Nasci numa família de camponeses migrados para Lisboa nas décadas de 50 e 60. Poucos tinham mais do que a "instrução primária", mas a aldeia ribatejana de onde vieram tinha uma tradição republicana, oposicionista e de esquerda com raízes no início do século XX. Um dos meus tios foi preso diversas vezes, uma delas por participar em comemorações reviralhistas do 5 de Outubro, e mais tarde por suspeitas de pertencer ao Partido Comunista Português. Na verdade a única prova encontrada em casa dele havia sido um cabeçalho do Avante! que por azar tinha ficado esquecido, já não sei se debaixo de um colchão. O resto das coisas – cassetes, livros, etc. – tinha já sido enterrado num quintal insuspeito uns meses antes. Tudo isso tinha, contudo, pouquíssima importância, até porque o juiz que o condenou dormiu durante praticamente o tempo todo do julgamento. No fim abriu os olhos e proferiu as sentenças. O meu tio apanhou dois anos de prisão.
Em 1972, quando eu nasci, esse meu tio estava preso no forte de Peniche. No dia 15 de Agosto desse ano, com pouco mais de quinze dias, os meus pais levaram-me à cadeia para que ele pudesse ver o seu novo sobrinho. A minha mãe conta com orgulho que a dado momento os outros presos pediram aos familiares que se afastassem para que pudessem ver aquele recém-nascido enquanto ela me mudava as fraldas numa mesa ali mesmo no parlatório. Alguns daqueles presos estavam ali há anos; ver um bébé era ver um sinal da vida lá fora. Ou talvez, como eram comunistas, estivessem apenas a pensar no pequeno-almoço.
Foi essa a minha primeira acção de luta anti-fascista e de solidariedade para com os presos de opinião: deixar que me mudassem a fralda como sinal de que um dia haveríamos de sair daquela merda. Sei que não é grande coisa, mas fiz o que pude.
Uma estranha corrente freudiana liga este episódio a um outro ocorrido já depois da revolução: a minha primeira intervenção numa manifestação. Toda a família sabe que aconteceu num 1º de Maio, mas há divergências sobre se foi em 74 ou 75. A minha mãe acha que foi no grande 1º de Maio de 1974, e garante que esse foi o dia em que deixei de usar fraldas (viram?).
Aconteceu assim: perdi-me da minha família e as pessoas que me encontraram a chorar levaram-me até ao palco. Lembro-me de caminhar pelo meio de pernas de adultos que me pareciam gigantes, provavelmente políticos importantes. Puseram-me o microfone à frente da boca e perguntaram-me como me chamava, ao que eu respondi como tinha aprendido, repisando mecanicamente todos os meus cinco nomes. Não consta que as massas tenham ficado muito galvanizadas, mas pelos menos os meus pais e os meus quatro irmãos mais velhos chegaram a correr com grandes sorrisos e felicitaram-me muito.

(O revolucionário sem fraldas)
Chegado a este ponto, parece que já estou a ouvir o típico comentador de direita do Barnabé a perguntar-me onde é que eu estava no Verão Quente de 1975 se não a ocupar terras arduamente adquiridas por honestos cidadãos. E, por incrível que vos pareça, era exactamente isso que eu estava a fazer aos três anos. Não tenho aqui à mão uma fotografia muito goyesca que mostra o pessoal da aldeia a invadir a Quinta do Brinçal, com o meu pai em cima de um reboque erguendo uma forquilha. A Quinta do Brinçal era posse de um senhor chamado Barbieri Cardoso, que caso nunca tenham ouvido falar era um competente e trabalhador PIDE com uma brilhante folha de serviços, incluindo o momento alto da sua carreira que foi o envolvimento no assassinato de Humberto Delgado. Curiosamente, ele também se tinha limitado a ocupar ilegalmente aquele terreno. Mas os seus altos serviços à Nação, quem sabe o dedicado sadismo com que mandava torturar os presos, fizeram com que esta fechasse os olhos a uma ocupação que foi feita sem arruaça nem recurso à ralé.
O meu Verão Quente foi então passado a perturbar a economia do país com as terríveis consequências que conhecemos e que hoje em dia explicam tudo o que de errado acontece em Portugal, desde os comboios atrasados à falta de respeito. Foi assim: todos os dias vinha uma camionete da Azambuja que levava os miúdos todos a nadar à piscina que tinha pertencido ao tal senhor PIDE. Era uma piscina redonda que não dava grande jeito para ter aulas. De qualquer forma, foi a primeira em que nadámos, tanto eu como muitos miúdos das aldeias em volta.
Estávamos na fronteira entre Azambuja e Rio Maior, e nem nos dávamos conta de que se o país entrasse em guerra civil se partiria ao meio exactamente por ali. Nós viveríamos num paraíso socialista e o leitor para lá da terra das mocas num Iémen do Norte chileno, com o Cónego Melo como grande Ayatollah e os senhores do ELP como pinochês.
Publicado por ruitavares emBela prosa.
Afixado por: gui em abril 25, 2004 12:40 AMMeu caro!
Aquela das fraldas e do 1º de Maio mais parece a bio do Kim Jong Il. Ou então um charrito muita bem enrolado ...
Cumprimentos revolucionários
Daniel Polónia
Rui, permita-me neste dia recordar dois grandes Homens:
Disse Francisco Sousa Tavares de Salgueiro Maia
"Era um militar de bravura inigualável,mas também extremamente sensato e um homem de coração. Maia era um chefe nato e dele emanava a força serena dos homens habituados a dominarem-se e,sendo preciso a dominar os outros.
Foi assim que Salgueiro Maia, com os seus homens, venceu na Revolução e virou a página da História de Portugal.E dominou o tempo e a vitória que veio ter com ele,obediente e fascinada."
VIVA O 25 DE ABRIL SEMPRE
Brilhante texto, Rui. Excelente. Autêntico.
Afixado por: Filipe Moura em abril 25, 2004 01:56 AMBrilhante texto, Rui. Excelente. Autêntico.
Afixado por: Filipe Moura em abril 25, 2004 01:56 AMRui, obrigado pelo 25 de Abril de 2004.
Afixado por: Varrido em abril 25, 2004 07:58 AMando realmente com amnésia.
Afixado por: Cândida em abril 25, 2004 10:54 PMMeu querido amigo,
Eu sei que permites que te trate assim, afinal, muitas vezes, crescemos juntos. Como nesse dia de Abril, que alguns querem esquecer e, que eu infelizmente não me recordo muito bem, devido aos três anos que ainda tinha.
Lembro-me, enfim, de sair de casa, no automóvel do meu pai, deitado no banco traseiro, na noite de 25 e irmos para casa do nosso tio, o tal que ainda hoje admiro e, sempre admirarei, por ter sido um dos combatentes da longa e escura noite. É incrível que nos ultimos 29 anos, a queiram fazer esquecer e comemorem a Liberdade por obrigação e por decreto (a liberdade é para ser comemorada com sentimento, é para ser celebrada com o coração, é para ser exultada).
Dessa madrugada lembro apenas a viagem e o medo dos meus pais, por não saberem se a Revolução triunfaria. Para mim e para a minha irmã era apenas mais uma viagem de automóvel, a casa de um tio, que muitas vezes tinhamos visitado em Peniche.
Mas lembro-me do 1º de Maio. Lembro-me das ruas cheias de pessoas que comemoravam, finalmente a liberdade. Lembro-me de cantar as músicas do Zeca e do Sérgio. Lembro-me de crescer, durante algum tempo com a revolução.
E lembro-me da piscina redonda e das tardes que passávamos dentro de água.
Meu querido amigo,
Eu sei que permites que te trate assim, afinal, muitas vezes, crescemos juntos. Como nesse dia de Abril, que alguns querem esquecer e, que eu infelizmente não me recordo muito bem, devido aos três anos que ainda tinha.
Lembro-me, enfim, de sair de casa, no automóvel do meu pai, deitado no banco traseiro, na noite de 25 e irmos para casa do nosso tio, o tal que ainda hoje admiro e, sempre admirarei, por ter sido um dos combatentes da longa e escura noite. É incrível que nos ultimos 29 anos, a queiram fazer esquecer e comemorem a Liberdade por obrigação e por decreto (a liberdade é para ser comemorada com sentimento, é para ser celebrada com o coração, é para ser exultada).
Dessa madrugada lembro apenas a viagem e o medo dos meus pais, por não saberem se a Revolução triunfaria. Para mim e para a minha irmã era apenas mais uma viagem de automóvel, a casa de um tio, que muitas vezes tinhamos visitado em Peniche.
Mas lembro-me do 1º de Maio. Lembro-me das ruas cheias de pessoas que comemoravam, finalmente a liberdade. Lembro-me de cantar as músicas do Zeca e do Sérgio. Lembro-me de crescer, durante algum tempo com a revolução.
E lembro-me da piscina redonda e das tardes que passávamos dentro de água.
Mais uma vez tenho de te agradecer a oportunidade de me recordares que a Revolução existirá sempre, desde que nós não a esqueçamos.
Apenas uma breve correçao.
A QUINTA DO BRINÇAL, ere pertença de um
senhor chamado Comendador ANTONIO CARDOSO
DOS SANTOS LOUREIRO que embora conectado com
o regime de entao ,nada teria a ver com a PIDE.
Mais nunca ocupou a referida quinta,tendo sim
adquirido a mesma a bom preço a Senhora Dona
LUIZA DE NORONHA.
viva o 25 de Abril sim , mas com verdade.