Criança comuna de chapéu leninista com a sua prima. Fim do PREC.
Havia uma nesga de luz a entrar na sala. É a primeira memória da minha vida. Pelo menos é a primeira que sei em que dia aconteceu. Eu tinha quatro anos e a revolução era uma nesga de luz vinda da janela, com as portadas fechadas. Antes disso, tudo escuro.
Depois há a minha mãe e a minha tia a coser à mão uma bandeira vermelha de linho, pesada. A foice amarela. O martelo amarelo. A estrela amarela. E, letra a letra, todas amarelas: Partido Comunista Português. Pau de vassoura, um orgulho infinito naquela bandeira. Muito, mesmo muito mais tarde, ela acabou por sair do “partido”. Mas nunca conseguiu separar-se da bandeira.
Menos depois, há o dia em que a minha mãe descobre que o meu padrasto fazia uns “trabalhos” para o PCP. E quase todos os seus amigos. E a sua irmã. E uma amiga da sua irmã que dividia casa com ela e que tinha uma vida misteriosa. Dizia que se chamava Teresa. Afinal chamava-se Zita. Hoje está num outro lugar da política. E não só.
Há a minha avó a queixar-se que lhe tinham remexido os tuppperware’s que estavam sempre tão bem arrumadinhos no porta-bagagens. Procuravam armas, vejam bem. Por causa de uma tal de uma maioria, e ainda por cima silenciosa. E a minha mãe, que tinha andado à procura de armas nos porta-bagagens dos outros, nem um corta unhas tinha no bolso.
No primeiro aniversário da revolução, a música na rua. A minha mãe pôs a tal bandeira na janela. O vizinho da frente pôs uma do PS. Saímos à meia-noite e aquilo nunca mais me saiu da cabeça. Um homem mergulhava na fonte do Rossio.
O meu padrasto desesperado à procura de uma gravata. Ia votar a primeira Constituição. Não deve ter sido nesse dia que me sentei, no gabinete do PCP, na Assembleia, e desenhei Soares vestido de cowboy e Cunhal vestido de índio. Eu estava pelos índios, claro. Pelo "Álvaro", claro.
Dez anos passados, eu seria “o comuna”, no Pedro Nunes.
Mas tudo isso foi muito depois. Naquele dia era só uma nesga de luz na janela. Tínhamos um rádio estranhíssimo, cor-de-laranja, refeito pelo meu avô. O rádio cor-de-laranja tinha dito para não sair de casa. A minha mãe não saiu. Só muito mais tarde foi à rua ver o que se passava e fechou, a medo, todas as portadas. E eu, com os meus irmãos, só tinha aquela nesga de luz. Antes disso, tudo escuro e nenhuma lembrança. Depois disso, a janela abriu-se, tivemos televisão e máquina de lavar roupa e cada dia era mais rápido do que o outro. A luz até cegava.
PS: como o dia 25 de Abril será apenas para os nossos leitores (podem mandar os textos até ao fim do dia de hoje) esta é a minha memória, depois de o Pedro ter posto a sua.
Publicado por danieloliveira emO Daniel é um produto do meio. A humanidade está salva. A culpa é sempre dos nossos pais.
jcd
Afixado por: jcd em abril 23, 2004 06:06 PMDeve ter sido uma sensação única, sair à rua e poder RESPIRAR. Abraço
Afixado por: francisco em abril 23, 2004 06:17 PMSr Daniel Oliveira Barnabé
Gostei de o ver, de costas, hoje no DNA.
Andar a passear por Lisboa, com a Camila Coelho,
palpita-me que não é para qualquer um. Parabéns.
Gostei de conhecer o seu perfil. Vou continuar
a lê-lo, com prazer, aqui no blogue.
sacana do puto tinha mesmo um ar de comuna. e reguila.
agora resta-nos partir o côco com a crónica camiliana caso se confirme a informação acima.
Desta vez, não me apetece ser o Zás!Pás!...
Obrigado, Daniel.
J.E.S.
ahahahaha
Viva boina à basco
A boina basca não é assim.
Afixado por: Daniel Oliveira em abril 24, 2004 01:05 AMjcd, felizmente, a familia teve a culpa. Agradeço-lhes por isso. E pelo resto, claro.
Afixado por: Daniel Oliveira em abril 24, 2004 02:20 AMVeja-se o ar de autómato da criança como se estivesse a receber um choque eléctrico.
era pela boina que eles lavavam o cérebro às criancinhas. por dentro estavam cheias de eléctrodos e antenas ligadas a centros soviéticos de recondicionamento. Coitadinhas a partir dos dois anos de idade deixavam de poder ver o vitinho e passavam os dias a ver filmes -alguns de desenhos animados, outros a cores - com o camarada estaline
tchernignobyl, por isso é daí que nasce a equação: electrcidade+sovietes. Eram desenhos animados checos que eu via. Mas isso não era só eu. Eram todos os que queriam ver o que vinha depois, nos programas do Vasco Granja.
Afixado por: Daniel Oliveira em abril 24, 2004 06:21 PMEste tema vai ser aproveitado para a próxima novela da TVI. Já têm o decor só lhes falta o boné para o puto. Até me falaram nisso para ver se encontrava uma sobra do filme do Vasco Santana, " palerma, chapéus há muitos...", mas respondi que para esse peditório já dei...
Afixado por: justino em abril 24, 2004 07:56 PMReaça, anti-comuna, heróis, agualusa... estão à espera de quê para perguntar - ó Daniel, afinal, quando é que mudas ?
Afixado por: Real em abril 24, 2004 07:58 PMHá coisas que não mudam
Afixado por: Daniel Oliveira em abril 25, 2004 01:45 AMPois, isso é o que os gajos andam sempre a dizer,
Afixado por: Real em abril 25, 2004 02:20 AM