março 31, 2004

As desvantagens da rotina

Corre por aí uma analogia entre Ahmed Yassin e Osama bin Laden. Certamente que os dois senhores têm muita coisa em comum, mas o pano de fundo desta analogia é o seguinte: se os EUA tiverem um dia hipótese de matar Osama bin Laden, deverão deixar de o fazer? Caso contrário, porque não seria justificada a opção israelita de matar Yassin?

Esta é uma pergunta que me interessa, porque me permite falar, agora que já passaram alguns dias, do facto que mais me chamou a atenção neste caso. É o seguinte: ao contrário de bin Laden e até de Yasser Arafat que não dorme duas vezes no mesmo lugar, Ahmed Yassin tinha uma vida rotineira. Vivia num lugar conhecido de todos, incluindo israelitas, e todos os dias, à mesma hora, entrava na mesma mesquita para as suas orações.


Infografismo Reuters/Público [pormenor]

Corro o risco de este dado não interessar a mais ninguém, mas ele parece-me relevante. Ao contrário de bin Laden, Yassin não se escondia, nem ninguém andava à sua procura. Quando bin Laden for encontrado, poderá ter o fim de Saddam Hussein (ser capturado) ou dos seus filhos (ser morto). Essas duas hipóteses colocar-se-ão no fim da fuga. Ora, Ahmed Yassin não estava em fuga. Poderia ter sido morto há três anos, há dois meses, daqui a um ano, daqui a cinco anos. As razões que terão sido válidas agora já o teriam sido no ano passado. Porquê agora?

A resposta tem de ser procurada no contexto. Vejo duas possibilidades. A primeira é de que o assassinato foi feito para aproveitar o clima emotivo pós 11-M (ideia do Pedro Oliveira). A segunda tem a ver simplesmente com a necessidade de provocar os palestinianos a uma guerra total, tanto quanto possível. Numa guerra total, Sharon terá as mãos livres, interna e externamente. Nesse sentido, o assassinato de Yassin serve os mesmos propósitos que serviu a caminhada de Sharon pela Esplanada das Mesquitas. O calendário dele não é o do combate ao terrorismo. Trata-se tão somente de fazer aquilo que se imagina que mais ofenderá e escandalizará os adversários, forçando-os à luta.

Por muito que achemos que o homem era tudo menos um entrevadinho, para um habitante de Gaza matar um homem de cadeira de rodas é um acto de cobardia. Por muito que ele nos seja repelente, para um palestiniano ele era o representante local da Irmandade Muçulmana, que é uma organização não só radical mas beneficente. Vivia no meio dos pobres, canalizava dinheiro para as famílias dos suicidas, andava às claras. Por muito que nos custe, a imagem que muitos, cada vez mais palestinianos têm dele é a de um homem santo. Pode ser estúpido, mas é assim. Morto fará mais pelo terrorismo do que vivo. Sharon sabe disso mas não se incomoda.

A outra lição a tirar disto é que, quando se é inimigo público de um estado, a rotina é uma coisa um bocado estúpida. Mas agora olha.

Publicado por ruitavares em
Comentários

E já agora, para compor o ramalhete, não esquecer a votação, numa reunião do Likud, sobre a retirada dos colonatos de Gaza. Curioso, neste momento, pelo menos...

Afixado por: Rodrigo MAia em março 31, 2004 09:13 AM

De onde tirou o Rui Tavares essa informação de que Yassin era rotineiro e não se escondia?

É que todos os outros comentários explicativos que tenho lido sobre o assassinato do homem pressupõem (ou dizem explicitamente) que Israel o matou agora porque agora é que teve oportunidade para isso.

Afixado por: Luís Lavoura em março 31, 2004 09:50 AM

Informação única a que nos dá o barnabé. Com efeito, em todo o lado se lê que o sheik andava sempre rodeado de escudos humanos (mulheres e crianças) e dormia em edifícios de apartamentos ou em mesquitas, porque ao contrário dos seus bombistas, Israel tem algum cuidado com as vítimas civis.

Afixado por: jcd em março 31, 2004 10:55 AM

Essa do "israel tem algum cuidado com as suas vítimas civis" (jcd) deve ser vista com um grãozinho de sal. É um facto que Israel tem cuidado com os MORTOS civis, mas não com as VÍTIMAS. Israel procura de facto VITIMAR os palestinianos, mas não os MATAR, porque sabe que os mortos contam muito alto nas estatísticas, enquanto que os feridos são geralmente esquecidos. Na Intifada tem havido um número surpreendentemente (anormalmente) elevado de palestinianos alvejados nos joelhos e nos olhos, alvos totalmente irreais para qualquer polícia interessado em, digamos, controlar uma manifestação, mas facilmente explicáveis pela utilização de snipers que apontem deliberadamente a esses alvos. O facto é que parece haver instruções claras dadas aos soldados israelitas no sentido de INCAPACITAREM os palestinianos (o que, na prática, pode a longo prazo ser equivalente a matá-los à fome), mas de evitar matá-los. Isto seria explicável pelo cuidado que Israel, apesar de tudo, tem com a sua imagem, nomeadamente nos EUA.
(Dados e referências sobre o assunto em "Destruir a Palestina" de Tanja Reinhardt, Editorial Caminho.)

Afixado por: Luís Lavoura em março 31, 2004 12:07 PM

"ao contrário dos seus bombistas, Israel tem algum cuidado com as vítimas civis."

Pronto está certo, vocês acham que o terrorismo e os bombistas palestinos são mauzões.
Eu acho que é a única forma que existe para lutarem contra um ocupador e opressor militarmente muito superior.

Eu volto a fazer a mesma pergunta:
Que países conhecem que tenham conseguido a independência sem lutas, mortes e ameaças? A Índia, talvez? No entanto se bem se lembram, os soldados britãnicos tinham a mania de às vezes desatar aos tiros às manifestações pacíficas. Bem, para alguns de vocês, provavelmente não haveria problema nenhum se os Palestinianos fizessem isso, tornavam-se mais fáceis de abater e não xateavam tanto, não é...

Afixado por: _achtung_ em março 31, 2004 12:19 PM

Mas que raio de discussão é esta? Estamos a discutir se Israel tem "cuidado com as vitímas ou mortos civis" ? Estamos a discutir o que é uma vitíma ou que é civil?
E um morto, o que será? E muitas crianças mortas??
Serão as centenas de crianças que morreram na Segunda Intifada alvo de snipers mal dormidos que falham o seu objectivo de "incapacitar"?
E os outros milhares de mortos também são todos perigosos terroristas, com as suas pedras na mão a atacarem tanques israelitas?
Por favor, podemos ler imensos livros, absorver imensas teorias sobre o assunto, mas dizer que Israel tem "cuidado com os mortos civis" é escandaloso.

Afixado por: MCG em março 31, 2004 12:23 PM

Diz o ssharonesco JCD: "ao contrário dos seus bombistas, Israel tem algum cuidado com as vítimas civis." !!!

Claro, como se vê pelas estatísticas: desde Setembro de 2000 (II Intifada) há 3000 palestinianos civis mortos pelas SS Tsahal (entre os quais 500 crianças) e cerca de 850 israelitas (dos quais dois terços são militares e colonos armados abatidos em território ocupado) abatidos pela resistência em acções de retalição legítima (que os FDP ssahronescos costumam designar por "terroristas")!

Afixado por: euroliberal em março 31, 2004 12:28 PM

E mais uma coisa, caros amigos, Sharon tem agora uma grave acusação de corrupção sobre a sua cabeça e a do seu filho. O despoletar de uma guerra mata dois coelhos de uma só cajadada. Pode "limpar" montes de palestinos e abafa as conversas sobre a vua vida corrupta.

Afixado por: carlos em março 31, 2004 12:43 PM

O Yassin esteve preso e foi libertado das cadeias israelitas. Se a ideia fosse apenas neutralizá-lo, não fazia muito sentido tê-lo libertado, pois não?

Afixado por: Ivan Nunes em março 31, 2004 12:55 PM

Eu ia também levantar a questão sobre as acusações de corrupção, mas o Carlos já me fez esse favor. Só lembrar que o próprio Sharon poderá ser acusado.

Quanto ao Yassin ter estado preso, isso já foi há uns tempos valentes, antes desta Intifada. Também em tempos o Bin Laden foi aliado americano, não foi?

Afixado por: João André em março 31, 2004 01:08 PM

Boa Rui tavares.
Acho que colocaste o dedo na ferida, se assim me posso exprimir. Tenho também a ideia que não foi casual este assassinato. Ele surge no contexto de uma crescente contestação à acção de Israel e à construção do muro da vergonha. Essa contestação tem feito para a sua construção em algumas zonas, agora talvez consigam o argumento que o poder político europeu exige para calar a boca.
O Yassin esteve preso e foi libertado como moeda de troca por prisioneiros israelitas.
Concordo com _achtung_ quando refere que o recurso à violênca por parte de resistentes de países ocupados é plenamente justificável, quanto muito pode questionar-se a escolha de alvos e sabemso que os atentados bombisas em israel têm vitimado muitos civis. Tb já disse no meu blog, acho eu que foi lá, que o equipamento militar dos palestinos não se compara com o arsenal bélico dos israelitas e que a utilização dos seus próprios corpos como armas mortíferas, vejo-as como um acto de abnegação de jovens que nasceram debaixo de fogo, viveram de baixo de fogo das armas israelitas. Se considerarmos que as acções dos palestinos peranto a ameaça de limpeza étnica de que estão a ser alvo é acção terrorista pura, sem justificação, então teríamos que considerar a luta do povo de timor como acção terrorista contra as trpoas indonésias ... nada de dois pesos duas medidas. Tenho vindo a radicalizar a minha posição porque começo a achar que o estarmos sempre com complexos de culpa perante a vitimização histórica dos judeus, nos leva a vacilar e a não ser claros quanto ao considerar que a política de sharon é uma política terrorista de anexação dos territórios do povo da palestina, é uma política que visa meter os palestinos em "reservas" como fizeram os americanos com os índios, e expandirem os seus territórios. Por trás disto, está tb o problema do acesso à água potável e muitas vezes esquecemos isto.
Esta falta de capacidade de distinguir o "trigo do joio" e de assumir claramente uma posição de condenção da política de sharon, tem vindo a permitir que não apareça uma contestação mais visível de apoio ao povo palestino. Ora, considerando que este assassinato de uma figura carismática palestiniana vai desencadear um crescente de acções de resposta (a que já tenho dúvidas em chamar de terroristas) que será aproveitada por israel para uma acção mais brutal, parece-me que talvez fosse importante passar a uma atitude mais activa na defesa do povo palestino e do direito a ver os seus territórios desocupados. Porque não desencadear qualquer coisa a partir dos blog? ou estamos aqui apenas no conversê mole?

GIN

Afixado por: GIN em março 31, 2004 01:57 PM

De facto e de acordo com alguns documentários que vi no Odisseia o sheik tinha uma vida "normal". De facto rodeava-se de mulheres e crianças para atenuar os efeitos de um atentado e os jornalistas raramente eram levados à sua presença sem andarem ás voltas durante algumas horas.
Mas também é um facto que para o poderio militar israelita matar o sheik Yassin não seria, concerteza tarefa difícil! Como não é matar Araft (apenas aguardam o momento certo) ou como não seria difícil aos americanos matar Saddam sem ter de provocar o caos no Iraque.

Ou seja é impossível acreditar que nações ricas e fortemente armadas tenham dificuldades em assassinar seja quem for. Não assassinaram o Kennedy? O Salvador Allende (de forma indirecta, mas foi assassinato)? E estes eram os bons da fita ...

Afixado por: Patrícia em março 31, 2004 02:18 PM

Esquece-se de um pormenor que consiste no facto de Yassin não ter sido morto mais cedo precisamente por ser sempre uma decisão política difícil.

Todos, tanto o governo de Israel, como as chefias militares sabiam o risco que corriam. Por isso não foi morto mais cedo.

Acontece que o grau de violência a que chegaram os grupos terroristas deixou, no entender do governo israelita, que tais considerações políticas continuassem a manter o peso que tinham no passado.

O que torna difícil a morte de um terrorista nem sempre é o desconhecimento do local onde o encontrar. Muitas vezes, são as consequências políticas da sua morte que são compatibilizadas.

Afixado por: André em março 31, 2004 03:31 PM

Ó terrorista SSharonesco André, e qual é o teu paradeiro ? Quanto às consequëncias políticas, deixa lá... Ou queres ir já no próximo grande estouro que está iminente ?

Afixado por: euroliberal em março 31, 2004 03:57 PM

HAMAS, a resistência popular invencível

A única razão pela qual o Hamas, que é actualmente de longe o maior partido ou força política palestiniana (A Fathah é corrupta...), não é considerado nos EEUU e caniches europeus um movimento de resistência e libertação nacional legítimo (como a FRETILIN, IRA, partisans da II Guerra, etc.), mas como "terroristas", é a existência do poderoso lóbi mafioso dos judeus americanos, que consegue impor em quase todos os assuntos uma "excepção israelita"...

Mas tal política tem custos: um movimento verdadeiramente terrorista é ultra-minoritario e o pode ser derrotado decapitando os seus cabecilhas. Um movimento de massas nacionalista, NUNCA ! Yassin morto é, mais poderoso do que vivo.... e a prova não vai tardar !

Afixado por: euroliberal em março 31, 2004 04:01 PM

luís lavoura e outros: a informação aparece em diversos lugares. veja-se este textos do público de 23 de março:

Em contraste com Arafat, sempre a fugir da morte e com uma enorme riqueza para gerir, Yassin vivia na pobreza e com pouca protecção num dos bairros miseráveis de Gaza. O seu "Land Rover", sem chapa de matrícula, onde era conduzido à mesquita, era provavelmente o veículo mais conhecido no território, onde a aviação israelita já antes assassinara vários dirigentes do Hamas.

Capaz de atrair multidões, Yassin era uma figura venerada em muitos países árabes, onde o islamismo político ganha cada vez mais adeptos contra regimes decrépitos. Em Israel foi várias vezes detido e algumas exilado. Em 2003, sobreviveu a uma tentativa de assassínio. Mas nem sempre foi "persona non grata". [...].

Vou acrescentar um infografismo da reuters que também foi publicado no Público e que afirma o mesmo. Estou a confiar nestas fontes.

Afixado por: rui tavares em março 31, 2004 06:26 PM

Excelente post, Rui!!
Escreveste o que muita gente, acertadamente digo eu, pensa. Podem alguns querer "tapar o sol com a peneira", mas o que ninguém pode negar é que com tal acção, a administração israelita apenas pretende, como diria Luiz Pacheco, chegar a estopa ao lume.
Para estar perfeito, no entanto, faltou-lhe "um bocadinho assim" que já foi referido aqui nos comentários. É que tal como Al Capone, Sharon pode não "ser chamado à pedra" como criminoso de guerra, mas "apenas" como corrupto que ele (também) é.

Afixado por: rodion em março 31, 2004 06:54 PM

Bravo Rui!

Afixado por: aki em março 31, 2004 11:23 PM

A tese conspirativa tem algum sentido, todavia era importante saber o que têm dito de tudo isto os trabalhistas no Knesset. Talvez esse seja o elemento essencial para confirmar ou infirmar a tese.

Afixado por: Real em abril 1, 2004 12:01 AM

Ó Real, se os trabalhistas do Knesset forem como os socialistas do parlamento português já sabemos todos como é, assobiam para o ar porque isto é um assunto de Estado, ui,ui...olha os votos do "centro-direita", ui, ui...

Afixado por: rodion em abril 1, 2004 01:13 AM

André,

Penso que todas as decisões políticas de Israel face ao conflito são difíceis. O que quer que façam não anula o facto de serem uma potência ocupadora e castradora da liberdade dos cidadãos palestinos.
O nível de violência do terrorismo palestino não é maior nem menor que, por exemplo, no início da primeira intifada e é sempre proporcional aos ataques do exército Israelita.

Já agora gostava de saber qual é a sua opinião sobre a questão Tibete / China.

Caro Euroliberal,

A agressividade não é solução!

Afixado por: Patrícia em abril 1, 2004 02:55 PM