março 31, 2004

Tomai e lêde, ó gente de pouca fé!

Eu sei, é mau demais para ser verdade. Houve gente que se recusou a acreditar no meu texto abaixo. Uns porque acharam que era descaramento a mais para Durão Barroso o ter-se apresentado como um chefe de governo popular. Aprendamos pois a não subestimar o nosso Primeiro. Outros puseram o dedo na ferida e perguntaram-se como é que a Economist engoliu uma destas. Resta cruzar os dedos para que seja uma excepção – ou reparar melhor naquela última frase, que é de um primor assassino.

Depois vieram os comentadores de má-fé e as insinuações de que eu teria inventado ou descontextualizado as frases. Para correcção desses e edificação geral passo a transcrever alguns excertos do artigo, no original inglês – cerca de 1/3 do total, que o Barnabé não é a Torre do Tombo e com o copyright não se brinca. Ainda está nas bancas e o artigo completo custa $2.95 no site da revista. Sigam o link "Portugal's Popular Prime Minister".

Stability pays. [Lisbon] The prime minister wins surprising support for fiscal austerity. While Portugal's finance minister, Manuela Ferreira Leite, was out shopping in Lisbon recently, an old lady came up to congratulate her warmly on her "victory over the budget deficit". José Manuel Durão Barroso, the centre-right prime minister, relishes this story as evidence of how his fiscal rigour is changing attitudes in a country long used to government overspending. "Not since Portugal was founded in the 12th century has the deficit and the need to control state spending been such a focus of attention," he says. "We are at last discarding the idea that the state is more important than individual initiative."
[...]
Mr Durão Barroso's government imposed a string of tough austerity measures, and urged stoicism when the country then suffered the sharpest recession in Europe [remete para um gráfico]. The economy shrank by 1.3% last year. That doesn't sound like a vote-winner. But at the 2006 election, predicts Mr Durão Barroso, his Social Democratic Party will win "the biggest parliamentary majority achieved by a Portuguese government since democracy was restored 30 years ago."
[...]
"I'm not a free-market fundamentalist", he insists. But the state's example of fiscal rigour is, he believes, setting the tone for company and family finances too. This will enable the economy to make the most of a recovery that should be gathering force by 2005-6 – just in time for the popularity of this steely prime minister to be tested at the ballot box. Too bad that the IMF thinks the budget deficit will be back up to 4% of GDP well before then."

Que isto vos sirva de lição quando, para a próxima, hesitarem entre confiar no Barnabé e confiar no nosso Primeiro-ministro. O resto do texto não sai muito deste tom, e eu mantenho as minhas conclusões: ninguém, hoje em dia, acredita que aquilo que Durão está a fazer resulte. Portugal é a Albânia do neo-liberalismo: a caminho da miséria mas ortodoxo. E a tudo isto Durão Barroso junta uma capacidade de efabulação só comparável à sua ignorância em História de Portugal. Como prova da sua suposta popularidade não apresenta qualquer sondagem ou dado concreto: apenas intuições e a história da velhinha.

A tempo: admito não ter a certeza de conhecer a velhinha que congratulou Manuela Ferreira Leite. Mas a avaliar pelo resto das declarações, muito provavelmente o que a veneranda cidadã disse foi algo como: "ai, é a Dona Ferreira Leite, não é? Olhe parece menos magrinha do que na televisão. E esse penteado fica-lhe muito melhor!".

Publicado por ruitavares em
Comentários

"the state's example of fiscal rigour is, he believes, setting the tone for company and family finances".......o Dr. Barroso anda a jogar muita Playstation e vêem-se os efeitos secundários: fraca distinção entre ficção e realidade....
Há uns dias quando fiz as contas ao impacto do aumento do preço da electricidade nas minhas economias (o IVA já nem falo e por enquanto não pago IRS) e me dizem que a maioria das empresas foge aos impostos foi a primeira coisa que me veio à cabeça: "Que gajos porreiros, pá! Então não se vê que o Estado marcou um exemplo de rigor fiscal que serve de bitola para as finanças das empresas e das famílias?".

Essa do Woody Allen não conhecia....mas a minha neurose também é muito superficial....

Afixado por: neurótico em março 31, 2004 09:00 PM

Voto branco e democracia
O novo livro de José Saramago, Ensaio sobre a Lucidez, veio colocar em discussão a questão da “crise” da democracia representativa e do voto branco como instrumento de rejeição e protesto. Na verdade, o voto branco é uma maneira perfeitamente democrática de exprimir descontentamento político. Em geral, ele é uma alternativa à abstenção por parte de cidadãos civicamente empenhados; em certas circunstâncias ele pode ser também uma alternativa ao voto em partidos extremistas, anti-sistema.
Ao contrário da abstenção, que é geralmente produto de uma atitude de desinteresse ou falta de informação, ou de hostilidade de baixa intensidade, o voto branco supõe uma atitude deliberada e uma rejeição de mais forte intensidade, pois implica o esforço de ir votar. Por isso em eleições ele dá expressão em regra a uma das seguintes atitudes: recusa de escolha entre os concorrentes, rejeição de todos os concorrentes, rejeição do sistema democrático ele-mesmo, hostilidade em relação à política. Ora numa democracia pluripartidária, onde exista liberdade de organização e de actividade de partidos, essas situações não são muito numerosas em condições de regular funcionamento do sistema. Salvo quando atingem maior intensidade, o descontentamento e a desafeição em relação aos partidos ou ao sistema ele mesmo exprimem-se mais pela abstenção do que pelo voto branco, que representa um voto activo.
Em geral os votos brancos são legalmente irrelevantes, não contando para o apuramento de maiorias eleitorais, que são calculadas somente com base nos “votos expressos”. Existem mesmo países onde nem sequer se procede à sua contagem separada dos votos nulos (França, por exemplo). Mas é evidente que politicamente seria tudo menos irrelevante uma forte percentagem de votos brancos. Por isso, em certo sentido, sob o ponto de vista democrático, o voto branco pode ser preferível à abstenção, desde logo porque ele reclama maior atenção em relação à qualidade da democracia, dado traduzir a desaprovação de cidadãos interessados, que querem exprimir a sua opinião e participar nas escolhas da colectividade.
Há quem condene em geral o voto branco. Mas uma coisa é cativar os cidadãos para exprimirem uma opção partidária e outra coisa é enterrar a cabeça na areia face aos votos de protesto, fazendo de conta que nada se passa. O voto branco pode ser um excelente sismógrafo da democracia.


Inserido por VM 31.3.04
COLOCADO POR JSILVA

Afixado por: j.silva em março 31, 2004 09:40 PM

O Durão Barroso é o líder político mais mentiroso desde o séc.XII, e não me venham dizer que mentir é com todos porque o Durão exagera, é demasiado!

Afixado por: dias em março 31, 2004 11:05 PM

A imaginação demonstrada nessa entrevista pelo primeiro-ministro português faz-me ver que não errei quando considerei a coligação PSD-PP como um governo empenhado na cultura.

Afixado por: Luís Humberto Teixeira em março 31, 2004 11:14 PM

Acho que ninguém duvidou da veracidade das tuas palavras Rui, os gajos ficaram foi sem comentários e então desataram a copiar-te o humor. Tão sem sucesso que pareceram maldades.

Afixado por: Real em março 31, 2004 11:44 PM

Sabem, a Economist não é propriamente uma revista para o atrasado mental militante do BE ler... E o que o Dr. Barroso mostrou foi que tem noção da importância que a revista tem nos investidores estrangeiros. Vá, puxem pela cabecinha e vão ver que conseguem atingir qual era o objectivo do nosso Primeiro Ministro.

AP

Afixado por: AP em março 31, 2004 11:56 PM

bem me queria parecer que Durão era o 1ºministro dos adiantados mentais...

Afixado por: zippiz em abril 1, 2004 12:03 AM

Talvez seja mesmo atrasado mental, como se refere numa das suas brilhantes tiradas esse génio que é o AP, mas não consigo mesmo perceber qual era o objectivo do "nosso" primeiro-ministro.

É que os investidores estrangeiros - talvez por simpatizarem todos com o BE, sei lá - também não são "atrasados mentais" e percebem que entre a propaganda sobre o rigor fiscal e os números da OCDE vai uma grande diferença. A si talvez não o preocupe, mas eu, pelo menos, que pago alguns milhares de euros de IRS por ano, fico um pouco transtornado quando oiço que metade das empresas não paga IRC por declarar prejuízos, consecutivos, há mais de 4 anos.

Afixado por: Pedro Sales em abril 1, 2004 12:29 AM

AP

Isso é uma forma encapuçada de dizer que as coisas no país estão mal e o nosso Durão só anda a vender o peixe lá fora a ver se mostra Portugal como um lugar aprazível para investimentos?
Não me parece mal, mas preferia que o país estivesse melhor e ele não tivesse de mentir.
Não sou simpatizante do BE, mas acho que o nível de inteligência dos seus militantes não deve ser nem mais alto ne, mais baixo que os dos restantes partidos ou ideologias.......

Afixado por: neurótico em abril 1, 2004 12:29 AM

Claro, AP, claro.

E os investidores estrangeiros são todos imbecis e não sabem olhar para os números. Aliás, nenhum deles sequer ouviu falar em indicadores económicos: investem com base naquilo que diz Sua Excelência, o Presidente do Conselho.

É... os investidores estrangeiros, que lêem o Economist, são todos atrasados mentais, como os militantes do BE. Man! Vai-se a ver e são todos militantes do BE!...

Cena marada!...

Afixado por: Jorge em abril 1, 2004 12:30 AM

É verdade, já me esquecia... Ora experimentem lá ir ao google e teclar "estupido"... depois olhem para o primeiro resultado da lista.

(search dedicada ao AP)

Afixado por: Jorge em abril 1, 2004 12:33 AM

isto sim é serviço público.

Afixado por: pfig em abril 1, 2004 01:40 AM

A propósito do episódio estúpido, aqui citado pelo Jorge e corroborado pelo pfig, saibam toda a verdade sobre o misterioso desaparecimento da biografia oficial do Primeiro ministro. Aqui: http://pauloquerido.net/2004/04/quanto_vale_um_underscore.php

Afixado por: Paulo em abril 1, 2004 05:35 AM

Obrigado ao Barnabé pelo excelente serviço público que presta.

Realmente não dá para acreditar. Não sei o que me espantar mais, se a capacidade de mentira do primeiro-ministro (deve ter aprendido com o Rajoy e o Aznar), se a presteza com que a Economist faz propaganda política.

(Eu julgava que a Economist fosse uma revista séria.)

Ainda se aquilo que o Durão diz fosse verdade... Se de facto ele prestasse atenção ao deficit, se de facto o seu exemplo de "rigor" servisse de modelo para as famílias portuguesas... isso seria bom. Mas são tudo mentiras. Os investidores estrangeiros que se instalem cá em Portugal continuam a sofrer a concorrência desleal de empresas que não faturam as suas vendas, não declaram lucros, e estão instaladas em andares alugados por dez-reis-de-mel-coado em 1900-e-troca-o-passo, pelos quais esperam receber milhares de contos de "indemnização" quando decidirem rescindir o aluguer. Concorrência desleal a toda a prova, poucos investidores sérios, estrangeiros ou portugueses, a aguentam. E os juros baixos levam a maior parte das famílias portuguesas a fazer loucuras com dinheiro emprestado.

Afixado por: Luís Lavoura em abril 1, 2004 09:52 AM

A velha senhora é a mãe do Zé que Durão Barroso havia encontrado um dia em Coimbra.

Afixado por: António em abril 1, 2004 10:02 AM

AP,

Uma propaganda política destas é, claramente, contra-produtiva. Quando é descaradamente falsa os efeitos no investimento são negativos porque descredibilizam o Governo nacional.

Um investidor que queira investir a longo prazo vê (entre outros) os números do FMI (que a própria Economist refere) e vai reparar que temos um Governo que mente descaradamente.
Esse investidor vai ver nesta notícia um sinal de estabilidade ou instabilidade?

Propaganda efectiva não é dizer que Portugal é um paraíso económico com a mão-de-obra mais qualificada do mundo e sem entraves burocráticos nem corrupção. Isso é como as percentagens de 99,9% com que o Saddam ganhava as eleições. São tão exageradas que perdem a credibilidade toda.

Afixado por: Nuno em abril 1, 2004 10:23 AM

Nimguém reparou que a revista mencionada era apenas para ser editada hoje, dia 1 de Abril?

Afixado por: vf em abril 1, 2004 12:00 PM

Piada de 1 de Abril, vf?

Porque carga de água os fulanos da Economist haviam de gozar com o nosso Governo?

Essa é boa...

Afixado por: Pedro em abril 1, 2004 03:08 PM

Popular pode não ser. Mas com o cenário macro-económico de rastos, com o estado meio falido, com algumas reformas que foram para a frente e que ninguem antes teve tomates para as implementar, não acho que ele se esteja a dar tão mal assim. Daqui a 2 anos pode não ganhar eleições, mas com uma melhoria global da economia daqui a uns 4 anitos tirava a maioria com uma perna às costas, e acredito que fosse historica. Infelizmente para ele, a melhoria economica não virá a tempo e quem saboreará o momento deverá ser quem nos pôs neste lindo estado.

Afixado por: as em abril 1, 2004 04:12 PM

a data da revista é 27 de março

Afixado por: rui tavares em abril 1, 2004 05:45 PM

AP, eu sei que te pelas por isto mas faz um favor a sociedade. Vai morrer longe que se vivo es assim, moto deves cheirar muita mal.

Afixado por: ALf 73 em abril 2, 2004 01:55 PM

voce veio do sitio do picapau amarelo?

Afixado por: ze antonio em abril 27, 2004 10:38 PM