abril 24, 2004

R de inconsciente

A 25 de Abril de 1974 eu tinha 2 anos e 8 meses. Sem memória, imagino um dia pachorrento em Moncarapacho (concelho de Olhão), no tempo rural do meu avô, grandes portadas fechadas. Muitos como eu que aqui escrevem têm esta memória por procuração. Demasiado pequeno para me lembrar do dia, ainda captei qualquer coisa depois, senti o PREC como a criança que era. A minha memória menos fragmentada data realmente de 75-76, sobretudo com os meses passados em Árgea, perto de Torres Novas, na cooperativa Comunal. Apercebi-me mais tarde de como havia ali uma energia social extraordinária que se misturava com as histórias pessoais de cada um. Dois tumultos. O meu, do que me lembro, tinha a ver com prementes angústias de separação.
Mesmo se isso tem um lado angustiante, uma das coisas bonitas do 25 de Abril para mim é esta coisa de procurar recordações de menino. Posso fazer analogias com a revolução e a sua ingenuidade. Uma mitologia de ricos e GNR’s maus, e povo bom. O facto de eu não me lembrar do 25 de Abril como adulto abre mais a porta à fantasia e à ausência da decepção política característica do meio familiar em que nasci, o princípio da realidade (25 de Novembro). E faz de mim em certa medida um nostálgico sem objecto. Ou de um objecto deslocado, mas fundamental, ligado à construção da minha história. Assim, o meu 25 de Abril não deixa de ser real, presente. Testemunha de testemunhas, vivo esse dia através de emocionantes imagens que nunca poderei esquecer, como a do meu pai contando o seu 25 de Abril passado fora de Portugal, na cama de um hospital, em lágrimas, vendo na televisão a libertação dos seus amigos presos políticos. Com marcas tão reais e vivas, parciais mas históricas, nunca me entrarão na cabeça revisionismos badamecos.

(Tinha, para seguir os meus amigos barnabés, preparado uma foto de época, mas dificuldades técnicas impediram a publicação. Eu conto-vos em formato jpg: estou em Árgea, a olhar para vocês com um sorriso meiguinho e franco. Estou deitado de barriga para baixo, as mãos apoiadas no chão levantando o meu tronco até bem acima. Mas o facto mais saliente é que estou com a maior carecada que se possa imaginar porque tinha apanhado uma camada de piolhos ou lêndeas e, tal como a minha irmã, levei uma radical tosquia que detestei. E no entanto aqui estou francamente contente. Será pelas macacadas do meu pai, que tira a foto?)

Publicado por andrebelo em
Comentários

Uma boa razão para comemorar no 25 de Abril:
"PPPPPôôôrrrrrtttttôôôô !!!!!"

Afixado por: Reaça em abril 24, 2004 11:42 PM

Quer queiram quer não queiram

25 DE ABRIL SEMPRE

VIVA O 25 DE ABRIL

Afixado por: O Socialista em abril 25, 2004 01:17 AM

argea? eu cá sou da Lamarosa, uma terrinha lá perto

Afixado por: Saul Pereira em abril 25, 2004 01:43 PM

Olhão??? O amigo é algarvio???

Afixado por: SM em abril 25, 2004 10:33 PM

A minha mãe é dali, de perto de Moncarapacho. Eu sou lisboeta, gostando muito desse Algarve.

Afixado por: André Belo em abril 26, 2004 01:18 AM

Eu tambem vive o 25 de Abril em Argea Era um crianca com 5 anos . tenho recordacoes desse tempo .varias fotos . do tempo da Cooprativa .

Gostava de Conhecer o autor desta Pagina .que deve ser do meu tempo .

Eu tenha muitos amigos desse tempo que numca mais os ve .depois da cooprativa ter fechado.
Um abraco

Afixado por: Rafi em junho 22, 2004 10:31 PM