
Quando toda a gente se dedica a mostrar as suas credenciais revolucionárias, eu decidi assumir as minhas ligações ao Antigo Regime. A decisão de revelar esta faceta do meu passado foi motivada pela descoberta, no baú familiar, de uma fotografia minha com dois anos e meio de idade, nas férias do Carnaval de 1974. O retrato foi tirado na Alameda D. Afonso Henriques, onde viviam os meus bisavós, que enquanto foram vivos me cobriram de mimos. Ali estou eu, de barriga ligeiramente proeminente (hoje, felizmente, já eliminada) e um ar meio enfadado. Um belo representante da burguesia marcelista, sem dúvida. Na altura eu andava num jardim-escola, o "João Pequeno", situado ao pé do Jardim da Estrela, de onde os meus pais me viriam a retirar poucos meses depois, aparentemente porque as educadoras se entusiasmaram com a Revolução e decidiram alterar, de forma um pouco brusca, os métodos pedagógicos estabelecidos. Na altura a minha mãe ainda trabalhava: era professora de inglês no Liceu Pedro Nunes. A seguir ao 25 de Abril, abandonou o ensino porque não aguentou o ambiente de intimidação psicológica que alguns betinhos maoistas criaram nas salas de aula. O meu pai, um esquerdista muito moderado, não se deu nada mal durante o marcelismo. Foi adiando a incorporação militar graças aos estudos, e quando a tropa o chamou, o governo tinha entretanto optado pela "africanização" da guerra colonial; em consequência disso, o meu pai cumpriu os quatro anos de tropa na Administração Militar, ao mesmo tempo que ia montando uma pequena empresa de produtos congelados e jogando na bolsa. Após a Revolução, aderiu ao Partido Socialista e integrou, durante um curto período, o gabinete de Estudos do PS.
A minha adesão ao novo regime também se processou sem sobressaltos de maior. Há uma outra fotografia que atesta isso mesmo, mas, infelizmente, não consegui encontrá-la. Foi também tirada na Alameda, e eu apareço à varanda do apartamento dos meus bisavós com o meu primo Alexandre, cada qual com a sua bandeirinha verde-rubra. Essa foto data do 1º de Maio de 1974, possivelmente o dia mais memorável de toda a Revolução. Ora, como toda a gente sabe, o ambiente de unidade foi bem efémero e a política retomou o seu curso normal. Eu e o meu primo voltámos a andar à bulha. Não sei se por causa das nossas insanáveis divergências ideológicas (o Xano seguia a linha pró-albanesa dos meus tios e eu já era um soarista ferrenho), ou se por causa do triciclo que ambos disputávamos. Sei apenas que fui muito feliz durante a Revolução.
Publicado por pedrooliveira emÉpá, que sorte ter tido uma janela para a Alameda durante essa época! melhor que isso era uma janela para o Largo do Carmo. Ou ter andado no Pedro Nunes, sei lá.
Afixado por: antonio em abril 23, 2004 01:55 PMBarna, ok, aprecio os teus posts, o teu sentido de humor, e tal. Agora, tens de ter mais cuidado com a ortografia, porra! "bruguesia"?! caraças, pá! olha lá! Tens uma reputação a defender: um dos melhores na blogosfera nacional. Vá! continua...mas com cautela.
Afixado por: tintlhão em abril 23, 2004 02:28 PMNão quero defender ninguém mas o erro deriva provavelmente de uma escrita rápida e não revista. Sr. Tintlhão (Tentilhão?) tente escrever "burguesia" de forma célere, quase de certeza que também aparece mal escrita no ecran. Abraço
Afixado por: Francisco em abril 23, 2004 02:53 PMUm bom post sim senhor
Afixado por: Saul Pereira em abril 23, 2004 03:04 PMPergunto-me se a sua mãe se lembra de um grande professor de Português Manuel Pestana, que ainda hoje dá aulas no Pedro Nunes e que sabe mesmo muito daquilo que fala.
Afixado por: Saul Pereira em abril 23, 2004 03:06 PMpedro.
eras muito gira aos 3 anos :)
M
Pensava que os textos sobre o 25 de Abril só seriam publicados nessa data. Mas pronto, prerrogativas da blogosfera...
Afixado por: rodion em abril 23, 2004 04:59 PMPelo contrário, Rodion. O dia 25 está reservado aos leitores, tal como prometido. É uma prerrogativa dos leitores.
Afixado por: Daniel Oliveira em abril 23, 2004 05:32 PMBelíssimo post, este, do Pedro Oliveira. Mostrando como a Revolução e o que se lhe seguiu influenciou uma infância, feliz, por sinal, e consequentemente toda uma vida. Ou como as influências políticas se mostravam já nas crianças dessa época difícil mas emocionante. Espero que essas suas recordações perdurem sempre, Pedro.
PS: gostaria de ter escrito um texto, mas não era nascido à época, pelo que as minhas mais vetustas memórias são de Soares, Balsemão e Eanes. Como não passei pelo verdadeiro espírito revolucionário, e as pessoas mais próximas viveram o 25 de Abril longe dos acontecimentos (mas já não o PREC), optei por não escrever linhas imaginárias, que poderiam ser muito engraçadas mas jamais transmitir a mística desse dia. por isso, assistirei a todos o que o descreverem, da maneira mais sentida que souberem. De qualquer forma, uma excelente iniciativa do Barnabé, a acrescentar à dos cartazes, como o de baixo, do PS.