Lembro-me de um dia 25 de Abril algures no meio da década de 80, altura em que os ânimos já se tinham acalmado e o país entrava nos primeiros anos cavaquistas. As comemorações estavam a ficar cinzentas e ritualizadas, contrastando com as festas coloridas dos anos que se seguiram à revolução. Recordo o colorido desses dias sempre solarengos. As cores dos cravos e das tintas que usávamos para pintar, até à exaustão, cravos em canos de espingardas. Lembro-me dos torneios desportivos, das corridas e das medalhas. Eram dias de vermelho e verde que coloriam as paredes híbridas dos prédios sem cor dos subúrbios da Margem Sul.
A partir da segunda metade dos anos 80 as festas deixaram de se viver nos bairros e nas freguesias e tornavam-se cada vez mais institucionais. Já não brotavam cravos nas paredes e marquises do Feijó. Por detrás do meu prédio existia um descampado que resistia à fúria da construção. Neste pedaço de terra passávamos dias a jogar à bola e a comer o pó levantado pelas tropelias. Era uma ilha rodeada de prédios. Alguns ainda estavam em construção e serviam de castelos para a nossa imaginação.
Contudo, nesse dia 25 de Abril já não se sentiam os sons e as cores da festa. Naquele bairro era um dia igual aos outros. Um feriado vivido em casa ou no deslumbramento dos primeiros centros comerciais. As festas decorriam nas cidades e o Tejo era um barreira quase intransponível que tornava Lisboa muito distante para um adolescente da Margem Sul. Recorri aos poucos discos que tinha em casa e que ouvia numa daquelas aparelhagens com gira-discos e gravador incorporado. Lembro-me particularmente de dois: o single da Grândola Vila Morena do Zeca Afonso e um LP de Adriano Correia de Oliveira “Gente Daqui e de Agora”, que por se encontrar tão riscado fazia saltar a agulha em algumas faixas.
O fio das colunas da aparelhagem era comprido e chagava à janela que dava para o descampado. De repente o som dos discos do meu pai entoou por todo o quarteirão durante duas ou três horas. Organizei uma transmissão radiofónica a partir dos poucos discos que tinha. Alguns sons de Abril saíam do altifalante da aparelhagem e espalhavam-se contra o betão do subúrbio. Senti que algumas pessoas que habitavam aquelas paredes poderiam estar a ouvir. Tentei levar aquilo a sério, tendo o cuidado de seleccionar as faixas adequadas, o que requeria alguma perícia pois tinha de acertar com a agulha no sítio certo. Ninguém reclamou do barulho e a música terminou ao entardecer. Naquele dia 25 de Abril fui eu que dei cor ao bairro com a minha emissão radiofónica.
Renato Carmo
Publicado por danieloliveira em