
Remember men, aim for hearts and minds!
É no semanário conservador britânico Spectator que tenho encontrado alguns dos melhores cartoons e artigos de opinião sobre os últimos desenvolvimentos da crise iraquiana. A revista ainda não se viu livre do horrendo Mark Steyn (o correspondente nos States) e também não me parece que em termos editoriais já tenha emendado completamente a mão em relação à política externa de Bush e Blair. Mas é evidente que o facto de já não ser controlada por Conrad Black, e do seu editor, Boris Johnson (deputado conservador), ter intuido que sob a liderança de Michael Howard os tories poderão começar finalmente a criticar o envolvimento britânico nesta aventura desastrosa, ajudará a explicar a maior abertura da revista a autores que nada têm a ver com a direita neo-conservadora. Um bom sinal disso mesmo é, por exemplo, a contratação do já lendário Andrew Gilligam (o jornalista da BBC que denunciou o "apimentamento" do dossiê de Downing Street sobre as ADM) como correspondente para assuntos diplomáticos e de defesa. O penúltimo número (parcialmente disponível no site da revista), além de ter um punhado de cartoons fabulosos, traz alguns dos comentários mais ácidos que pude ler nas últimas semanas sobre o "quagmire" iraquiano (além da reportagem de Gilligan em Bagdade, o de Rod Liddle, "Things were better off under Saddam", é impagável). A edição desta semana, apesar de nos impingir um artigo-resposta de William Shawcross a Gilligam e Liddle, traz três textos de primeira água: um de Michael Lind sobre o culto neo-conservador de Churchill (figura indecentemente apropriada por uma direita americana profundamente ignorante), outro de Paul Robinson sobre a ameaça que algumas das tácticas e métodos de combate ao terrorismo colocam aos valores humanistas das nossas sociedades democráticas (artigo a que voltarei mais tarde), e, finalmente, uma crítica demolidora de Gerald Kaufman ao apoio de Bush ao plano de "desengajamento" de Ariel Sharon de Gaza e da Cisjordânia.
Publicado por pedrooliveira emO artigo sobre Churchill devia ser entregue em mão a todos os neo-conservadores. Também pode ser encontrado aqui. Nada disto é de espantar: os neo-conservadores consideram a ilusão e a manipulação como essenciais na política. Mas para iludirem outros de modo convincente, primeiro precisam de se auto-iludir. Se não fossem tão perigosos, até era quase possível ter pena deles...
Afixado por: viana em abril 27, 2004 03:59 PMNão sei nada sobre "o culto neo-conservador de Churchill", mas Churchill parece-me um personagem muito conveniente para ser admirado pelos neo-conservadores. Especialmente pelos que gostam de atacar o Iraque. Churchill escreveu, em 1919, enquanto chefe da Força Aérea britânica (salvo erro), uns comentários muito interessantes contra alguns britânicos que mostravam escrúpulos morais contra a utilização, pelos ingleses, de gás químico sobre as tribos xiitas insurretas no sul do Iraque. Basicamente Churchill disse que esses gajos iraquianos não passavam de uns selvagens e que deviam ser gaseados em boa forma, Empire oblige, tratados com a dureza e eficácia com que um império deve tratar os bárbaros que contra ele se insurgem. As citações exatas de Churchill, e suas fontes, aparecem em diversos livros de Noam Chomsky. Depois de as ler, garanto, ninguém que não seja neo-conservador poderá continuar a admirar Churchill.
Afixado por: Luís Lavoura em abril 27, 2004 04:18 PMconfesso a minha abstrudez. comprei a revista e acabar o artigo do steyn nas bordas da náusea meti a revista para o saco e passei a outra coisa. pelos vistos tenho de ir de novo buscá-la. mas para já, da amostra que é possivel fazer com este post, um do cruzes e a minha própria modesta aquisição penso que se poderá dizer que os sacanas dos conservadores andam a ganhar a vida à custa da canhotada. Shame on us!
Afixado por: tchernignobyl em abril 27, 2004 07:50 PM