um lamento. E teve-o. Estava ali uma esquerda em branco.
Publicado por danieloliveira emOuví o "debate" na TSF ... excelente análise.
O intestino grosso do Saramago está ligado ao cérebro do Soares: quando o Soares fala, só diz merda; quando o Saramago caga, só caga sentenças.
Os dois no mesmo auditório, juntos, formam uma autêntica orgia intestinal. Nem Ali o "Químico", saudoso primo de Saddam Hussein, seria capaz de melhor.
AP
Afixado por: AP em março 30, 2004 02:52 AMperante tudo isto, resta a pergunta: onde estão os terroristas chechenos quando são precisos?!? eu sei que não era um teatro, mas...
Afixado por: Froide em março 30, 2004 02:58 AMjá o senhor AP, oh la la, é um pensador refinadíssimo
Afixado por: rui tavares em março 30, 2004 02:59 AMNum debate «sério» parece-me de facto sem qualquer destino essa conversa. Mas como ideia, como ficção, é perfeitamente válida e ruidosa.
Afixado por: Martelo em março 30, 2004 03:34 AMTambém o BE não tem melhor alternativa, mas veja-se o que aconteceu à maior parte dos militantes da extrema-esquerda de 1974/75, revolucionários aos 20, moderados aos 30, conservadores e reaccionários aos 40. Concordo em toda a linha com o que disse Saramago e eu próprio já o tinha pensado. O regime chamado "democrático" é uma ficção, é uma história para embalar meninos, o verdadeiro poder (económico) não é atribuído "democraticamente", quem o consegue das duas uma ou é filho de famílias ricas ou então tem de ter um espírito mafioso e manipulador para conseguir trepar ao topo da pirâmide. A oligarquia económica naturalmente que nunca fará tal coisa como abdicar do poder que tem a não ser que de alguma forma (não necesariamente violenta) seja forçada a abdicar dele.
Quando eu voto nas eleições legislativas ou europeias estarei de facto a votar no quê ou em quem e para quê. Não acho que haja uma resposta definitiva para o problema mas é necessário seguir sempre lutando pelos ideais em que se acredita e que não têm de se esgotar necessariamente num partido. Porque terá de ser desse modo? De repente fez-se luz e apareceram os partidos? Nos Estados Unidos cerca de 60% a 70% da população simplesmente não aparece para votar, imagine-se que todos eles apareciam e votavam em branco, já imaginaram o presidente do país mais poderoso do mundo a ter que esconder que foi eleito, sim, mas com, praticamente, dois terços da população a votar em branco porque não se reconhece nos partidos representados no sistema.
Só mais uma coisa, podemos estar para aqui a congeminar um governo mais social para Portugal ou um conjunto de governos mais sociais para o conjunto da Europa, decisivo é o facto de no Sudeste asiático haver população a trabalhar em condições e com rendimentos miseráveis. Os trabalhadores europeus fazem greve exigindo maiores rendimentos e melhores condições de trabalho. OK, fecho a fábrica e mudo-me para um país como a Malásia ou Taiwan e rio-me deles. A África, não conta, está a morrer à fome, vítima das políticas alimentadas pelo Ocidente promovendo sátrapas locais. O limite do poder da oligarquia económica é até onde podem esticar a corda sem que a situação lhes venha a rebentar nas mãos. É fundamental que o poder económico mundial seja realmente popular, como se consegue isso? Não sei. Mas não nos iludamos com o actual sistema vigente que eu designaria mais como partidocracia do que como democracia. É necessário que haja uma maioria da população a ter consciência política e a levantar-se por valores realmente éticos, tem que se ultrapassar a fase do "eu e os meus estamos bem, o resto que se dane". Tenho dito.
Vota tudo em branco, mostramos que estamos todos muito zangados, e construímos o quê? Umas das coisas que me faz gostar de coisas como o Fórum Social Mundial é que, para além do protesto, debate aletrnativas e quer acrescentar democracia à democracia. Pode demorar ou não servir para nada, mas tem a honestidade de tentar. Votam todos em branco porque estão todos muito chateados com os partidos. E pergunto-te agora eu: ok, e depois? Que raio de caminho!
Afixado por: Daniel Oliveira em março 30, 2004 03:53 AMDaniel, não vais ao fundo da questão, não detruíste um só dos argumentos lançados por Saramago. De que é que serve votar num sistema à partida viciado? É como participar numa corrida de carros em que metade dos concorrentes têm potência de motor, condições de assistência superiores às nossas. Chegas ao poder e depois? As verdadeiras alavancas não estão no poder político. É preciso atingir a hidra onde lhe dói mais, no Sudeste asiático e no sistema económico norte-americano, sem isso, nada feito.
Afixado por: __espiritolivre__ em março 30, 2004 04:15 AMAs economias são globais e o poder não está aqui? Participe-se na luta global e lute-se por uma democracia nas instituições internacionais, pela construção de redes de movimentos e de partidos políticos, por um sindicalismo multinacional, como as empresas, pela regulação dos mercados, e por aí em diante? O exemplo do Fórum Social Mundial é bem mais interessante do que todas as coisas que Saramago disse hoje. Porque ajuda a escolhas. Mais democracia, é essa a alternativa. Há sempre aliados, em qualquer lado do Mundo. Uma birra é que não me parece a solução.
Afixado por: Daniel Oliveira em março 30, 2004 04:41 AM90% de acordo com o conteúdo do post.
Realmente é pena Saramago não perder um minuto a falar do day after. Para mim teria de se avançar na progressiva devolução do poder dos partidos para o povo, para o cidadão.
Realmente a alternativa à democracia è mais democracia.
Afixado por: diogenes em março 30, 2004 07:41 AMSei que torcem o nariz aos pedidos mas... talvez por causa da virgindade e do fumo irlandês vos tenha passado ao lado mais essa manifestação da grandez da nossa sociedade civil... 60% das empresas em Portugal não pagam IRC!!!
É uma pouca vergonha!!!
Trabalhei 8 anos por conta de outrém fazendo os respectivos descontos para o IRS. Trabalho há 10 anos por conta própria, sempre com contabilidade organizada. Declaro religiosamente tudo o que facturo... e no final de cada ano é sempre a mesma coisa, quando verifico o que tenho a pagar comparo com o que pagava por conta de outrém e acho sempre que pago muito menos.
NO ano passado tanta confusão nos media por causa do pagamento especial por conta... não o paguei no ano passado, nem o vou pagar este ano... dado que pago impostos, dado que a minha empresa dá lucro. O pagamento especial por conta é na realidade um imposto minimo, para quem de outra forma nunca pagaria!!!
Afixado por: diogenes em março 30, 2004 08:00 AMViva,
penso que o Saramago teve uma excelente ideia, não chega a ser uma ideia é mais uma realidade levada ao extremo, para um romance, para questionar, os que não o fazem, o sistema. Y punto.
A extrapolação que daí se pode fazer (não li ainda o livro, só as entrevistas) parecem-me um absoluto contrasenso com aquele seguidismo, quase lhe chamaria revolucionário, do partido. Um exemplo disso, citei-o no meu weblogue, foi que José Saramago disse na entrevista à RTP que votaria "se pudesse passar por cá", "se tivesse tempo" ou algo assim, e no dia seguinte à entrevista, surge como integrante da lista do PC ao Parlamento Europeu (!?).
Quanto à questão geracional é triste reparar que seja assim também aí na capital, onde pensava eu inocentemente, que a esquerda se moveria noutros caminhos, habituados a serem muitos e terem governo, mas afinal não.
Daniel, sem gostar de fados e destinos, acho que o mal se calhar é mesmo do ressentimento do país e talvez, daqui a uns trinta anos, estaremos nós numa conferência qualquer a mal-dizer o presente.
Espero que não.
Parabens ao diogenes por ter uma empresa que dá lucro e, ainda mais, por ser uma pequena empresa.
É que, se fôssemos a ver em detalhe, chegaríamos provavelmente a conclusão de que é no universo das pequenas empresas, sobretudo das empresas individuais, que se encontram as maiores e mais sistemáticas falcatruas. O diogenes deve ser quase caso único.
São as pequenas empresas que escondem todos os lucros na conta bancária pessoal do patrão, e põem todas as faturas no nome da empresa. As grandes empresas não podem fazer isto, as pequenas fazem-no sistematicamente. Como há um rigoroso sigilo bancário, funciona. Facilmente.
Quando as coisas comecem a correr mal, é simples. Fecha-se a empresa (que de qualquer modo está na falência, uma vez que todos os seus lucros estão na conta bancária pessoal do patrão) e, com o dinheiro que o patrão tem na sua conta pessoal, abre-se outra empresa nova. A qual, naturalmente, nunca apresentará lucros.
Afixado por: Luís Lavoura em março 30, 2004 09:47 AMVamos lá gerar mais polémica:
- Não será a democracia uma maioria de estúpidos a decidir por uma minoria de inteligentes?
- Não estará o populismo a matar a democracia?
- Não será o voto em branco uma forma legítima de participação em democracia?
- Não se deverá limitar os mandatos políticos eleitos (e não eleitos) a um máximo de dois?
- Não se deverá limitar a candidatura e nomeação para cargos governativos e autárquicos a adultos com mais de 35 anos e com formação universitária?
- Não se deverá diminuir drasticamente o número de deputados?
- Não se deverá exigir a exclusividade absoluta, i.e., sem qq outra fonte de rendimento, aos deputados e aos presidentes de câmara?
- Não se deverá acabar com o sigilo bancário?
- Não se deverá passar aos círculos uninominais?
etc,etc.
Afixado por: Rui Firmino em março 30, 2004 10:06 AMNao desanimem , a gente ( nós os velhos) vamos LÁ embora agora tenhamos de ir de cadeira de rodas - mas até é mais prático...
Afixado por: José dos Cornos em março 30, 2004 10:08 AMos politicos no fim dos mandatos deveriam ser julgados: se tivessem cumprido o programa tudo bem , poderiam ir plantar as rosas no quintal senao seriam enforcados na praça publica. Seriam medidas sãs para clarificar posições e dinamizar a nossa sociedade.
Assim poderiamos com efeito retroactivo pedir contas ao Durao do mrpp, ao drogado e a outros que parecem cata-ventos. Se nao fosse util, pelo menos traria uma dose de devertimento ao publico o que ja seria apreciavel, nestes tempos obscuros...
Obrigada Daniel pelo relato sensato e limpinho. Muito me espanta ver que o "voto em branco" afinal não é seu aliado. É que estamos tão desconfiados do sistema, tão cansados das ruas da amargura democrática, que somos muitos a achar que o voto em branco seria bom protesto até boa solução. E como Saramago, os raciocínios de muita gente já não driblam consequências, porque como você diz, estão retidos nos lamentos e querem ficar. Ou então penduram-se na máxima "depois da tempestade, a bonança".
Obrigada por abanar o nosso desesperado e pobre espírito neste relato do lançamento de mais um livro de Saramago, que serviu pelo menos para lançar às praça este assunto do "voto branco".
Políticos e cidadãos estão de costas voltadas: porque em vez de expressão elevada e responsável de cidadania, a política descambou numa rede de compadrios, nepotismos e mordomias, normalmente contra os cidadãos ou à revelia dos cidadãos. Refiro-me a todos os partidos. Mal lhes cheire a cargo ou mandato público, começa a dança. Esta história da "nova política", pela "nova esquerda", faz-me lembrar aquele tipo muito religioso que vai ao bordel para converter as putas. Nem as putas se convertem, nem ele escapa de lá virgem.
Afixado por: Dragão em março 30, 2004 11:43 AMDaniel, mais um post 100%. Assinaria por baixo. Apenas acrescento que a Democracia funciona com cidadãos organizados colectivamente em partidos, movimentos ou outras organizações e que individualmente também podem e devem agir e opinar. Agora o que não é possível é haver tantos partidos quantos os cidadãos. Esse modelo de Democracia é impraticável e talvez muito pouco democrático. Portanto, ou militamos num partido, ou intervimos numa organização colectiva por nós criada, eventualmente para formular a crítica dos partidos existentes, para fazer diferente. Retomaria aqui a ideia de um comentário anterior de crítica a um comentador que ía na linha de Saramago ao falar da falta de civismo. Pois bem, também a senhora do quiosque, o dono do café, o funcionário da repartição,o segurança da escola, a peixeira do mercado, o porteiro, etc. todos que eu conheço bem pensam como Saramago. Por isso estão de fora. Demitiram-se de exercer qualquer responsabilidade enquanto cidadãos. Entraram na onda das bocas. Mas isso é puro populismo cujo o uníco destino é uma democracia peronista de tipo sul-americano. É isso que Saramago quer? Bem, ele não parece querer nada, apenas está na confortável situação de quem abandonou esta nossa quotidiana mediocridade e do alto do seu nobel prémio nos fala de passagem para a sua casa de fim de semana a tempo inteiro em Espanha. Com um ar de desdém pela nossa triste realidade de mortais que não vemos nada, estamos cegos e ele lúcido como é e iluminado [ideia para um terceiro ensaio] diz-nos da verdade: a única verdade, a do indivíduo Saramago.
Afixado por: Joseph Saint-Simon em março 30, 2004 12:15 PMNão se deverá limitar a candidatura e nomeação para cargos governativos e autárquicos a adultos com mais de 35 anos e com formação universitária?
Isto é H.G. Wells no seu melhor. Todos somos iguais, mas há uns mais iguais que outros???? LooooooL? Agora a democracia é só para licenciados????? Se forem iguais aos que escrevem esta preciosidade, estamos safos..... O FSM é folclore que ainda não resolveu problemas a ninguém.... Acabem com os off-shores e com as economias paralelas...
...imagino o Durão Barroso
aflito, quando soube disto
lá longe no Índico,a telefonar
à pressa ao Ricardo Salgado:
-E agora o que é que faço? Diga-me.
-Não ligues e continua, que estás
muito bem. Isto passa.
-Bem, o soutôr é que sabe...
(e foi dormir descansado)
...imagino o Durão Barroso
aflito, quando soube disto
lá longe no Índico,a telefonar
à pressa ao Ricardo Salgado:
-E agora o que é que faço? Diga-me.
-Não ligues e continua, que estás
muito bem. Isto passa.
-Bem, o soutôr é que sabe...
(e foi dormir descansado)
Eu estou com o Saramago. A esquerda deve votar em branco e assim o centro e a direita poderão continuar a governar o País. A bem da Nação.
Afixado por: Pedro Silva em março 30, 2004 02:04 PMJP, quem disse que "os animais são todos iguais, mas há uns mais iguais que outros" não foi o H.G.Wells, mas o George Orwell, n'O Triunfo dos Porcos.
É curioso que uma crítica ao estalinismo, como o é o referido livro também se aplica, mutatis mutandis, à situação portuguesa de hoje. Houve um momento em que a população portuguesa talvez comungasse de um espírito libertador, participativo e activamente preocupado com o futuro. Mas depois vieram os "Napoleões" (o porco, não o corso) com os seus exércitos de ovelhas...
O voto em branco é talvez um bom alerta, mas ao mesmo tempo uma arma com efeitos imprevisíveis: ou ficamos todos bons de repente e damos um "salto em frente" (acreditam?...), ou aparece um D.Sebastião qualquer a querer salvar-nos de nós próprios...
Penso que se cometeram dois erros.
Primeiro erro: os media pegaram nesse suposto "apelo" ao voto em branco do livro de Saramago que mais não é, no contexto, do que uma fábula metafórica.
Segundo erro: Saramago aceitou o repto dos media em busca de alguma projecção, em vez de frisar bem que se trata de uma 'obra literária' e não de um manifesto político.
Saramago é antes de mais um escritor (e um grande escritor).
A sua visão 'desiludida' do mundo é perfeitamente comum à maioria dos grandes escritores humanistas e universais. São esses que fazem pensar e reflectir nas grandes questões da humanidade.
Não li o livro mas ouvi a entrevista prolongada na TSF e pareceu-me que há no livro uma mensagem de esperança na juventude, como bem evidenciado pela maioria dos votantes de Zapatero serem jovens. Aliás no livro, o voto em branco é coordenado pela Internet.
O que ele pedia era que a esquerda não o desiludisse. Não fez nenhum 'apelo' ao voto em branco. Falou de forma perfeitamente lúcida sobre o facto dos políticos de hoje estarem restringidos pelo poder das grandes empresas e que não representam o povo que vota neles. Acho esta análise perfeitamente justa embora, ao contrário dele, acho que é um mal menor e suportável da democracia (o contrário é um permanente estado de revolução e instabilidade).
Por outro lado, Saramago ridicularizou a 'revolução'. Diz que a haver uma nova mudança ela nunca se fará com o esquema 'golpe de estado', mas sim com um levantamento cívico geral.
Os jornalistas são pródigos em rotular e resumir as coisas ao que têm de 'sensacionalista'. Por exemplo, estou farto de ouvir gente dizer que o Saramago 'escreve mal, sem vírgulas' quando nunca leram um livro dele.
Saramago é um escritor, aquilo que ele diz nas entrevistas é outra coisa. Tem bons livros. Odeio esta apropriação da obra de Saramago da tal esquerda caquética, o facto de pertencer apenas por lealdade à lista do PCP é um símbolo perfeito desta parasitagem que essa esquerda utópica lhe faz. E igualmente desprezo a direita que não o lê só porque 'escreve mal' ou 'é comuna'.
Afixado por: O Bom Selvagem em março 30, 2004 02:59 PMHuummm... Bonita foto!
Afixado por: Gona em março 30, 2004 03:19 PMÉ esse o teu comentário? Quer dizer, perante este blog a transbordar de cultura, tudo o que tens a dizer é "hum... bonita foto"? Sim senhor, sempre em grande nível, mostrando um excelente desempenho, seguindo a tua melhor tradição... És um grunho!
Afixado por: Smee em março 30, 2004 03:19 PMCompreendam Saramago. Já não lhe resta muito tempo, convenhamos. Tenta então abordar os grandes temas, as grandes questões.
Esta questão parece grande demais para os velhos que a debatem (Saramago DISSE isto).
E disse que ninguém fala com os jovens. Que a sociedade só se preocupa em formá-los para que nela se integrem , sob as suas regras, que os tenta controlar mas que no fundo se está marimbando para eles.
Talvez a situação seja cíclica, ou tenha vindo a ser cíclica. Mas a julgar pelas tendências actuais havemos de atingir um ponto de ruptura.
E aí seriam os jovens a liderar, porque o novo mundo é deles: a INTERNET seria o terreno de jogo.
Está a ser em muita coisa, os blogues são um pequenino exemplo disso, mas a longo prazo podem constituir uma ameaça ao poder dos media. Porque pensam que Pacheco Pereira (velho acomodado) se chateia ao ver que os blogs se popularizam em vez de pertencerem a uma elite que já o era na sociedade antiga? Óbvio.
... claro que o ICANN (orgão que gere a Internet) no fundo é mantido pelo Departamento da Defesa dos EUA. A haver merda, a Net é cortada, tal como hoje cortam o GPS em caso de guerra. Por isso talvez a Internet seja apenas uma ilusão (que até enganou servindo de base a Saramago para o argumento do Ensaio sobre a Lucidez).
A democracia é lixada, principalmente quando não cai para o nosso lado. O Miniscente, desta vez, disse tudo: ressentimento. O resto é conversa. Vou ler o livro, porque gosto de alegorias... P.S.: A melhor maneira de ficar velho é não ficar saramago.
Afixado por: hmbf em março 30, 2004 03:34 PMIsto devia ser um debate à Esquerda. Ponto.
Afixado por: thirdbacus em março 30, 2004 04:06 PMJá antes de ouvir Saramago na apresentação tinha escrito no intro.vertido a minha discordância.
Lamento que Saramago( que parece agora estar tãoácido como os próprios saramagos tenha uma atitude destas. É errada politicamente, é incoerente com a sua posição e pelos vistos não condiz com a posição do PCP o que lhe confere maior incoerência.
Quanto a velhas esquerdas e novas esquerdas, há é quem pense e quem não pense. Que isto nos sirva para reflectir e não apenas para ler a livro (mais um) e vamos votar deixando o Saramago entregue aos seus azedumes.
Afixado por: João Norte em março 30, 2004 04:09 PMEu até concordo com a maior parte do que se diz no post, mas fico com uma dúvida: ó Daniel, tu nunca votaste em branco?
É que eu já.
Às vezes, as opções que se nos apresentam são tão (mas tão) más que não há mesmo outra hipótese. E na nossa política portuguesa de nível nacional, estamos a caminhar rapidamente para uma situação dessas. Amargura? Se calhar é...
E, já agora, qual é a diferença entre votar em branco e votar no BE num círculo eleitoral como o de Faro?
(sim, também já fiz isso, antes que perguntem)
Afixado por: Jorge em março 30, 2004 04:32 PMNunca votei em branco mas poderia ter votado. Como um acto individual e sempre sabendo que não se trataria de uma a resposta política alternativa.
Afixado por: Daniel Oliveira em março 30, 2004 05:13 PMCaro Bom Selvagem:
Lembre-se, o futuro não é dos jovens, o futuro será dos velhos, basta olhar para as estatísticas demográficas... porque é que cada vez mais se fazem filmes em que o mocinho e a mocinha são do tipo "Alguém tem de ceder"
Afixado por: diogenes em março 30, 2004 05:14 PMA questão colocada pelo Jorge é pertinente (perdoem-me a pretensão...). Eu nunca votei em branco, nem nunca deixei de votar. Quando me dizem que não vão votar, que vão abster-se, eu faço sempre um (pequeno) esforço para tentar convencer a pessoa em causa a, pelo menos, votar em branco. Porquê? Bem, se imaginarmos os números da abstenção expressos em votos brancos penso que teríamos um problemazinho...
Agora, deixemo-nos de ilusões! Isto nem sequer é uma utopia, vai para além disso (se é que isso é possível...)!
Assim, fácil é chegar à conclusão que, hoje por hoje, votar em branco apesar de ser, manifestamente, um voto de protesto, resulta claramente contraproducente pois, aposto que já adivinharam, serve os interesses da direita que depois da missa, aconselhados veladamente pelo padreco, lá vão votar para que tudo fique na mesma...
Jorge,
Nas legislativas, a diferença entre votar em branco ou votar BE (ou qualquer outro partido excepto PS ou PSD) no distrito de Faro é nenhuma, porque é assim que está feito o nosso sistema eleitoral de apuramento de deputados para a Assembleia da República.
Já agora, fica aqui a informação: 41.337 algarvios votaram para nada nas Legislativas 2002 (e não estou a contar com os que votaram branco ou nulo), dado que o seu voto não serviu para eleger qualquer deputado.
Este valor corresponde a 30% dos eleitores que foram às urnas nessa região, ou seja, quase 1 em cada 3.
Excelente, Daniel.
Afixado por: Asulado em março 30, 2004 06:11 PMLuís Humberto Teixeira,
E agora imagine esse cenário com círculos uninominais, os quais, dizem, aproximam os cidadãos dos eleitos. Pois, aproxima os cidadãos dos eleitos por uma minoria. É assim que, em Inglaterra, os liberais democratas têm 14% dos votos e têm meia dúzia de representantes.
Afixado por: Pedro Sales em março 30, 2004 06:20 PMPois é, votar em branco ou votar no BE, PP ou CDU em Faro é a mesma coisa. Não é uma proposta política alternativa? Pois não, mas votar PS ou PSD também não é alternativa a coisa nenhuma.
Resta o quê? Ficar em casa?
Afixado por: Jorge em março 30, 2004 06:39 PMFicar em casa? Nem pensar!
O que é preciso é pressionar para que a forma de apuramento dos deputados nas legislativas seja diferente, mais próxima do que acontece nas Presidenciais e nas Europeias, onde os votos são contabilizados a nível nacional, não em círculos regionais.
Isto sem que as regiões do interior percam demasiado peso face às grandes metrópoles.
Esta é a minha proposta.
Pedro Sales,
Por acaso, eu defendo a introdução de círculos uninominais, desde que devidamente compensados com um grande círculo nacional. Aliás, enderecei no Verão passado uma proposta de alteração do sistema eleitoral, sob o formato de livro, a todos os grupos parlamentares, ao Presidente da República e aos responsáveis máximos do STAPE e da CNE. Ainda estou a aguardar comentários.
Quanto a mim o Saramago tem razão. A politica continua a ser a grande porca. E quem mexe os cordelinhos são os capitalistas. Votar em branco é melhor do que votar na direita.
Deixo aqui uma questão um tanto ou quanto desagradável (mas que já vem dos tempos de Aristóteles e dos Inventores da Democracia):
- Será mais fácil aos capitalistas (ou plutocratas, se preferirem um termo mais erudito) comprarem um gajo de direita ou um gajo de esquerda?
Nem precisam responder. Mas pensem nisso.
Afixado por: Dragão em março 30, 2004 08:26 PMCaro Daniel, eu não sinto esse teu "a esquerda em branco " antes pelo contrário. O dogmatismo de sempre de Saramago em vez de me angustiar, sempre me deu ânimo, alegria. Aclarou-me o apego à democracia e à liberdade. Saramago sempre foi um inimigo de ambas e nutre um profundo desprezo que povo, ou melhor, pelo cidadão. E como inimigo é fiel. Irá até ao túmulo para lhe cuspir (aprendi com o Mexia).
À parte esse meter-nos todos no mesmo saco de descrédito democrático, o post é "à Daniel Oliveira".
Afixado por: Real em março 30, 2004 11:39 PMPenso que eram os Anarkas que diziam, e com toda a razão, que " se o voto mudasse de facto alguma coisa há muito que teria sido ilegalizado". Quem ainda acredita que muda alguma coisa votando, obriga-me a concluir que ainda há gente que acredita no Pai Natal, fico feliz por vocês, é bom acreditar em algo, mas é absolutamente surreal e patético.
Afixado por: Rui Pereira em março 31, 2004 12:24 AMDesta vez é para ti, Daniel ...
O destaque para o décor - a média de 60 anos, a velha esquerda, a geração do 25 de Abril e do 25 de Novembro - com direito à entrada no post traz água no bico.
E é pena que tenhas ido por aí.
Certamente sabes, mas convém recordar : a juventude é o único defeito / ou a única vantagem que passa com o tempo.Por mais que te agarres e seja ao que for.
Como me não parece que tenhas uma alternativa à ficção ou provocação do Saramago, deixo-te um desafio quanto ao que parece mais teres admirado no evento. E que é : isso da alternativa soarista à democracia ser mais democracia, é o que de facto ? Talvez a resposta nos permita ir além do lamento, talvez isso nos traga a tal esperança que o Saramago, pelos vistos, nem é, nem traduz.Mas responde - se o quiseres - na perspectiva da lucidez (sim, ele é muito lúcido, como o afirmas) do Mário Soares. Talvez se descubra agora o que não foi possível identificar na sua (do MS) vida activa de político.Mas nunca é tarde ...
Está tudo doido?
Basta de confundir ficção e vida do autor.
Um romance de Saramago é uma ficção. Também vão dizer que Lobo Antunes vive cada uma das suas Crónicas?
perplexo, nao leste o post? Isto não é sobre o romance, é sobre o que Saramago disse.
Afixado por: Pedro Sales em março 31, 2004 06:46 AMTens razão Nuno, é isso mesmo, O triunfo dos porcos, desculpa lá o lapso....
Afixado por: JP em março 31, 2004 01:06 PMEscute, Daniel, andei eu a lê-lo, apesar dos meus 60 anos ! Afinal, você é tão limitado no seu "iluminismo". É tão vulgar, e não parecia. É tão preconceituoso e arrogante, e imitava o rigor dos ideais...
Estive lá, no lançamento do livro do Saramago. Sem bengala (ainda) e esqueci-me, ó Daniel, de lhe pedir licença para a minhas palmas (pelos vistos, "dementes", na análise que você tem a lata de fazer daquela plateia). E que foi lá fazer o Daniel na sua juventude esclarecida ?!
Sabe, não passei pelos seus caminhos e veredas. Nunca tive de me contorcer. Por isso me espanto e desiludo ! Aprenda a respeitar o seu próprio labirinto, já que o revela, sem pudor, no seu blog fazendo apelo ao respeito de quem o lê.
Morro de rir com o perplexo!:))))))
Afixado por: thirdbacus em abril 1, 2004 04:21 AM"Sou Comunista mas não sou parvo."
Parece-me bem.
Chega para aqueles que não têm ideias.
As pessoas q foram ver o Saramago são muitas delas pessoas desiludidas com os trilhos que este país leva.
Votar em Branco é um voto de protesto. Dada a distância que separa mtos políticos (inclusivé de esquerda) da vida real das pessoas é tb ele um voto alternativo.
N percebo pq razao 1 gajo tem de votar no BE ou no PCP. Só pq se dizem de esquerda?
No tempo do Cunhal o PCP era um partido unido onde os oportunista tinham rédea curta.
Agora mtos deles mascaram-se de ortodoxos para poderem andar na Secção Internacional a coçar o cú pelas paredes.
Estou com o Saramago. Grande escritor e grande homem. A Pilar q é uma mulher culta n escolheria um homem errado.
as claques estão a trabalhar bem.
(uma mijadela à cão)
Afixado por: Cândida em abril 2, 2004 02:07 PMO Saramago é o Zé Mourinho da literatura, é arrogante, narcisista e detestável.
A ideia de votar em branco é velha como ele.
Porque não votar preto, em sinal de luto?
Respeitinho pelo Saramago seus Barnabés.
A pimbalhice das vossas intervenções define-vos mas tende cuidado quando falais sobre grandes artistas.
O Saramago é um dos melhores escritores do mundo e vocês são pobres intelectuais de esquerda ou não sois nem uma coisa nem outra. Por isso tende tino.